segunda-feira, 27 de julho de 2015

Divertida Mente: A dor pode ser curtível

Por: Erick Morais

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Em um mundo onde as aparências predominam, onde a vida transformou-se em palco, todos devem parecer felizes, como se a felicidade fosse uniforme e perene. Nesse contexto, os outros sentimentos que nos formam (e não são poucos) ficam em segundo plano, ou são vistos como sentimentos menos importantes, não se admitindo lugar, sobretudo, para a tristeza.

A animação “Divertida Mente” da Pixar relata o conflito entre os sentimentos e vem bem a calhar com o atual momento que atravessamos. A vida contemporânea exige cada vez mais de nós; a fluidez dos relacionamentos tornou a vida muito mais dinâmica e, assim, devemos estar prontos a sempre nos adaptarmos a novas situações.

Esse fato por si só já é difícil, contudo, a vida moderna cobra de nós um resultado que, muitas vezes, não podemos ou não queremos dar. A necessidade em produzir resultados, com metas sempre maiores, nos transformou em autômatos ou como prefere Saramago – máquinas de ganhar ou tentar ganhar dinheiro. Pouca importa o que gostamos ou sentimos, devemos produzir, dar resultados, acontecer na vida.

O único sentimento que é levado em consideração é a “felicidade/alegria”, pois o sorriso é a melhor propaganda de uma pessoa bem sucedida, digo mais, é “conditio sine qua non”, isto é, condição necessária do seu sucesso, afinal, quem depositaria credibilidade em um indivíduo de sucesso com fotos tristes no instagram?

Não que eu seja contra a felicidade das pessoas, inclusive nas redes sociais, mas qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que é impossível ser feliz o tempo inteiro, e que essa obsessiva cobrança que nos é imposta tiraniza a felicidade, como se esta fosse obrigatória o tempo inteiro.

A tristeza, dessa forma, é o símbolo maior do fracasso, logo, se você não quer ser um fracassado, não fique triste. Essa relação é no mínimo questionável, pois é a partir da tristeza que determinamos a alegria. Dito de outro modo, seria impossível apreciar um bom momento se ele fosse comum.

Necessitamos da tristeza para dar o real valor aos bons momentos, já que, se todos os momentos fossem alegres, estes se esvaziariam de sentido. Além disso, a tristeza expõe as nossas fragilidades e aquilo que escondemos ou não queremos enxergar; derruba os nossos muros, as nossas proteções e permite que o outro nos olhe como realmente somos. São nos momentos tristes que percebermos quem de fato se importa conosco e procura nos entender.

A tristeza expõe as nossas fragilidades, mas é assim mesmo que somos, seres frágeis. Portanto, devemos ter maturidade para lidar com os altos e baixos da vida. Todavia, a ditadura da felicidade nos torna incapazes de lidar com situações que nos deixam tristes, assim como cria personagens como o “feliz do facebook”, o qual se preocupa com os mínimos detalhes para impressionar os outros e mostrar como a sua vida está indo de vento em popa, mas na verdade esconde a tristeza numa ilha perdida.

O problema é que um dia essa ilha é descoberta e a tristeza acumulada é exposta de uma só vez. Como esse indivíduo não está preparado para lidar com a mínima tristeza, logo, não saberá lidar com tamanha. Essa falta de maturidade emocional ocasiona o oposto da felicidade excessiva – a depressão.

Mas, a depressão não coloca fim a ditadura da felicidade, pois, como você tem que ficar projetando o tempo inteiro a ideia de que vai dar certo, você deve estar sempre feliz e, portanto, não há espaço para a depressão. Busca-se nos antidepressivos a solução, criando mais uma vez uma “felicidade fake (ou face?)”. E pior não resolve o problema.

A questão é que não existe problema em ficar triste, sentir dor, sentir-se fraco, pois a tristeza e a dor fazem parte da vida e são importantes para o crescimento emocional. A tristeza é uma espécie de luto necessário ao crescimento, servindo como um ampliador do horizonte, em que desarmados podemos analisar a situação com clareza e enxergar uma nova perspectiva.

Em um mundo onde a dor não é “curtível”, esquecemos que o choro acalma e faz suportar o peso dos problemas. Não é através de uma felicidade empacotada, cheirando sempre a tinta fresca que os problemas são resolvidos. É necessário sentir dor, ficar triste e chorar para que assimilemos as dificuldades e amadureçamos.

É preciso cair, fracassar, saber que nem sempre irá acertar, que problemas aparecerão, que é melhor muitas vezes ser inadequado, que não precisa sorrir o tempo inteiro, que não deve ser o que o mundo impõe a você e, sobretudo, que o importante na vida é tentar. Mesmo que fracasse e fique triste, tente novamente e como disse um sábio irlandês – fracasse cada vez melhor.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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