quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Sobre Frances Ha e os sonhos que deixamos para trás

Por: Flávia Farhat

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Quando pequena, jurava de pés juntos que iria ser fotógrafa. Os pais chegaram até a comprar uma câmera e alguns equipamentos a mais, orgulhosos da filha que tão cedo já tinha decidido o que queria. Só faltava uma coisa para que o sonho se tornasse realidade: ela não tinha talento para aquilo.

Quem já testemunhou – ou pior, protagonizou – uma história destas sabe que motivação e otimismo nem sempre compensam uma habilidade inexistente. A frustração de um sonho morto se parece muitas vezes com o luto: primeiro, negamos nossa falta de capacidade. Depois vem a raiva; a depressão e o eterno sentimento de fracasso. Acreditar em seu potencial é fácil; desacreditar é que dói.

É esta temática da incerteza a grande sacada de Frances Ha; o novo clássico moderno de Noah Baumbach que aposta na fotografia preta e branca para criar uma obra original e elegante. A protagonista que dá nome ao filme personifica uma realidade cada vez mais comum: saiu da casa dos pais, mas não tem dinheiro para bancar o apartamento em Nova Iorque; ainda é jovem, mas ao mesmo tempo sente a pressão do tempo que não para de passar, e vê na melhor amiga da faculdade uma desculpa para não encarar o mundo adulto.

Muito bem interpretada por Greta Gerwig, Frances é desajeitada e contraproducente, afogando-se em sua própria vida pela imaturidade que a impede de resolver seus problemas. Sua maior ambição e seu maior desapontamento são frutos indissociáveis da mesma árvore: Frances sonha em se tornar bailarina oficial na companhia de dança onde passa horas praticando, sem nunca conseguir entrar para a lista dos melhores. Nasce daí o torturante desafio de aceitar certas verdades e ajustar seus sonhos ao mundo real; um processo que muitos de nós também podem estar fadados a enfrentar. Produzido com bom-humor e personalidade, o filme constrói a personagem perfeita para passar sua mensagem e explora através dos diálogos os anseios desta cada vez mais abrangente geração de jovens confusos.

Em aspectos técnicos, Frances Ha segue uma receita antiga e já um pouco esquecida, a queridinha dos anos 60 chamada Nouvelle Vague. Cheio de cortes rápidos e cenas que parecem se desenrolar sem um roteiro consistente, o filme flerta com a antiga estética para sombrear a história com a aura cult frequentemente procurada por Baumbach. A escolha da filmagem em preto e branco pode causar alguma estranheza no início, mas logo acabamos percebendo que a ausência de cores é usada como mais um de seus excelentes diferenciais.

Ao mesmo tempo em que lembra em muito várias outras obras do cinema e da literatura, – tanto pela temática quanto pela estética – Frances Ha é sem dúvida um filme raro e singular de muitas formas. É vendo o desenvolvimento da protagonista e seus conflitos com o mundo adulto que paramos para pensar em nossas próprias aspirações e até onde elas realmente podem nos levar. E que, certas vezes, melhor do que lutar por um sonho é aprender com ele.

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