sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Precisamos falar (mais) sobre o Kevin

Por: Flávia Farhat

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Culpar-se pelos erros dos filhos pode ser uma das mais pesadas correntes arrastadas por um coração materno. Com a decisão de trazer uma nova vida ao mundo, vem a responsabilidade da boa criação, do bom comportamento e da construção de uma personalidade socialmente bem-aceita. Criança nenhuma nasce propícia à maldade; são os fatores externos que a corrompem e, volta e meia, plantam as sementes que florescerão em futuros sociopatas. Será mesmo? Pode um bebê ser perverso desde os primeiros anos de vida? Ou são os laços da criação que ora afrouxam, ora estrangulam os culpados pelos anjinhos, cuja santidade é desenvolvida às avessas?

Precisamos Falar Sobre o Kevin é um ensaio sobre a tortura psicológica de uma mãe que vasculha suas memórias para tentar entender onde foi que errou. Através de cenas fora de ordem, que alternam três períodos da vida de Eva, acompanhamos a relação de (amor e…) ódio entre ela e seu filho mais velho. Já no início do filme fica claro que algo muito grave aconteceu por ali: mesmo sem entregar de bandeja o desfecho da história, o tom da tragédia final permeia por toda a infância e adolescência de Kevin. Com um roteiro emocionalmente denso, o filme nos pergunta o que a psicanálise até hoje ainda não soube responder: da onde vem, de fato, a maldade?

De lábios cerrados e olhar vazio, Tilda Swinton atua de forma memorável para representar não só sua personagem, mas todos os pais que já se sentiram angustiados e perdidos por não conseguirem ajudar seus próprios filhos. O transtorno de conduta de Kevin, talvez, possa ser designado como um simples instinto natural para rebeldia: nesse caso, Freud explica. Ou talvez seu comportamento frio e agressivo exprima um desejo inconsciente em ver o sofrimento alheio; o velho prazer da violência gratuita. Nesse caso, Tarantino explica. Ou talvez ainda, os pais possam de fato ter sua parcela de culpa por aquilo que criaram e entregaram ao mundo. Nesse último caso, acredite, mãe nenhuma realmente explica.

Adaptado da grande obra literária de Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin é a história de uma família que simplesmente não consegue falar sobre o Kevin. Um filme pesado e impactante que, de maneira dolorosa, nos mostra que aqueles a quem somos mais próximos são os mais difíceis de enxergarmos com clareza.

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