quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Bertrand Russell e Jim Jarmusch: Tédio existencial e o mundo da rotina

Por: Alberto Silva

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O filme “Estranhos no Paraíso” de Jim Jarmusch, cineasta e ícone da produção indie nas décadas de 1980 e 1990, é um retrato significativo da maneira pela qual as ações que nós executados cotidianamente estão perfeitamente marcadas pelo tédio. A fotografia em preto e branco suave, o não-deslocamento das câmeras, com escurecimento dos planos a cada corte de cena; e as expressões cansadas dos personagens em momentos aparentemente animadores revelam mais do que um longa marcado pelo dramaticismo existencialista mesclado à comicidade. São como qualquer obra de arte, uma ponta de escape para a reflexão consciente da realidade.

O trio de jovens, incluindo dois húngaros, que protagonizam o filme, com destaque para a personagem Eva interpretada por Eszter Balint, denotam significativa angústia em momentos que vão desde o simples ato de assistir a um programa de televisão, passando por um jogo de baralho na casa da tia dos primos húngaros que não fala inglês, até chegar à sarcástica cena na qual os dois amigos de Nova York, Willie e Eddie, acompanham Eva ao cinema, quando na verdade a mesma só queria estar ao lado do seu pretendente e colega da lanchonete de cachorros-quentes na qual trabalha. A angústia das personagens ao ver o filme é nítida, a vida parecer ser uma grande chatice. As expressões delas na verdade muito tem a ver com as caras e bocas observáveis nas ruas das metrópoles.

A vida de homens e mulheres em nossa sociedade está diariamente implicada pelo que eu vou chamar aqui da “maldição da rotina”. O ato incansável da repetição, executado seja nos serviços físico ou intelectual, é uma marca do “trabalho” enquanto categoria moral constitutiva da modernidade. Os gregos que celebravam o ócio nas suas ações e nos seus escritos talvez ficassem escandalizados ao se deparar com a maneira pela qual as amarras do “labor” nos prenderam enquanto humanidade e passaram a ser o meio através do qual muitas pessoas compreendem o próprio sentido das suas existências. Mesmo à esquerda, pouco do que foi afirmado e produzido politicamente buscou questionar esse pilar determinante de grande parte das relações sociais.

O que ocorreu, na verdade, foi uma reificação generalizada do trabalho, da rotina e das baixas possibilidades de experimentação do tempo que temos na vida. Logicamente isso está ligado ao modelo econômico e de consumo que adotamos. Mas também se liga aos discursos morais e ideológicos que nos inibem a canalização das nossas verdadeiras pulsões, nossas fantasias mais íntimas (enterradas no id) e os nossos desejos de desbravamento. Bertrand Russell no clássico ensaio intitulado “O elogio ao ócio” previa que com a evolução das formas tecnológicas do capitalismo, estaríamos emancipados do trabalho, gerador de rotina e tédio, principalmente no precariado. Essa visão é certamente muito ingênua para nós que assistimos o processo de evolução histórica pós-Russell. Infelizmente, os seres humanos, submetidos aos ditames das minorias detentoras dos poderes político e econômico, acabaram esquadrinhados.

Alguém pode afirmar que o “trio ternura” de Jarmusrch nada tem a ver com os “operários” (com todos os anacronismos que esse termos possa conter) das sociedades capitalistas. De fato não são. Na verdade representam a margem subterrânea da precarização produzida sistematicamente. Eva, Willie e Eddie não compõem apenas um grupo formado por uma imigrante e dois viciados em apostar em jogos. Também são personificações do vazio existencial de todos aqueles que são oprimidos pelos enquadramentos do mundo da rotina e pela ausência de possibilidades culturais emancipatórias. Como forma de escapismo, as personagens acabam caminhando por estradas sem fim até chegar à bela vista das praias da Califórnia, refúgio de almas, graças a um dinheiro obtido em aposta: dinheiro, esse elemento tão presente entre elas e que restringe todas as saídas de libertação. Atribuir um significado à vida tem sempre um preço.

Talvez a liberdade verdadeiramente viesse para eles ou para todos os que na vida real se assemelham a eles, mas isso somente ocorreria se as previsões de Russell se cumprissem. O encontro do “eu” é tarefa difícil na prisão do sistema. A razão nos diz que o que temos hoje é um caminho talvez sem saída. Quem sabe novas práticas não possam brotar otimismos (e aqui me valho do sentido inserido na velha frase de Gramsci) e ressuscitar o antigo lema da emancipação do ser, tendo em vista que a vida é um momento único que não cabe num roteiro pré-definido? Entendamos, sobretudo, que a privação pode não ser apenas de ordem material, mas existencial. Eva, Willie e Eddie deixam essa mensagem com as suas ações e gestos engraçados, porém reveladores.

Título: Estranhos no Paraíso (“Stranger Than Paradise”)

Direção: Jim Jarmusch

Duração: 89min

Gênero: Comédia/Drama

Nacionalidade: EUA

Ano: 1984

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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