sábado, 14 de janeiro de 2017

Vida: vicissitudes, sofrimento e insondabilidade

Por: Availton Corino

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“Convence-te de que, para mim, a felicidade consiste em resistir com teimosia a todas as infelicidades.”

Aventuras de João Sem Medo – José Gomes Ferreira

 

Enquanto vivemos estamos sujeitos a todo tipo de vicissitudes que nos despertam as mais variadas emoções, mas parece que aquelas que nos fazem sofrer são as que mais impregnam o nosso ser. Como observa a escritora V. C. Andrews (1) “O que há na condição humana que nos aferra à tragédia com tanta tenacidade e nos faz esquecer facilmente a felicidade que temos a nosso alcance?”

Isso parece ser algo próprio da condição humana e, claro, já visualizado pelo poetas há tempos, por exemplo, o poeta Menandro considerava que “Sou um homem, e isso é motivo suficiente para ser infeliz.” Já o Alfred de Musset via a dor como uma forma de autoconhecimento e afirmava que “O homem é um aprendiz, a dor é seu mestre. E ninguém se conhece, até que tenha sofrido.”

Os escritores de ficção também veem a dor como um material de trabalho, já que escrevem sobre humanos, a partir daí, dependendo do talento, podem construir uma epopeia sobre a interioridade da condição humana. Entre os mais populares relembro a J. K. Rowling que coloca a dor como uma essência de ser humano:

“Harry, não há resposta perfeita neste bagunçado mundo emocional. A perfeição está além da humanidade, além da magia. Em cada momento de felicidade é derramado um veneno: o conhecimento de que a dor virá de novo. Seja honesto com os que ama, mostre sua dor. Sofrer é tão humano quanto respirar.”  – Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

“Era demais. Harry se virou, tremendo de raiva.
— Não quero falar sobre o que estou sentindo, está bem?
— Harry, sofrer assim prova que você continua a ser homem! Esta dor faz parte da sua humanidade…”  – Harry Potter e a Ordem da Fênix

O sofrimento, apesar de ter uma conceituação denotativa, tem um significado para cada pessoa, pois é dependente da interioridade, resiliência e experiência. Cada dor é única. Estamos cientes de que tudo é impermanente, porém, parece que há em nós, o desejo de que tudo aconteça quando estivermos prontos para enfrentar. A incerteza é certa, assim como o sofrimento. Como reflete o William Peter Blatty (2): “Kinderman se perguntou se seria possível para um homem ser um homem sem sofrimento ou, pelo menos, a possibilidade de sofrimento.”

Apesar da insondabilidade da vida, e todas as suas possibilidades, podemos tomar consciência da efemeridade de tudo o que nos cerca, até de nós próprios, e ultrapassar as adversidades que encontrarmos, ultrapassá-las, não as contemplar, às vezes a contemplação pode nos levar a paralisação em frente a um problema.

Sobre a vida Carl. G. Jung (3) nos diz que “A triste verdade é que a vida do homem consiste de um complexo de fatores antagônicos inexoráveis: o dia e a noite, o nascimento e a morte, a felicidade e o sofrimento, o bem e o mal. Não nos resta nem a certeza de que um dia um destes fatores vai prevalecer sobre o outro, que o bem vai se transformar em mal, ou que alegria há de derrotar a dor. A vida é uma batalha. Sempre foi e sempre será. E se tal não acontecesse ela chegaria ao fim.” O que é interessante, pois passando por essa dinâmica de antagônicos na vida, a nossa posição frente a ela pode ser de resignação ou contestação, como reflete Dean Koontz (4):

“O ditado inteiro é assim: Algumas vezes a vida pode ser amarga como lágrimas de dragão. Mas se as lágrimas de dragão são amargas ou doces depende inteiramente de como cada homem percebe o gosto. Em outras palavras, a vida é dura, até mesmo cruel, mas também é aquilo que você faz dela.”

Há uma visão de que o sofrimento é necessário para um sentido da vida, porém, o psicólogo Viktor Frankl (5) diz:

“Não é necessário sofrer para encontrar o sentido. Além disso, é somente o sofrimento imposto pelo nosso destino que traz em si possibilidades de sentido; quem sofre desnecessariamente não é heroico, mas masoquista. Por outro lado, o ser humano não consegue nem mesmo manter-se em perfeitas condições psico-higiênicas se nunca estiver sujeito a alguma tensão. O que não significa, porém, que deva sempre andar sofrendo.”

Não houve uma pretensão de dissecar conceitos ou vicissitudes da condição humana, mas levar a uma reflexão sobre impermanência, sofrimento, incertezas… Como aponta Honoré de Balzac em “Ilusões Perdidas”:

“Se o presente é frio, nu, mesquinho, o futuro é azul, rico e esplêndido. A maioria dos grandes homens passou pelas vicissitudes que me afetam sem me abater. Plauto, um grande poeta cômico, foi moleiro. Maquiavel escrevia O príncipe à noite, depois de ter sido confundido com os operários durante o dia. Enfim, o grande Cervantes, que perdera o braço na batalha de Lepanto, contribuindo para a vitória daquele famoso dia, chamado de velho e ignóbil maneta pelos escrevinhadores de seu tempo, levou, por falta de livreiro, dez anos entre a primeira e a segunda parte de seu sublime Dom Quixote.”

Apoiando-nos no poeta Rainer Maria Rilke (6): “Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: a paciência é tudo!” Se existe um remédio para dor interior, talvez seja a Paciência e o Tempo, como disse J. K. Rowling (7): “É preciso tentar não sucumbir sob o peso de nossas angústias, Harry, e continuar a lutar.”

Como diz Sêneca (8) “Pois bem: viver, Lucílio, é ser soldado.”

(1) Sementes do Passado – V. C. Andrews

(2) O Espírito do Mal – William Peter Blatty

(3) O Homem e seus Símbolos – Carl. G. Jung

(4) Lágrimas do Dragão – Dean Koontz

(5) Sede de Sentido – Viktor Frankl

(6) Cartas a Um Jovem Poeta – Rainer Maria Rilke

(7) Harry Potter e o Enigma do Príncipe – J. K. Rowling

(8) Sobre os Enganos do Mundo (Como enfrentar as contrariedades) – Sêneca

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Sobre o autor

Availton Corino

Leitor Onívoro.

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