sábado, 17 de dezembro de 2016

On the Road, o livro que inventou uma geração

Por: Genialmente Louco

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A literatura universal é pródiga em brindar a humanidade com obras que são verdadeiros divisores de águas. Mas, destas, só algumas podem ser classificadas como seminais. Este espaço é para relatar uma experiência fascinante aos olhos do leitor amadurecido: a publicação em meados do século 20 do seminal “On the Road”, segundo romance de Jack Kerouac. O livro que influenciou de Bob Dylan a Jim Morrison, passando por Charles Bukowski, Lou Reed, Win Wenders e muitos outros, sendo que o movimento hippie dos anos 1960 pode também ser considerado uma influência, mesmo que indireta, do furor que o livro causou. Ainda segundo Eduardo Bueno, tradutor da obra, “nenhum livro do século 20 terá deflagrado uma revolução comportamental maior do que a obra de Kerouac”.

 

On the Road e o mito Kerouac

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On the Road” tornou-se um mito, alçando seu autor à mesma condição, a despeito da indigestão causada à simples referência à palavra. Não tinha como: o próprio Kerouac batizou de beat a geração da qual o principal avatar era ele mesmo.

A versão original de fato havia sido escrita entre 9 e 27 de abril de 1951 num rolo de papel para telex, num total de 40 metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafos, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzedrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado 12 mil palavras 14 horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de “febre onívora de observação”. Isso por si só explica a profundidade e a profusão da história.

“On the Road” é o mais lendário e o mais famoso, mas talvez não seja o melhor dos 23 livros que Jack Kerouac escreveu em 47 anos de vida. O posto bem poderia ser ocupado por “Visões de Cody” — também dedicado a Neal Cassady, o Dean Moriarty de “On the Road”. Redigido em 1951 e publicado em 1971, “Visões de Cody” resume e apreende todo o esforço de Kerouac em modular os contornos de sua “prosa espontânea” e remete ao “On the Road” original, antes de sua submissão às “sugestões” dos editores da Viking (“Eles queriam uma estrada destituída de todas as curvas”, disse Kerouac anos depois, ao passo que seu desejo era “percorrer a tortuosa estrada profética de William Blake”).

Em ambos os livros, empenhou-se em libertar a literatura norte-americana das amarras acadêmicas e de um certo servilismo a fórmulas europeias (ou europeizantes). Ao fazê-lo, introduziu o som na prosa — antes e melhor do que qualquer outro romancista de sua geração. Suas frases possuem uma rima interna insidiosa e envolvente, de forma que várias passagens se assemelham a longos poemas em prosa jogados, quase perdidos ou desperdiçados, em meio à fluidez aquosa do texto.

O fôlego narrativo avassalador, o imaginário protopop, o frescor libertário, o fluxo ininterrupto de sua avalanche de palavras, imagens, promessas, ofertas, visões e descobertas acabaram por tornar “On the Road” exatamente aquilo que o chavão define como “a bíblia de uma geração”.

Neal Cassidy

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Neal Cassady nasceu em Salt Lake City, Estados Unidos, em fevereiro de 1926 e morreu em San Miguel de Allende, México, em fevereiro de 1968. Amigo de poetas e escritores da geração beat, aparece em romances e poemas do movimento. Por exemplo, é a base para o anti-herói Dean Moriarty em “On the Road” e para Cody Pomeray de “Os Vagabundos Iluminados” (título no Brasil), romances de Jack Kerouac. Também é citado por Allen Ginsberg no poema “Uivo”.

Como autor, publicou um poema com Kerouac, “Pull My Daisy”, e um livro autobiográfico, “The First Third”, este livro foi editado em português na década de 1980 com o título “O Primeiro Terço”.

Ele conheceu Jack Kerouac por meio de Hal Chase, um amigo que havia se mudado de Denver para estudar na Columbia University. Jack se impressionou com a energia de Neal, com seu encanto sobre as mulheres e sua espontaneidade e vontade de viver. Assim como Allen Ginsberg, que se apaixonou por Neal, e eles logo se tornariam amantes, em um relacionamento complicado que, entre idas e vindas, durou aproximadamente 20 anos. Cassady foi embora de Nova York em março de 1947, acompanhando Jack Kerouac em sua viagem “on the road”.

Geração Beat

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Após escutar pela primeira vez palavra beat da boca de Herbert Huncke, marginal homossexual que fazia ponto na Times Square, Nova York, e que aparece brevemente nas páginas de “On the Road” sob o nome de Elmer Hassel, Kerouac lhe deu ressonância e expandiu seu significado. Para Huncke, beat definia um estado de “exaltada exaustão”. Beat significa simultaneamente “batida” (no sentido do ritmo musical), “porrada” (no sentido de golpear), “abatido” ou “exausto” (beated), “pulsação (heart beat), “cadência do verso”, “trajeto” ou “trilha” (no sentido jornalístico), “pilantra” ou “aproveitador” e até “botar o pé na estrada” (“beat theway”, expressão, aliás, muito usada por outro Jack, o London), além de conter, também e acima de tudo, o radical de beatitude — que foi o que realmente despertou Jack para a sonoridade do vocábulo ao qual ele se vincularia pelo resto da vida. Desenvolveu-se também o estilo beat por excelência: laudatório, verborrágico, impressionista, vertiginoso, incontido, “espontâneo”, repleto de sonoridade, de gíria, de coloquialismo e de aliterações. Nesse universo beat, o mundo é uma vidraça e os vitrais de igrejas são aperitivos para um senhor quebra-quebra.

