domingo, 15 de janeiro de 2017

Woody Allen e o seu estereótipo pessoal

Por: Danilo Brandão

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Ainda precisamos do gênio indomável de Woody Allen. A grande maioria dos artistas formam propositalmente ou não, dentro de suas atuações, estereótipos pessoais. Temos o “Peter Pan” de Adam Sandler, o homem que, não importa sua posição social, nunca amadurece, o “Atrapalhado glorioso”, de Tom Hanks, o bom homem que quase nunca está ciente de suas ações, porém apresenta-se sempre bem intencionado diante do público. O mundo da arte é cheio desses exemplos. Algo freudiano, quem sabe. O artista não consegue se desvincular do seu “eu” pessoal. O ator não consegue dar lugar ao personagem. Não sabe-se muito bem a linha em que um termina e o outro começa. É uma linha tênue demais para ser demarcada. Assim acontece, de maneira especial, com Woody Allen.

Quando estamos diante de um filme desse polivalente artista, esbarramos, quase sempre, na mesma questão: Temos o amor, temos a tecnologia, temos a sociedade, e agora? O que vem a seguir? Estamos aqui por qual motivo? Precisamos mesmo amar? Estamos prontos para seguir as regras sociais, que, aliás nós mesmos criamos? São múltiplas as questões que nos deparamos na obra do diretor estadunidense. São quase cinquenta filmes no currículo para destrinchar nossa existência. Algo que, para sermos justos, nem é um assunto tão incomum em filmes, livros ou peças teatrais. Mas, a forma que Allen encontrou para entrar em nossa existência é algo, para não economizar adjetivações, fascinante.

Temos o gênio indomável. O artista que nunca está satisfeito, com sua arte ou com sua vida. Há sempre um problema. Algo sempre o incomoda. Não importa o quanto seu relacionamento esteja bem, por exemplo, algo não está bom. Não importa o quanto seu novo apartamento seja confortável, há um barulho insuportável que percorre pelos canos e vai direto aos seus tímpanos para lhe atrapalhar a vida. Nos filmes que Allen atua e dirige simultaneamente seu estereótipo fica mais claro. Seu personagem inconsciente fica totalmente exposto.

Uma das obras primas de Woody Allen é Annie Hall (1977), ou Noivo neurótica, Noiva nervosa (Título brasileiro). No filme, o próprio diretor dá a vida à Alvy Singer, um humorista judeu, de sucesso mediano no cenário Nova iorquino, de meia idade, divorciado, que não consegue encontrar-se na vida. O personagem faz análise há quinze anos, e, como repete inúmeras vezes durante o longa: não evolui. Em determinado momento da história Alvy conhece Annie Hall, uma jovem cantora, que está tentando progredir na carreira. Apaixonam-se. Vão morar juntos. As crises começam. O enredo é rápido, nervoso, como os protagonistas. As cenas vão no mesmo ritmo. Nada disso é por acaso. Assim como também não é obra do acaso essa ser, talvez, a obra prima de Allen.

Em Annie Hall, Allen chega ao ápice interpretando seu estereótipo pessoal. Alvy segue a mesma linha que a grande maioria dos personagens que Woody Allen interpreta, porém acentuado. É um comediante nervoso, intelectualizado demais para aceitar as coisas como são sem questioná-las. Em um determinado momento da história, Alvy e Annie estão em mais uma de suas inúmeras crises conjugais, e ele a convence a fazer análise também. Ela segue seu conselho, começa. Ao voltar de sua primeira sessão, animada, começa a enumerar seus progressos, as angústias que conseguiu tirar de si. Alvy fica perplexo. Em uma espécie de digressão cinematográfica – muito comum ao longo do filme, aliás – o ator se dirige a câmera, olha nos olhos do espectador e diz que em quinze anos não conseguiu nem tocar em tais assuntos ainda em suas inúmeras sessões. A psicanálise na obra de Wood Allen nada mais é que uma metáfora para as angústias humanas. Problemas que, de acordo com nosso modo de organização social, aprendemos suprimir.

As angústias pessoais de Woody Allen parecem não dar sossego ao artista nem por um minuto. Seus filmes são um reflexo direto disso. Ao se colocar na frente das câmeras descrevendo as suas angústias, seus medos, seus questionamentos, o ator-diretor aparece “nu”, despido como humano, como ser, o que acaba o tornando verdadeiro demais para seus espectadores. Isso é perceptível, de certa maneira, ao analisarmos entrevistas e aparições públicas do artista. Assim como seus protagonistas, Allen responde às perguntas assustado, olhando para os lados, como se algo fosse acontecer a qualquer momento. Inquieto, parece sempre incomodado com alguma coisa. É lógico que devemos sempre tomar cuidado e fazer ressalvas ao fazermos tal análise, mas, no caso do artista em questão, ela é mais que válida.

Como Allen, nos seus filmes, aborda as questões para as quais ninguém tem respostas objetivas – aliás, por isso são tão angustiantes para todos – ele busca compreendê-las no amor. Analisa friamente casais dos mais variados tipos. A coletânea de filmes do diretor, há, quase sempre, casais com problemas existenciais. Problemas individuais, mas quando estamos em um relacionamento é, naturalmente, compartilhado. Essa é a marca do artista Allen. Por meio do amor, das relações conjugais, algo que todos nós temos contato uma hora ou outra na vida, o diretor puxa seu espectador para as suas preocupações centrais. Talvez numa tentativa desesperada de alguém lhe responder algo. Talvez para alguém lhe tranquilizar sobre sua existência. Freud, talvez iria por esse caminho fazendo uma sessão com Allen.

Se Nietzsche diz que temos a arte para não morrer da verdade. Woody Allen rebaterá o filósofo alemão dizendo que, provavelmente morrerá assistindo a sua arte. Seu artista neurótico, inquieto, apaixonado por psicanálise, descontente com o amor, com o mundo, com si, nada mais é do que uma versão explosiva do próprio Allen. Woody Allen o imita com exatidão e nervosismo.

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