quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Flâneur na Contemporaneidade

Por: Mariana Keller

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Vivemos numa era extremamente tecnológica. Não que isso seja de todo ruim, afinal ela nos traz inúmeros benefícios como, por exemplo, o avanço da medicina e a cura de muitas doenças. Mas e quanto àqueles aparelhos que teoricamente facilitam o nosso dia a dia, mas também, ao mesmo tempo, nos deixam alheios ao real sentido da vida?

É impossível andar nas ruas hoje e não ver alguém hipnotizado pelo celular. A oferta de aplicativos para todo o tipo de utilidade é infinita e as pessoas estão cada vez mais adeptas. Se antigamente os celulares eram aparelhos exclusivos para ligações de emergência, hoje eles fazem muito mais do que o necessário, são utilizados como elementos de distração e entretenimento 24 horas por dia. O mesmo podemos dizer do surgimento e uso das redes sociais.

Não quero parecer completamente contra essas evoluções, afinal, elas têm sim seus benefícios e utilidades positivas. Mas o que tenho visto ultimamente é uma onda virtual viciante que impede até mesmo as pessoas de interagirem quando estão juntas pessoalmente. Eu mesma me pego, às vezes, checando o celular o tempo todo em busca de novidades no meu círculo social. Justamente por isso, por me flagrar freqüentemente agindo de uma forma que eu sempre condenei, que comecei a refletir mais sobre esse assunto.

Eu sempre fui uma pessoa encantada com o cotidiano. Observar as pessoas em suas rotinas, suas diferentes expressões faciais, enfim, sempre tive muito gosto pelo passeio observatório. Sempre que a correria do dia a dia me permite, eu opto pelo ônibus ao invés do metrô como transporte. No ônibus me sinto mais livre, posso ver o mundo correndo pela janela. Já no metrô, me sinto sufocada, não só pela multidão aglomerada, mas também por estar completamente cercada por paredes e trilhos, um ambiente claustrofóbico.

Em todas as viagens que fiz, um dos momentos mais encantadores foi justamente durante a estrada. Observar pela janela cada pedacinho do lado de fora se movimentando enquanto eu estou ali parada, aguardando a chegada de meu destino é simplesmente fantástico para mim.

No século XIX, o poeta francês Charles Baudelaire e o filósofo alemão Walter Benjamin definiram como flâneur a figura que vaga na cidade a fim de experimentá-la. Este ser nasceu justamente na modernidade, sentindo-se incomodado com as transformações geradas pela Revolução Industrial e não se identificando com o novo estilo de vida que surgia. O flâneur é um observador que caminha tranquilamente pelas ruas, absorvendo cada detalhe sem ser notado, sem se inserir naquele contexto e que busca uma nova percepção da cidade, tomando-a como fonte de inspiração.

Desde que ouvi essa expressão pela primeira vez na faculdade, me identifiquei completamente. Às vezes, me sinto mesmo uma verdadeira flâneur, uma andarilha, que se pudesse, passaria os dias vagando e observando a vida real que ultimamente anda tão esquecida, mesmo tendo que lutar diariamente contra os vícios que a modernidade nos impõe.

Esses mesmos estudos de Benjamin o levaram a afirmar que não existem mais condições para o olhar exploratório do flâneur, pois, a medida que a cidade moderna foi evoluindo, os indivíduos ganharam um ritmo de vida cada vez mais acelerado e repleto de novas funções e informações. Esta constatação foi percebida por ele entre o final do século XIX e o início do XX. Sendo assim, o que podemos dizer dos dias atuais, em pleno século XXI?

Semana passada, durante um dia chuvoso, eu estava parada no sinal brigando com meu guarda-chuva, que tenho a habilidade de sempre conseguir quebrar. Ao me ver lutando para abrí-lo, uma senhora me chama e fala: “Moça, quando eu era jovem que nem você, sempre que podia, não usava guarda-chuva. Eu adorava tomar chuva no meu caminho para casa, afinal, é uma das poucas coisas reais que podemos sentir morando na cidade grande”.

É, minha senhora, confesso que tenho um pouco de medo do futuro. Será que nos dias que se seguirão ainda existirá espaço para a observação e para a vivência de um cotidiano mais leve? Será que estamos ficando cada vez mais imersos em um mundo virtual e nos esquecendo de que existe um mundo de possibilidades lá fora? Será que daqui alguns anos, de fato, a única coisa real que sentiremos serão as gotas de chuva caindo sobre nós? Espero que não.

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Sobre o autor

Mariana Keller

Cabelo ao vento, pé na estrada, câmera no pescoço e olhar atento.

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