quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nostalgia e Síndrome da (nossa) Era de Ouro

Por: Availton Corino

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“Não sei se é tédio, sono, silêncio ou nostalgia.”

Trinta e Nove Poemas – Fernanda de Castro

melancholy-louis-jean-franois-i-lagreneeLouis-Jean-François Lagrenée – Melancolia

O Tempo passa ou nós que passamos? Michael Crichton (1) escreve brilhantemente que “Na realidade o tempo não passa; nós é que passamos. O tempo em si é invariante. É apenas. Além disso, o passado e o futuro não são locais separados como poderíamos dizer em relação a Paris e Nova Iorque. E uma vez que o passado não é um local, não podemos viajar para ele.’”

Já o Carl G. Jung (2) : “Em si, o espaço e o tempo consistem em nada. São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminadora da consciência e formam as coordenadas indispensáveis para a descrição do comportamento dos corpos em movimento.” E encontramos em Carlos Ruiz Zafón (3) : “O tempo, querido Max, não existe; é uma ilusão.”

Situando-nos em passagens sobre Tempo chegamos a Nostalgia que tem como sentido denotativo:

1. Tristeza profunda causada por saudades do afastamento da pátria ou da terra natal.
2. Estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém.
“nostalgia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-
2013, https://www.priberam.pt/dlpo/nostalgia [consultado em 30-12-2016].

“Sou um homem de nostalgias; às vezes, isso é uma maldição.” – Uma História de Solidão – John Boyne

Enquanto que na Ficção Científica uma máquina do tempo é necessária para o teletransporte, parece que determinada música, cena de um filme, um encontro com um colega da adolescência atuam para a nossa interioridade como uma máquina do tempo. Quem nunca ouviu a expressão “éramos felizes e não sabíamos?” geralmente solta numa conversa do tipo “lembra aquela vez que…” são aqueles momentos que paramos e contemplamos o nosso passado e que geralmente tratamos como a nossa Era de Ouro. Era tudo simples, feliz… A infância como o reduto da felicidade e a adolescência como o paraíso das possibilidades.

Acontece que algumas vezes contemplamos até demais, por isso, provavelmente, Boyne chama de “isso é uma maldição”. Contemplando o passado entramos num estado estático e de melancolia. Paramos. É necessário mencionar que ao entrar na nostalgia somos seletivos com o passado. Não lembramos das nossas carências, inseguranças e tristezas daqueles momentos. “Da mesma forma, é impossível ver o mundo exatamente como há meia hora […]” escreve Sarah Bakewell (4) . Por isso há uma concordância com o que Stephen King (5) : “Quando se trata do passado, todo mundo escreve ficção”.

Não está sendo feito uma crítica a Nostalgia, mas sim a nostalgia que usamos como Fuga e nos deixa paralisados impedindo de nos construir, porque dependendo da forma que a usamos transparece que, na verdade, estamos sentido falta da época em que não tínhamos que lidar com as nossas responsabilidades atuais. Em ‘Meia Noite em Paris’ (2011) o personagem Paul fala lucidamente que “Nostalgia é negação – negação do presente doloroso.”

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Meia Noite em Paris (2011)

Em um dos episódios do seriado “Smallvillve” (Forever 4×21 – 2004)) um aluno reconstrói parte da escola e sequestra alguns estudantes para os manterem eternamente presos no período escolar. Chloe, uma das personagens, finaliza o episódio refletindo: “Não posso censurar o Brandon por manter todo mundo junto, apesar de que depois de ficar trancada, eu acho que não há nada mais assustador do que ficar presa no passado e não seguir em frente.”

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Chloe despendido-se da sua vida como repórter colegial – Smallville (4×21)

Olhar para frente e encarar nossas possibilidades como pessoa, como disse Harper Lee (6) “Lembre-se disto também: é sempre fácil olhar para o passado e ver como éramos ontem ou dez anos atrás. Difícil é ver o que somos hoje. Se conseguir fazer isso, vai sobreviver.” . Não deixar o passado nos atar ou que se torne uma carga. Lembremos do Stephen King (5) : “Nada estraga tanto a memória quanto a repetição.” e da Flora Rheta Schreiber (7) : “Não existe passado. O passado é sempre presente quando a gente o traz consigo.”

Talvez Nostalgia seja apenas um reflexo daquela condição humana de está confortável no conhecido e no certo, porque o Passado é isso, certeza, já o que está em nossa frente… Incertezas e possibilidades. Que as palavras do Rainer Maria Rilke (8) entre na nossa vida: “No restante, deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.” e as do Stephen King (9) nos revigore “[…] ele pensa que é bom ser criança, mas também é bom ser adulto e poder avaliar o mistério da infância… suas crenças e desejos.”

“Este é o erro: colocamos a morte no futuro, quando grande parte dela já passou. Tudo o que está no passado, a morte já o possui.” – Sobre a economia do tempo – Sêneca

(1) Linha do Tempo – Michael Crichton
(2) Sincronicidade – Carl G. Jung
(3) O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón
(4) Como Viver: ou Uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta – Sarah Bakewell
(5) Joyland – Stephen King
(6) Vá, Coloque Um Vigia – Harper Lee
(7) Sybil – Flora Rheta Schreiber
(8) Cartas a um Jovem Poeta – Rainer Maria Rilke
(9) It: A Coisa – Stephen King

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Sobre o autor

Availton Corino

Leitor Onívoro.

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