Dean Moriaty

Cumprida a análise acadêmica, emprestada dos comentaristas mais experientes e do tradutor, hora de falar da narrativa, do narrador e demais personagens.

Personagens vão compondo o cenário quase que de forma satélite, apesar da interação com a dupla que centraliza o desenvolvimento do romance. Nomes como Chad King, Marylou, Tim Gray, Carlo Marx e Old Bull completam a fórmula fluida que consagra a obra.

Ainda que Sal Paradise seja o narrador — e é irrelevante a discussão sobre quem é o alter ego de quem —, o grande protagonista é mesmo Dean Moriarty. “Uma batida na porta, e lá estava Dean, curvando-se cerimoniosamente, balançando a cabeça no hall escuro e dizendo: — Olá! Tá lembrado de mim? Dean Moriarty? Vim pedir que você me ensine a escrever.”

Sacana, desordeiro, cospe-fogo, envolto em dicotomias, muitas vezes suas palavras mais suaves ofendiam os palavrões mais cabeludos como um afago nas madeixas. Do tipo de amigo por quem você daria uma fortuna pra ter, mas cujo pacote completo pagaria o dobro para se livrar. Foi com essa figura multipolar e desviada que Sal Paradise conviveu durante anos indo de leste a oeste pelas estradas tortuosas de uma América perdida em si mesma.

Dean parecia ter nascido numa época em que todos os pecados já tivessem sido perdoados desde o berço. Mas não se engane: apesar do ímpeto visceral, era uma moça! Daquelas ateias que rezam para um Deus em campanha pelas almas infectadas pelos vírus da malcuidada saúde pública.

Não que tivessem como missão subverter a América, dar-lhe um sentido, provocá-la com os dedos nas feridas. A grande virtude da geração beat talvez tenha sido fazê-lo de forma espontânea, expondo suas entranhas a quem nunca a conheceria de outra forma. Nos saloons e nos ritmos próprios cultuados no país, na miséria moral e econômica de sua gente que trocava um dia trabalho penoso por um litro de gasolina ou um sanduíche. E, sobretudo, na incerteza do futuro pós Grande Depressão que assolou a grande nação, tornando mais conservadora do que nunca, quem sabe justificando desde o advento daquele movimento os mais variados e desvairados desatinos cometidos na década de 1960.

Uma história no meio do caminho

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Um livro que avança geração após geração, “On the Road” merece ser lido com todas as suas vogais e consoantes. Depois de devorado, fica fácil fazer juízo de valor em favor de sua transcendência histórica. No século 21 continuará sendo cultuado, nunca totalmente compreendido.

As pérolas estão lá e há fartura delas ao longo de quase 400 páginas.

“Problema é a palavra-chave pela qual Deus existe. O negócio é não esquentar a cabeça. Minha cuca está zumbindo — gritou ele, dando um safanão na cabeça.”

“Isso tudo me fez pensar na grande visão de Big Pop em Graetna, junto com Old Bull. E por um instante, alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, a superação completa do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, uma iluminação na completa desolação do reino mortal, e a sensação de morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para a frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação, de onde todos os anjos alçaram voo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível que reluz na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus que desabrocham na mágica tepidez do céu.”

“Você verá amanhã minha fantástica, extraordinária, linda e maravilhosa filha, que já consegue ficar de pé, sozinha, trinta segundos cada vez, pesa quase dez quilos, mede setenta centímetros. Acabo de calcular que ela é 31,5% inglesa, 27,5% irlandesa, 25% alemã, 8,75% holandesa, 7,5% escocesa e 100% maravilhosa.”

“Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava prestes a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso. Naturalmente, agora que reflito sobre isso, era apenas a morte: a morte vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar, sujeitos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero, e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte. Mas quem quer morrer?”

“Prisão é o lugar onde você promete a si mesmo o direito de viver.”

“Uns são filhos da puta, outros, não; e isso é tudo.”

Fala pausada, obediente à esposa ― rebelde, mas não besta ― até que o próximo surto o fazia retornar à sua realidade latente. É quando Dean ficava feliz outra vez. Tudo o que ele precisava era de uma roda na mão e quatro na estrada. Até hoje ainda existem muitos Deans Moriarty pelo caminho.

 

Fonte: Paulo Lima/Revista Bula.

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Sobre o autor

Genialmente Louco

“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

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