quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A desconstrução do mérito: Foucault e a categorização dos indivíduos como um regime de poder

Por: Alberto Silva

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Desde o processo de socialização primária e diariamente em nosso cotidiano, estamos expostos à uma série de influências discursivas que impregnam a nossa maneira de observar os elementos que ao nosso redor se encontram e mesmo os meios pelos quais exercemos a capacidade de disposição do livre-arbítrio. Certamente algum tempo é necessário para que os sujeitos se apercebam de tais limitações instituídas ao pensamento e passem a refletir criticamente acerca do meio no qual se encontram inseridos. Essa “quebra de correntes” pressupõe primeiramente que aquele que está sob o jugo dessas externalidades capte as interações mais elementares que constituem os nossos relacionamentos em sociedade e os converta mentalmente em panoramas que possam ser dignos de questionamentos ou não, bem como tenha os espaços e as oportunidades para constituir um reflexão autônoma.

Logicamente, esse exercício do intelecto não é uma tarefa fácil e para grande parte dos sujeitos sequer aprazível ou mesmo disponível, tendo em vista que as possibilidades de constituição de olhares próprios no que diz respeito à realidade vem sendo cerceada sistemática e historicamente por uma série de razões “convenientes” que passam fundamentalmente pela manutenção do status quo da presente ordem sócio-econômica vigente. Diante disso, os regimes de poder (e aqui me valho de uma categoria foucaultiana) acabam passando desaperbecidos no momento em que estão sendo praticados. O modus operandi de classificação e categorização dos indivíduos, conhecido por todos nós pelo divino nome “meritocracia”, é um deles. Talvez seja essa uma das mais problemáticas formas de exercício do poder em nossa sociedade, a depender do ponto de vista do observador.

A justificativa da meritocracia em si passa pela ideia de que a organização social se dá da melhor maneira possível quando alguns são recompensados pelos seus esforços hercúleos enquanto outros são punidos por sua incompetência. A noção que está por trás desse argumento joga toda a conta do sucesso ou fracasso de um indivíduo apenas na chamada “responsabilidade individual”, algo que deita raízes em parte do pensamento liberal clássico que chegou, em meados do século XIX e por meio de alguns teóricos, a atribuir a pobreza de ampla gama de pessoas a uma mera questão de dedicação ou talento. Uma das incoerências que aí reside tem a ver com a ignorância acerca dos contextos micro e macro onde os sujeitos se fazem presentes, pois os locais nos quais cada um está inserido pode apresentar limitações ou aberturas de ordem gigantesca, que facilitam ou não a aquisição de diversos tipos de capitais.

Outro ponto frágil dessa crença ideológica é a conclusão “lógica” de que a escolha adequada de meios de auferição do conhecimento e de outros tipos de capacidade dos sujeitos resultarão em uma distribuição mais justa dos bens materiais e imateriais em uma dada sociedade. Uma análise superficial é suficiente para constatar que na verdade os mecanismos avaliatórios disponíveis nada mais são do que perpetuadores das desigualdades que vem de berço (para utilizar a expressão popular), já que àqueles aos quais foi concedido um treinamento específico e de razoável ou grande qualidade, algo que exige capital econômico considerável principalmente quando se trata de sociedades que não dispõem de equipamentos públicos de porte, se faz mais realista um horizonte que contenha como resultante a conquista de “prêmios” pelos seus esforços, no fundo uma resultante das condições estabelecidas.

É evidente que exceções a esse quadro podem vir à tona, mas ao invés de fatos corriqueiros de escape ao poder, elas devem ser pensadas muito mais como pautas fetichistas para a imprensa, que trata de expô-las em matérias que celebram esforços muitas vezes anormais e que nada mais são do que o retrato de uma pirâmide social repleta de abismos e mazelas. Não se trata aqui de enxergar como ideal um mundo no qual há a desvalorização da qualidade de trabalhos bem-feitos ou o desestímulo para que os sujeitos exerçam aquilo para o qual estão melhor vocacionados, até mesmo porque ir nessa direção seria de um simplismo aterrador.

O ponto do qual não se pode escapar é a necessidade de desvelar todas as contradições de um discurso que move paixões em nossa sociedade, enxergando o mérito não como um “dom” concedido divinamente ou uma simples questão de esforço mas como um atributo construído gradualmente e observando atentamente para a meritocracia (regime de exponencialização do mérito) enquanto maneira de eternizar a distribuição dispare dos recursos existentes. Esse regime de poder em exercício, assim como outros, é uma ficção reguladora a ser enfrentada, pois não possui necessariamente um criador ou dono identificável e intencionado, já que o poder, como o próprio Foucault menciona na sua obra, não emana de alguma fonte. Dando alguns passos para pensar nesse sentido, quem sabe novas formas de concessão, mais niveladoras, não possam ser construídas, ainda que no plano das ideias.

Referências bibliográficas:

Michel Foucault, 1926 – 1984. Microfísica do Poder/Michel Foucault; organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machad. – 4. ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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