quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Pride: Vencendo o Preconceito por meio da Solidariedade!

Por: Elienae Maria Anjos

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A medida que marchamos e marchamos na beleza do dia adentro

Um milhão de cozinhas escurecidas

Milhares de residências cinzentas são tocadas com todo o esplendor

Que um sol repentino revela para as pessoas nos ouvirem cantar: pão e rosas, pão e rosas

A medida que marchamos e marchamos batalhamos também pelos homens

Pois eles são filhos de mulheres e somos mães para eles novamente

Nossas vidas não devem ser árduas do nascer ao encerrar da vida

Corações famintos, bem como os corpos.

Nos dê pão, mas também nos dê rosas!

A medida que marchamos e marchamos, incontáveis mulheres mortas clamam por nossa cantoria

Seus antecessores clamam por pão, diminuta astúcia, amor e beleza

Seus espíritos servis conheceram

Sim, é pelo pão que lutamos, mas lutamos pelas rosas também.

(Bread and Roses)

 

Sinto-me feliz quando consigo descobrir que rastros históricos de nossa existência trouxeram calamidades, atrocidades e mortes, mas, também puderam nos compensar com surpresas marcantes e lições capazes de impactar o senso humano com tamanha força, ensinando na prática como podemos evoluir para nos tornarmos pessoas melhores, humanizadas e sensibilizadas, nos tirando da zona de conforto do nosso “mundinho” individualista e preconceituoso. Através de muitos fatos reais, aprendemos que não é difícil andar na contramão dos costumes desumanos que nos deparamos constantemente, assim como não é impossível silenciar nossas vozes egoístas para ouvir o som produzido pelo outro que pode estar distante ou próximo de nós.  Acredito muito que essas atitudes ajudem a valorizar mais a vida porque podem contribuir para superarmos as rejeições medíocres que muitas vezes se instalam dentro de nós. Afinal, sabemos muito bem que apesar de sermos participantes de diferentes famílias, culturas, raças, opção sexual, classes sociais e religiões, somos semelhantes, mas, infelizmente, percebemos que na prática muitos ainda não conseguiram criar essa consciência.

No carnaval de 2015, buscando algum filme “bom” para ocupar os espaços do meu feriado, encontrei uma surpreendente demonstração de união e amor ao próximo dentro de um furacão vomitando suas larvas… e foi no filme Pride (2014), dirigido por Matthew Warchus, que encontrei esse impacto que até hoje rodeia meus pensamentos. E para não fugir à regra, mais uma vez a Arte me surpreende, agora denunciando e jogando luz sobre um fato obscuro e ignorado pelo público. O filme revela um acontecimento real divulgado através da imprensa. A história não é fruto da imaginação de um autor. Ela não saiu das páginas de um livro fictício e ganhou a tela do cinema. Ela é a real e a verdadeira história de bravos heróis que enfrentaram e superaram as maldades presentes nas lideranças governamentais, desequilibrando e derrubando pré-conceitos sem fundamento, que até hoje são erguidos em altas torres e espalhados para a humanidade através dos satélites fortemente usados pelo preconceito.

Pride traduzido é: Orgulho.  Creio que um título assim não foi unicamente escolhido por conta do início do movimento LGBT ou da Parada Gay em Londres.  Naquela época, essa escolha talvez tenha sido para manifestar o quê aquelas pessoas excluídas sentiram, quando tiveram a oportunidade de serem solidárias a uma classe de homens simples que tiravam o sustento para as suas famílias trabalhando em minas situadas nas pequenas e carentes cidades da Grã Bretanha. Homens trabalhadores que também estavam começando a experimentar as dificuldades encontradas na luta pelas conquistas dos direitos trabalhistas usando somente a voz, exatamente como faziam os ativistas da LGBT, que com muita determinação, eram incansáveis na luta por direitos, como por exemplo, o tratamento contra a nova praga que impregnou a década de 80, iniciando uma onda de terror no mundo: AIDS, às vezes ignorantemente chamada a Doenças dos Gays.  Era chamada assim porque o maior número de infectados estava diretamente ligado aos homossexuais do sexo masculino, em diversos países, assim como também no Reino Unido. Pelo que vemos no filme, o passado desses guerreiros foi marcado por uma dor mais profunda e mortal do que hoje ainda vemos. Não desmerecendo o momento atual, mas vemos que no passado as pessoas enfrentaram muito mais rigor, hostilidade, revoltas e exclusões, sempre de cabeça erguida, convivendo e driblando tais realidades nas ruas, em família, no governo, além do surgimento da AIDS, a falta de informação e da precariedade em seu tratamento.

Conhecer Orgulho e Esperança, título escolhido no Brasil, me fez chegar à conclusão de que ainda há uma chance de nós, humanos, sermos mais equilibrados e alimentados pela alma, do que pela matéria e pela razão. Quero me apropriar desse título, quero ter esperança, quero ainda ouvir e ver neste planeta outros encontros semelhantes ao que vi naquelas vidas que antes eram separadas pelo preconceito, mas que através de uma necessidade, nasceram novas amizades contrariando o punho de ferro de uma mulher dominadora e soberana em um Reino, munido de tanta cultura, conceitos de vida e conhecimentos, mas incapaz de oferecer afeto, igualdade e respeito a todos, igualmente.  Através do encontro entre dois grupos tão distintamente diferentes, mas semelhantes em seus ideais, mineiros e LGBTs descobriram que é possível haver harmonia na convivência com o diferente, pois o valor de cada um está no interior e no que temos para oferecer: um abraço, um vínculo de amizade, a solidariedade e o amor.

