sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Réquiem para um Sonho: Solidão, Vazio e Morte Existencial

Por: Erick Morais

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Perturbador, aterrorizante, um soco no estômago, assim muitos definem “Réquiem Para um Sonho” do cineasta Darren Aronofsky, contudo, o filme é mais do que isso. É um verdadeiro soco na mente ao abordar de forma crua a realidade de loucuras, paranoias e degradação da mente de um viciado.
Baseado no livro homônimo do escritor americano Hubert Selby Jr., Réquiem percorre a história de quatro personagens e seus respectivos envolvimentos com o vício de drogas. De um lado temos: Harry Goldfarb (Jared Leto), Marion (Jennifer Connelly) e Tyrone (Marlon Wayans), os quais são viciados em cocaína e heroína. De outro temos, Sara Goldfarb (Ellen Burstyn), mãe de Harry e viciada em televisão e remédios para emagrecer. Ou seja, o filme já se diferencia por abranger o tema das drogas além das drogas ilícitas, incorporando vícios modernos, socialmente aceitos, embora também sejam prejudiciais ao indivíduo.
 
O filme é divido em três atos, em que cada um corresponde a uma estação do ano. No primeiro ato, temos o verão. Este nos apresenta os dramas pessoais dos personagens, suas angústias e dores, demonstrando o modo como as drogas agem como válvulas de escape para as suas dores existenciais, bem como, nos mostra os sonhos e aspirações de cada personagem, que a sua maneira buscam uma vida feliz.
 
É interessante o modo humano como os personagens são construídos, o que permite uma empatia maior com eles ao mesmo tempo em que lhes permite mais profundidade narrativa. Percebemos que a solidão é algo que permeia todos os personagens, o que contribui para um certo tom melancólico que os forma, assim como, o próprio refúgio que buscam através das drogas.
 
Isso é notado em Marion pela ausência dos pais, os quais como ela própria diz só participam da sua vida de forma financeira; em Tyrone com a ausência de uma mãe que já se fora; em Harry pela morte do pai que o deixou sozinho com sua mãe; mas, sobretudo em Sara, que sofre tanto pela ausência do marido quanto do filho viciado.
 
Sendo assim, por trás do vício existe um panorama aterrorizante das nossas próprias vidas. Isolados em nossas ilhas afetivas, a solidão é algo que vem se tornando cada vez mais comum, de modo que estando só, muitas pessoas recorrem a refúgios dessa solidão, como a televisão e as redes sociais. 
 
Outra problemática reside na angústia de enfrentar um mundo tão desacolhedor e que cobra extremamente de nós, o que pode levar também ao uso de drogas que é visto como uma pseudo-solução. Com as drogas Tyrone pode cumprir a promessa que fez a mãe de ser alguém, Harry pode dar um jeito na vida, Marion pode se sentir especial para alguém e Sara pode ser amada por todos e ter um bom motivo para se levantar de manhã, mesmo que isso seja causado tão somente pela expectativa de participar de um programa de TV.

 “Eu sou alguém agora, Harry. Todo mundo gosta de mim. Em breve, milhões de pessoas vão me ver e todos eles gostarão de mim. Eu vou dizer-lhes sobre você, e seu pai, como ele era bom para nós. Lembra-se? É um motivo para se levantar de manhã. É uma razão para perder peso, para caber no vestido vermelho. É um motivo para sorrir. O que eu tenho Harry, hein? Por que eu deveria mesmo fazer a cama ou lavar os pratos? Eu faço, mas por que eu deveria? Eu estou sozinha. Seu pai se foi, você se foi. Eu não tenho ninguém para cuidar. O que eu tenho, Harry? Estou sozinha. Estou velha.”

 
Após o verão, o outono chega, anunciado o inverno gelado que virá. Nesse momento da história, o “negócio” de Harry e Tyrone já não vai tão bem devido a uma crise de “abastecimento”, levando não apenas a perda de dinheiro e irrealização dos seus sonhos, mas, acima de tudo, aos problemas e degradação que começam a surgir com a abstinência. Tyrone começa a ficar paranoico com alucinações de sua mãe; o então belo romance entre Harry e Marion é subjugado e desmoronado pela abstinência em que se encontram, assim como, faz com que entrem em contato com seus monstros; e Sara inicia um estado de paranoia profundo causado pelo excessivo uso de remédios para emagrecer, que tomara para caber no tão sonhado vestido vermelho, que a remete a um passado em que era feliz.
 
O outono, no entanto, era somente o prelúdio do tão temido inverno. Este chega e as cortinas caem, demonstrando o total grau de degradação que se encontram os personagens. Tomados pela abstinência Harry e Tyrone decidem se arriscar em uma viagem à Florida para comprar drogas, tendo como resultado a prisão de ambos, em que enquanto o primeiro amargura um quarto de hospital, já que tivera que amputar o braço devido a uma infecção causada pelo uso excessivo de pico, o segundo sofre sozinho na prisão com as crises de abstinência. Marion, totalmente descontrolada pela abstinência, vende o seu corpo em troca de drogas, degradando-se física e mentalmente. E Sara imerge em um mundo de loucuras e paranoias, de tal maneira que não consegue retomar a consciência, sendo internada como louca.
 
A degradação dos personagens é acentuada pela forma crua como ela é mostrada, assim como, pela edição frenética do filme, uma marca do diretor, que nos leva para o universo de paranoias dos personagens. No fim, a história particular de cada personagem termina como se iniciou, em profunda solidão e medo. Entretanto, em um grau muito maior de degradação, humilhação e loucura, sem perspectivas de dias melhores ou do novo verão que virá.
 
Réquiem para um Sonho não é um filme com final feliz, como também, não é moralista. É um filme da realidade dura que vivemos, dos monstros que pairam em cada casa, da decadência de uma sociedade cheia de problemas que busca anestésicos existenciais, os quais no fim das contas só nos deixam mais viciados e com dores maiores do que tínhamos. É um filme triste, gelado e real que executa através de uma trilha perturbadora a missa de morte dos sonhos de indivíduos solitários e vazios.
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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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