sábado, 10 de dezembro de 2016

Refúgio do Medo: Quando a Insanidade é a cura que precisamos

Por: Elienae Maria Anjos

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“… Meus pais morreram quando eu tinha 6 anos, então fui mandado para um orfanato em Londres. Lugar apavorante, mas fascinante para alguém curioso pela natureza humana. De certa forma fui muito grato a eles. A miséria consegue esclarecer suas convicções. Foi no orfanato que soube no que trabalharia. Trabalhar entre os infelizes e os desamparados. Dar a essas pobres almas uma boa medida de esperança e bondade em um mundo que sabe tão pouco.”

Dr. Edward Newgater

E mais uma vez a Arte, tão mal compreendida e muitas vezes julgada erroneamente por aqueles que ainda não conseguem interpretar as emoções que o artista expressa através da Sétima Arte, me surpreendeu no longa: Refúgio do Medo (Stonehearst Asylum), um suspense estadunidense de 2014, dirigido por Brad Anderson, e baseado no conto “O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena”  de 1945, de Edgar Allan Poe.  A história explorou e nos mostrou algumas formas de torturas realizadas nos manicômios de 1900, que oferecia um tratamento terrivelmente carregado de frieza e crueldade aos pacientes com corpos fragilizados e emoções desequilibradas.  Pessoas que infelizmente foram excluídas da sociedade de um modo geral, por carregar alguma diferença de comportamento, despertados, muitas vezes, por sofrimentos mal resolvidos ou estresses em seus cotidianos. Eles não tiveram uma chance de terem a doença investigada profundamente para o alívio da dor que sentiam.

Essas pessoas, como sabemos, são facilmente rotuladas e condenadas a serem chamadas para sempre de “loucas”, tendo que prosseguir seus destinos sendo excluídos e reprimidos, recebendo sempre olhares e murmúrios frios e receosos a cada movimento e caminhar de suas vidas. Por isso então, a história desse filme vem mais uma vez me ensinar que “louco é quem me diz… e não é feliz”, que trata o outro com acepção, sem respeitar o solo que ele pisa, julga pelas escolhas e ideias e constantemente exclui ou separa por classe as vidas que ainda sobrevivem em meio ao caos do mundo atual. Também teremos o nosso olhar impactado perante a tela que nos revela a crueldade, a soberba e o orgulho de alguns profissionais que escolheram exercer a profissão como se fossem deuses. Por isso, pensam que existem cura-absoluta e entendimento único sobre todas as coisas, inclusive, sobre as doenças e tentam provar absurdamente que somos uma humanidade dividida entre sãos e doentes, normais e anormais.

Ao iniciar o enredo logo conhecemos o humanista Dr. Edward Newgate (Jim Sturgess), psiquiatra recém-formado, vindo de Oxford para tentar um estágio clinicando no manicômio Stonehearst Asylum. Ele é muito bem recebido pelo superintendente do hospital, Dr. Silas Lamb (Ben Kingsley), que através de uma entrevista rápida e muito descontraída, sente-se fascinado com o novo funcionário, iniciando-se assim uma esperança renascida através dos pensamentos daquele inexperiente médico, ao ouvir sua resposta cuidadosa e profundamente reflexiva, expressando que a única ambição que espera de sua profissão é: “a satisfação de ajudar aqueles que precisam”.

“Tem certeza de que é médico? Pois nunca vi um médico que se desculpa ou mesmo que se importe com quem ofende.”

Eliza Graves

Totalmente desnorteado e boquiaberto com o comportamento diferente naquele hospital que deliberadamente permite ao paciente se relacionar com os funcionários em todos os cômodos, não faz uso de medicamento, não faz restrição de horas nas obrigações rotineiras, nem tampouco aplica barbáries juntamente com a impaciência, também não usa métodos absurdos para aquela época, como por exemplo, a trepanação. Porém, ainda assim, o Dr. Newgate se sente muitas vezes perdido entre um suposto tratamento ricamente humanizado, que ao mesmo tempo nega cuidados tão simples, como o uso da sonda em uma paciente que não aceita mais se alimentar ou o delírio de um paciente que pensa ser um cavalo. Situações muito estranhamente explicadas com simplicidade de que eles são mais felizes dessa forma, pois com o equilíbrio, seriam tristes. Também afirmam que todos um dia irão morrer.

Não demora muito para o telespectador, junto com o Dr. Newgate, descobrir que houve uma inversão de posições naquele lugar. Os verdadeiros médicos e funcionários foram presos no porão, e os chamados lunáticos tomam o comando total do manicômio, de suas próprias vidas e obviamente, do próprio tratamento.

