terça-feira, 16 de junho de 2015

A Morte de Ivan Ilitch e a Queda da Máscara Existencial

Por: Erick Morais

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Já dizia o poeta que a morte é o único mal que não pode ser remediado. Outros podem dizer que a morte é a última fronteira. E alguns dirão que a morte é apenas a libertação da alma. Mas, fato é, que ela de um jeito ou de outro nos amedronta. Para Ivan Ilitch não foi diferente. A novela de Tolstói é uma obra que fascina por tratar de um dos temas mais importantes da história do pensamento humano, a saber, a morte. A vida de Ivan é definida, logo no início da obra, como uma das mais simples, mais comuns e, portanto, mais terríveis.

 

Essa definição é primordial, pois o medo da morte nos coloca num ponto de introspecção, em que refletimos sobre nossa vida e se esta valeu à pena. Sendo assim, inicialmente já se percebe que a vida do protagonista não foi bem vivida como o próprio acreditava. Ivan Ilitch era um sujeito pragmático e racional. Desse modo, levava sua vida segundo um princípio básico: viver de maneira leve, agradável e decente. Qualquer coisa que atrapalhasse essa ordem lógica era um entrave ao que Ivan acreditava ser felicidade. Como racionalista, as suas alegrias vinham de pontos bem específicos:

“A alegria que Ivan Ilitch encontrava no trabalho era a alegria da ambição; as alegrias da vida social eram as da vaidade; mas as verdadeiras alegrias era proporcionadas pelo uíste.”

Fica claro que as alegrias começam e terminam em Ivan Ilitch, o que demonstra o seu egoísmo, mas que, segundo o olhar do protagonista, condizem com uma vida “decente”. Em verdade, não condizem. Contudo, ao longo da vida cada indivíduo cria uma definição de si mesmo, a qual se busca manter como uma espécie de “auto-crença”. A despeito disso, Montaigne nos diz que:

“A vida vivida ao longo da vida é um teatro de simulações, onde somos, em grande medida, escravizados por aquilo que acreditamos que somos!”

Essa máscara existencial, a qual Ivan Ilitch usava, só começa a ser percebida a partir da sua doença, já que os momentos em que a finitude da vida se escancara são mais propícios a análises sobre o modo como levamos e encaramos a existência. Assim, é a doença que permite ao protagonista olhar para dentro de si criticamente, ter consciência de si.

O medo da morte o faz perceber a finitude da vida, logo ele que entendia fim com apenas um sentido: finalidade. De modo que procurou viver de forma racional em tudo que fazia. Nietzsche já advertia que é muito ingênuo acreditar que as coisas só podem se resolver pela lógica. E, dessa forma, logo a morte (tão ilógica) é o estopim da mudança na cosmovisão do nosso protagonista. A partir disso, ele começa a perceber o teatro que o cercava, que por trás do requinte escondiam-se mentiras, as quais eram mantidas pela “decência” que ele defendeu por toda vida. E eram essas mesmas mentiras que alimentavam a dor, não física, mas moral de Ilitch.

“O que mais fazia Ilitch sofrer era a mentira, aquela mentira aceita por todos.”

Ilitch se viu impotente em relação à morte, uma vez que a morte é toda relação que apequena, entristece, tira a potência (Spinoza). Assim sendo, à medida que as relações o entristecem, ele aos poucos ia morrendo. Em outras palavras, o medo é uma queda de potência determinada pela consciência, isto é, se Ivan tem medo da morte é porque ele não viveu como deveria e, portanto, entristece ao saber que não viveu da forma decente como sempre acreditou. 

“E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos da sua vida. Mas – coisa estranha! – tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.”

A doença que acabara com a decência da vida de Ilitch foi a mesma que o fez perceber que a sua vida foi tão fútil e mesquinha quanto a dos outros. Ora, a doença mostrou-lhe que até ali a sua vida não foi decente, que ele era incapaz de colocar-se no lugar dos outros, de viver para alguém além de si mesmo, de criar laços. E, assim, se via a falsidade nos olhos dos outros, enxergava ao mesmo tempo a própria falsidade que construiu e carregou durante toda a sua própria vida.

Ivan Ilitch percebe que à medida que sua vida escoa, os momentos que viveu e, sobretudo não viveu, são irrecuperáveis. Percebe que a doença encontrou terreno farto para se reproduzir, pois tudo que vivera não passou de mentiras, mentiras que agora o entristeciam e irrigavam o terreno da dor moral que sentia, fazendo esta ser muito mais tormentosa que qualquer dor física que sentira.

“Quando entrou a repassar o período que gerava o atual Ivan Ilitch, tudo o que lhe parecera ser alegria se desmoronava ante seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil.”

A morte foi para Ilitch uma libertação do teatro que o cercava. Entretanto, ainda assim, ela o deixava impotente, uma vez que chegada a hora da sua morte, do fim da sua existência, ele não conseguia nem por um segundo sequer se orgulhar do que fizera, tampouco, sentia alguma felicidade que o fizesse querer reviver a vida que tivera.

Assim, a boa vida não é aquela que se preocupa tão somente com a finalidade das coisas, mas com o término, pois é por ter um fim que a vida possui valor e devemos atribuí-la valor. Não como Ivan Ilitch e sua monótona vida burocrática, e sim, com aquilo que nos permite olhar nos olhos do outro e enxergar que a vida de fato foi decente, que o amor se fez presente e que mesmo não respirando os ares desta terra, continuaremos importantes; não para a alta sociedade, mas para quem possa portar-nos dentro de si como um pedacinho nosso que continua vivo.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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