quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Somos todos Birdman

Por: Flávia Farhat

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Sigmund Freud disse em algum lugar que o homem nasce neurótico. Que entre nascer, crescer, reproduzir e morrer há uma parte da alma que escapa e espera ser preenchida com algo a mais, uma aspiração universal chamada reconhecimento. E verdade seja dita: tenha seis anos ou sessenta, o que move o ser humano serão sempre os confetes. O troféu, os aplausos, o tapinha nas costas. Sua conquista não é verdadeira até que alguém veja que você conseguiu, e é aí que a neurose de Freud se transforma em obsessão por aprovação.

Birdman se constrói em cima de uma psique que poderia ser sua ou minha. O protagonista – resultado da melhor atuação de Michael Keaton – é Riggan, um ator que fazia sucesso nos anos 90 por interpretar o super-herói Birdman, mas que acaba caindo no esquecimento do público quando decide abandonar a franquia. Tentando reerguer sua carreira, Riggan transfere seus esforços de Hollywood para Broadway e é forçado a aprender a desafiadora dinâmica dos palcos enquanto enfrenta a pressão de continuar sendo relevante no mundo artístico. No elenco de apoio, mas não longe de roubar a cena, Edward Norton interpreta um dos atores principais da peça; um personagem quase tão cínico e narcisista quanto o próprio Norton.

O epílogo sobre a loucura em Birdman se solidifica através das alucinações do protagonista. Riggan é atormentado pela voz de seu antigo personagem, – o herói que um dia foi seu ganha-pão – uma aparição à lá Donnie Darko que lhe dá constantes alfinetadas sobre o quanto o teatro está o transformando em um artista muito abaixo de seu verdadeiro potencial. Começa aí um interessante conflito mental que vai aos poucos destruindo sua insanidade: ao mesmo tempo em que deseja produzir arte pela arte, Riggan não consegue deixar para trás o desejo de ser uma celebridade. O troféu, os aplausos, o tapinha nas costas. E do assombroso medo de ser irrelevante nasce um personagem que se desconstrói; se tortura em busca de sua própria verdade.

O maior triunfo de Birdman, entretanto, está na metalinguagem de um filme que fala sobre a construção de uma peça de teatro; a arte que se refere à própria arte. O roteiro faz referências ácidas à indústria cinematográfica e suas peculiaridades, contrastando cinema e teatro em um plano-sequência fabulosamente bem construído.

Com Birdman, o diretor nos lembra do quanto a busca por aceitação é exaustiva e de certa forma inalcançável. Consola saber que este drama-de-todos-nós acabou servindo de inspiração para criar um filme impecável e um dos protagonistas mais belissimamente torturados de Hollywood.

Para Birdman e para cada um de nós, fica apenas um último desejo: troféu, aplausos e o tapinha nas costas. E que nossos egos possam um dia descansar em paz.

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