segunda-feira, 4 de maio de 2015

Hamlet: Shakespeare e a Consciência Individual do Sujeito Moderno

Por: Erick Morais

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Hamlet é o príncipe da Dinamarca e seu pai o rei Hamlet é morto, sendo assassinado pelo seu próprio irmão Cláudio, que o envenena. Um mês após a morte, Cláudio casa-se com a mãe de Hamlet (Gertrudes), e isso causa uma revolta no personagem, pois sua mãe não respeitara o luto devido ao seu pai. Para complicar, ainda mais, Hamlet recebe uma visita do fantasma do seu pai que o conta sobre o seu envenenamento, ensejando em Hamlet o desejo de vingança. Contudo, Hamlet é um personagem complexo, e essa decisão acaba levando toda a obra.

Entre muitas relações que podem ser feitas entre a peça e a psicanálise, como a ideia de culpa, traição, complexo de Édipo, entre outras, prefiro a ligação entre o protagonista da história e a melancolia, o que está diretamente ligado à criação da consciência individual do sujeito moderno.

De uma forma geral, na história do pensamento, a melancolia sempre esteve ligada a uma capacidade maior de discernimento, maior inteligência, maior feeling. Ou seja, uma maior capacidade de enxergar a vida como de fato ela é, enquanto pessoas “felizes demais” parecem não enxergar essa verdade vista pelos melancólicos. Não é à toa que o filme Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) ganhou o Oscar.

Esse conhecimento traz um peso, pois o melancólico enxerga no mundo aquilo que os outros não conseguem ver, e isso, leva a um embate moral constante no indivíduo melancólico, o qual se vê o tempo inteiro sendo confrontado pela realidade. Sendo assim, em primeira análise, o melancólico sofre de si mesmo, por saber mais que os outros.

É nesse entendimento, que reside o fardo moral do melancólico. A ideia é que quanto mais sabemos sobre algo, mais nos é imposta uma atitude. O Hamlet percebe uma insustentabilidade no mundo que os outros não veem, isto é, a humanidade do indivíduo é vista sob a perspectiva da precariedade, em que a própria condição humana é um empecilho para uma vida plena, e quanto mais esse contemplador do mundo adquire conhecimento, a sua capacidade de se alegrar com as coisas diminui.

Por esse motivo, Hamlet é visto pelos “ignorantes” como um ser diferente, afastado da realidade e não, raras vezes, louco. A loucura, aliás, é um traço marcante daqueles que se põem a pensar e se contrapor a ordem estabelecida, aos que procuram ir no sentido contrário do senso comum.

A viagem que Hamlet faz nos leva a problemas existenciais. O que é a vida? O homem? Por que estamos aqui? Somos tão precários? Carregamos tantas mazelas? A busca por um sentido na vida faz do ser melancólico um enigma existencial, pois o seu conhecimento traz obrigações morais (deliberações livres sobre a melhor maneira de agir perante uma situação) e certo receio ao tomar a atitude desejada, uma vez que a contemplação do mundo que o melancólico possui, o faz repensar as suas atitudes.

“O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão com o tom pálido e enfermo da melancolia.”

É esse embate psicológico, que faz com que Hamlet só tome atitudes, propriamente ditas, ao final da peça. Ou seja, o protagonista passa toda a peça discutindo consigo mesmo sobre a atitude correta a ser tomada, será a melhor ação vingar a morte do pai? Mas, ele, enquanto, sabedor da vida mais que todos ao seu redor, não pode tomar uma decisão, antes que o seu eu por completo tenha certeza, o que demonstra também o traço do individualismo, característica marcante do sujeito moderno.

Em outras palavras, o problema do melancólico é sempre dele com ele mesmo, é sempre uma decisão moral. Talvez, por isso, a loucura seja associada a esses indivíduos, visto que enxergar a verdade nos mostra quão finitos somos, nos faz questionar sobre o sentido da vida, nos mostra nossas vicissitudes, nos leva além de águas rasas.

O grande problema, assim, não é a condição precária do homem, mas a consciência dessa condição, a qual o melancólico possui.

“Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra?”

A existência é pesada, é insustentável ao melancólico. O melancólico é guerreiro e covarde, é artista e contemplador, é certeza e dúvida, é o questionamento da vida, dos outros. É a consciência humana na sua totalidade individual. Mas, acima de tudo, é a problematização constante entre o que há de homem no ser e o que há de ser no homem, já que é entre o ser ou não ser, que se coloca a questão do indivíduo.

“Ser ou não ser, eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias e, combatendo-o, dar-lhe fim?”

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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