Pergunto-me se minha visão, assim como a de muitos, não tenha sido condicionada a enxergar religiosamente as tradições, obrigações e bloqueios tão comuns da vida, desde que a insensibilidade tomou conta de nossos sentidos emocionais. E por isso, então, nos seja tão estranho aceitar com naturalidade a ideia de que doentes mentais possam ter liberdade, mesmo tendo uma vida anormal sem nos provocar sustos, distanciamentos, receios e preconceito. Por que, então, não podem tomar o controle e criar um mundo só para eles? Vamos tentar refletir essa questão de maneira conscientemente e realista: O que é ser normal? É se achar no direito de mandar nas decisões e escolhas de uma pessoa, de uma nação ou na existência e liberdade de um animal? É violentar a mente, o corpo e roubar a alegria de uma criança?   É ter meios de libertar alguém da fome, da miséria, mas preferir não tomar uma atitude por puro egoísmo? Afinal, de qual lado em nossa sociedade contemporânea está a presença do louco? Será que o anormal é aquela pessoa que está tentando se equilibrar na corda bamba que o mundo o colocou, buscando entender o outro através de medicamentos severos, muitas vezes se isolando em clínicas para conseguir conviver consigo mesmo e ainda tentar sorrir depois de cada crise vivida, tendo sempre uma urgente fome de viver e de se colocar na vida através da arte seja pintando, moldando, tocando, falando ou expressando-se através do grito por um carinho e atenção?

Percebo que existe um quebra-cabeça na realidade que nos cerca, porém, muitos não querem montá-lo e nem expor os erros que estão debaixo de soluções ilusórias, teorias não praticadas e palavras amorosas ditas falsamente. Queremos fechar os olhos e tapar os ouvidos para a dolorosa vida que existe, nos cerca e cresce a nossa volta. Preferimos viver de aparência, afinal, assim é mais fácil viver a vida com sorrisos fartos em selfies postados nas redes sociais e egos inflamados pelos acelerados status que também são publicados. Para quê enxergar a verdade? Melhor não, ela machuca! Nada posso fazer nada para organizar e consertar o mundo, essa guerra não é minha, é muito mais fácil, mesmo que minha consciência me denuncie, abaixar meus olhos e não reparar o morador de rua e tantas outras vidas com suas dores, que são vítimas da sociedade inundada por aqueles que são chamados de “normais”.

A prática idealizada pelos doentes mentais no manicômio Stonehearst Asylum, pode ter perdido a tênue linha de salvação e libertação em algum passo vacilante dado em algum breve momento, mas há de se aceitar que a alegria deles foi muito mais plena, o abraço e a ajuda mútua existiu com uma sensibilidade nunca experimentada através das pessoas “normais” que administravam aquele lugar antes. A sobrevivência foi bizarramente aprendida repartindo o pão, a bebida, a cabeça de cavalo ou o corpo de animais nunca antes experimentados. Estavam tão certos de que aquele modo de vida era o suficiente para o ser humano evoluir, que através de uma máquina criada por um deles, surgiu a ideia: desencadear doenças mentais nas pessoas que estavam trancadas no porão, a fim de curá-las da falta de amor e sensibilidade pelo próximo e atenção pelas coisas simples da vida.

 Mesmo que a nossa opinião queira no final, analisar que tudo deu errado, não há como negar que a “cura” aconteceu quando se aceitou a doença, se aceitou que somos participantes de um mesmo manicômio universal. Esse surgimento veio através do confronto com a realidade encarcerada naquelas mentes, nascido no ato de estender a mão e pronunciar o nome do paciente e por fim, no maior, inigualável e incomparável método de cura que o mistério foi desvendado: o AMOR. Não, não nos enganemos mais! Não é no desprezo e na cegueira emocional que encontraremos o caminho, muito menos a solução está centralizada nos métodos científicos para todas as doenças da alma. A saúde plena é encontrada no suprassumo do amor e no comum acordo entre o vínculo humano e o mergulho no inconsciente sem reservas, que o entendimento das nossas fraquezas será esclarecido dentro de nós.

Sendo assim, chegamos a conclusão de que podemos aprender, que tudo o que necessitamos para sermos felizes e livres, ainda que tudo caminhe ao contrário do que esperamos, está na cura dos problemas criados pelo excesso de normalidade na vida, e isso está incubado na insanidade que temos dentro de nós, bem escondida até de nós mesmos, por questões absurdas, nascidas, muitas vezes, do medo de se expor. Será que pela insanidade mergulharemos ou nos jogaremos de cabeça nos abismos da vida comum que depositamos demasiada seriedade? Se deixarmos que essa revolução transborde de nós, não será preciso existir O Refúgio do Medo, e as ousadias nos tomarão, assumiremos, então, que a melhor parte de cada um de nós é a loucura.

Eis o meu xeque-mate! 

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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