quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Trainspotting: Consumindo Freneticamente Anestésicos Existenciais

Por: Erick Morais

post
Qual o sentido da vida? Qual o sentido da sua vida? O que te move? Existe mesmo um sentido? Bom, todas essas questões se tornaram muito mais difíceis de serem respondidas em um mundo que não possui tantas referências. Contudo, ainda que se viva na modernidade líquida, as pessoas procuram dar estabilidade a sua existência, mesmo que esses estabilizadores não consigam lhe proporcionar o que de fato esperam.
 
Essas questões são levantadas no filme “Trainspotting” do cineasta Danny Boyle. A trama é baseada no livro homônimo do escocês Irvine Welsh, e conta a história de jovens que vivem no subúrbio de Edimburgo, na Escócia. Esses jovens vivem vidas banais em que a única preocupação que possuem é se drogar, sobretudo, com heroína. Desse modo, eles procuram se anestesiar diante da angústia que viver traz. Buscam através do gozo permitido pelo uso perene das drogas darem sentido às suas existências, ainda que não haja uma resposta propriamente dita. Talvez, nem seja necessária uma resposta, já que como o próprio protagonista da história, Mark Renton, diz:

“Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

O cerne da questão, no entanto, não é demonstrar simplesmente a futilidade da vida de pessoas viciadas em drogas, muito menos fazer apologia ao uso das mesmas, como alguns dizem, mas sim, analisar qual o motivo que leva aqueles jovens ao uso de drogas, bem como, perceber as metáforas e analogias presentes no roteiro. Dessa maneira, o uso de drogas no filme funciona como um escapismo para o vazio existencial, assim como, é um entorpecente que anestesia os sentidos e tira os personagens do estado de dor e angústia que estar vivo produz.
 
O escapismo que se procura com o uso das drogas é o mesmo que nós procuramos por meio da sociedade de consumo. Isto é, tanto a droga para os personagens, quanto o consumismo para as pessoas “não drogadas”, funcionam do mesmo modo, qual seja, como entorpecentes que proporcionam uma falsa sensação de estabilidade emocional, impedindo que o indivíduo enxergue a realidade e perceba a sua angústia existencial. O filme, portanto, não é uma ode ao uso de drogas, mas, antes de tudo, uma crítica à forma fútil da sociedade de consumo que busca através do consumismo e do entretenimento de massa dar sentido à vida. Esse fato é corroborado pela narração em off apresentada pelo protagonista logo no início da trama e que acaba dando o tom da história.

“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras de roupa, carros, CD players e abridores de latas elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV enfiando porcaria na sua boca. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha o seu futuro. Escolha viver. Por que eu iria querer algo assim? Eu escolhi ‘não escolher a vida’. Eu escolhi uma outra coisa. E os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

Ou seja, “escolher viver” implica padronizar totalmente a sua vida segundo os padrões da sociedade de consumo e como o ser humano possui dificuldade em viver sem que possua algo para se apoiar, o que Nietzsche chamava de “muletas existenciais”, acaba se adequando a um modelo que torna a vida do indivíduo totalmente robotizada, com a esperança de que esse estilo de vida proporcione o conforto e a estabilidade existencial que necessita.
 
O problema é que esses mecanismos são fugas esporádicas que não resolvem o problema, tampouco, trazem solidez à existência. Por isso a droga é o exemplo que melhor demonstra a rede de aprisionamento que nos submetemos ao buscar refúgio para a dor existencial em meios fúteis como o consumismo, o qual acaba por retroalimentar o vazio que possuímos, mensagem que nós entendemos tão somente como consumir mais, seja drogas no caso dos protagonistas da trama, seja coisas, como o próprio Mark cita acima.
 
Toda essa questão me remete ao mundo distópico de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, em que as pessoas se agarram ao prazer e ao divertimento para não entrarem em contato com a vida em sua totalidade e, por conseguinte, as suas precariedades e angústias, de tal modo que os seus mecanismos de fuga tornam-se análogos aos utilizados por Mark e seus amigos.

“[…] agarremo-nos aos clubes, às reuniões, aos acrobatas, aos prestidigitadores, quebra-cabeças, carros, motogiro-planos, ao sexo e à heroína, tudo o que não obrigue senão a reflexos automáticos.”

Corroborando com o pensamento de Bradbury, Joseph Brodsky aduz que: “Em geral, o homem que injeta heroína em suas veias o faz, em grande parte, pela mesma razão que você compra um vídeo”. Isto é, a busca de algo que dê sentido à vida, ainda que seja algo tão intermitente, ou que seja um anestésico para a dor existencial. Sendo assim, os mecanismos da sociedade de consumo compõem uma das faces da mesma moeda que inclui o modo de vida levado pelos jovens do filme.
 
Assim como “Clube da Luta”, Trainspotting é um filme que mostra de forma dura a realidade de uma vida submissa às redes da sociedade de consumo, demonstrando, através da metáfora da droga, o quão deteriorante é buscar refúgio em um sistema que se preocupa somente em criar servos. Como dito, há uma dificuldade em viver sem algo para se apoiar, entretanto, está apoiado em escapismos mesquinhos e fúteis, como o consumo, não é escolher viver, é escolher estar completamente anestesiado de tudo que acontece ao seu redor, como os jovens do filme ao usarem heroína.
 
Apesar de tudo isso, eu posso estar errado, pois sou um cara mau, mas, assim como Mark diz no fim do filme, isso vai mudar, porque eu escolhi viver e serei como você: “Emprego, família, TV enorme, lavadora, carro, abridor de latas elétrico, boa saúde, colesterol baixo, plano dentário, hipoteca, primeira casa, roupa esporte, malas, terno fino, consertos, game shows, comer porcaria, filhos, passear no parque, pensão corrigida, isenção fiscal…”, ou seja, uma vida feliz. Mal posso esperar por isso.
Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER