quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Autoadmiração moderna

Por: Danilo Brandão

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Não somos mais admiradores de nada. Estamos sempre com as mãos levantadas diante de uma grande beleza, assim como povos antigos diante de um rei, ou os jovens dos anos 50 diante de uma apresentação do grande astro. A diferença é que hoje vivemos a era da “autoadmiração”. Nossas mãos estão levantadas para as selfies. É assim que caminhamos: de mãos no ar.

Ninguém quer estar em um lugar lindo, quer ver-se nele mais tarde. Ninguém quer viver um momento, quer postar que esteve ali. A diferença é óbvia. Quando estamos em algum lugar, não significa que estamos vivendo aquele momento. A era digital trouxe essa dificuldade para nós, é tanta preocupação em mostrar que esquecemos de viver.

Fotos são, há muito tempo, o melhor jeito para se obter recordações de alguma ocasião especial. A novidade, em nossos dias, não está nas fotos, mas em como o uso compulsivo delas atinge nossa sociedade. Não existe mais aquele retrato que se guarda no fundo da gaveta para recordação, para uma eventual lágrima futura. O fato de podermos tirar fotos de todas as maneiras e em todos os lugares acabou por atrapalhar a nossa vida.

Não é raro, ao estarmos em uma exposição, por exemplo, nos depararmos com uma personagem mui peculiar: “A registradora ambulante”. Tal personagem é cômica, hilária do ponto de vista cultural e social. Uma exposição é, muitas vezes, uma oportunidade única de admirarmos uma obra de arte. Exposições são fontes inesgotáveis de conhecimento. Mas, para a registradora ambulante tudo que vale são quantas curtidas essa exposição irá lhe render. Ao menos é o que parece para um observador distante. Ela vai de um lado para o outro, esbarrando nos visitantes, pisa no pé de um, bate com a mão na cabeça do outro, tem um olhar nervoso, inquieto, louco para encontrar o ângulo perfeito para sua selfie. Ao concentrar-se na sua missão em busca de curtidas não absorve uma informação sequer, não percebe um pormenor especial daquele artista. É triste, mas não raro. Está lá, mas não vive.

Exposições são só um exemplo: bares, teatros, cafés, livrarias, restaurantes, faculdades, escolas, tudo está impregnado com o DNA exibicionista dos tempos modernos. Não que uma foto seja algo ruim, longe disso. Todos nós já sentimos vontade de registrar uma beleza extraordinária que se apresenta diante dos nossos olhos. Todos já sentimos vontade de registrar uma boa reunião de amigos. Mas viver na era de auto exposição é algo extraordinário para os olhos de um observador compulsivo. O nosso comportamento se assemelha ao de estrelas de Hollywood em fim de carreira: estamos sempre atrás de atenção, sempre procurando elogios pelos cantos da internet, como se isso fosse resolver nossos problemas diários.

Não basta estarmos em um lugar, temos que mostrar que fomos ali. Não basta lermos um livro, é preciso que todos saibam que aquele livro foi lido por nós. Não basta assistirmos um filme, é preciso que todos saibam que você passou seus olhos por aquela película. Não basta estarmos vivendo, é preciso que todos olhem para a nossa existência e ainda por cima admire ela.

Quero fugir do puritanismo barato aqui. Eu mesmo já tive meus momentos exibicionistas pela rede mundial de computadores. Esse texto mesmo é prova disso; não basta escrever um texto é preciso postar em todos os lugares possíveis. Mas é preciso repensar. É preciso viver. Há muita luz em viver, e não é a do seu smartphone.

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