Essa aproximação salvadora havia nascido no coração do líder ativista Mark Ashton (Ben Schnetzer), um jovem com um coração cheio de sonhos libertadores para a sua comunidade; Quando diante da TV, seus olhos tiveram as primeiras reações sobre as ideias absurdas e autoritárias da, então primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, anunciando a destruição de várias minas de carvão, trazendo o desemprego e o fim de várias comunidades de mineiros em várias partes do Sul de Gales. Munido somente com baldes pegos em casa ou na vizinhança, no dia 30 de junho de 1984, Mark chegou para participar da caminhada naquela manhã com uma iniciativa totalmente fora de conexão do que de fato se propõe na marcha da parada gay, e a lançou aos ouvidos de seus amigos: Preciso que batam nos baldes… é para os mineiros… Mostre solidariedade… A partir daquele dia, nas ruas que eles passavam, foi surgindo a ideia de angariar fundos para os mineiros que estavam em greve.

Através de um ato de ousadia sem a motivação de se promover ou ganhar popularidade, aqueles amigos fundaram a organização LGAM: Lésbicas e Gays Apoiam os Mineiros. A sede disfarçadamente era situada em uma livraria, justamente para não chamar muita atenção. A motivação em ir de encontro com as necessidades daquelas pessoas foi forte, assim como também foi grande a coragem de passar um balde pedindo doações… Violências físicas, olhares e falas acusadoras não foram poucas recebidas durante as caminhadas cotidianas debaixo de sol, chuva, enfrentando dias frios… Nada os fazia desanimar daquela luta pelo sustento daquelas famílias, o que conseguiam era dividido e oferecia mais energia e sustento aos corpos famintos porque também continham suprimentos da alma.

Dessa união inesperada, surgiram também envenenamentos, porque não faltou quem os acusasse, levantando falsas acusações.  Houve também certa timidez e insegurança entre os dois grupos quando se conheceram, o que foi preciso superar.  No início das apresentações, alguns homens e mulheres tradicionais sentiram vergonha ao saberem que seriam “sustentados” por “bichas” e “sapatões”. Diante de circunstâncias como aquela esses temores sempre podem surgir endurecendo a natureza humana, tanto que alguns não conseguiram enxergar a própria necessidade e nem aceitaram uma motivação tão bela como a do negar as suas próprias convicções e direcionar o olhar para o próximo, despidos de julgamentos, poses formais ou máscaras. Não é raro o velho homem reagindo dessa forma, abrindo mão de crescer, preferindo se definhar com mesquinharias, omissão e acepção de vidas, em nome do NADA. E o que é o NADA? O nada é um buraco causado pela ausência do amor. E nele a ignorância e a intolerância humana vivem juntas. Dentro desse NADA nunca se cresce e nem amadurece, porque ele aprisiona mentes com teorias e práticas sem fundamentos, levando muitas vidas ao isolamento e às mortes prematuras: físicas ou em vida, pela autoflagelação em não querer abrir mão de sua liberdade, para viver, amar e ser como naturalmente nasceram.

Através da greve dos mineiros aquele grupo irreverente se moveu em direção à realidade que sacudia aquele país naquele momento, percebendo que dentro daquela ação, eles também estavam explorando suas próprias minas-vivas, com raras pedras preciosas que precisavam reaprender a nascer, contagiados por um grupo especial de garimpeiros com métodos sensíveis de lapidação. A vida sofrida daqueles mineiros que antes, nunca foram reconhecidas e valorizadas, aprendeu o essencial dentro de suas calamidades, porque aquele grupo LGBT as ensinou o que é o amor.

Aquelas pessoas soltaram seus sorrisos, abriram seus corações, receberam aqueles “meninos e meninas”, como se fossem seus filhos, sobrinhos, carne de sua carne. Mostraram para o Reino Unido que aquela experiência os fez aprenderem a se despir das roupas velhas de conceitos e princípios moralistas, para amarem independentemente das opções sexuais. Brincaram junto com seus novos amigos, saltando por cima de desaforos escritos pelas velhas opiniões ultrapassadas, quando seus heróis foram chamados de: “pervertidos“. E foi através dessa oportunidade, que uma porta se abriu para arrecadar mais de 5.650 libras em doações. Isso se deu quando Mark novamente teve a genial ideia de fazer um show beneficente, intitulado de: “Pits and Perverts” (Poços e Pervertidos). No dia 10 de dezembro daquele mesmo ano, os dois grupos de amigos: poceiros e pervertidos usaram as opiniões maldosas, que foram lançadas como pedras sobre eles, usando-as para fortalecê-los ainda mais, além de fazê-los adquirir mais confiança e segurança para tocarem e sensibilizarem outras vidas através daquele evento. Por fim, deixaram para a história a linda construção de um castelo que foi uma união que deu certo, um legado que está erguido firme e forte através de décadas até hoje em nossas memórias.

A lição foi aprendida. As vidas que se deixaram ser tocadas comprovaram isso porque aqueles mineiros mostraram que ganharam muito mais do que o dinheiro pode oferecer. E finalmente antes do encerramento de Pride, cenas mostram essa verdade que nossos olhos não puderam ver: em 1985, mineiros, juntamente com seus lideres locais e suas famílias de todas as partes de Gales, chegam à Londres no dia da Marcha do orgulho Gay, dentro de vários transportes lotados, para a celebração da vida e também para agradecer com orgulho e esperança àqueles que um dia saciaram a fome física e emocional de cada um deles.

Não sei porque, mas infelizmente Pride, foi um filme pouco divulgado no Brasil. Mas lá fora, merecidamente ele conquistou vários prêmios: British Independent Film Award (Melhor Filme Britânico Independente, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante) e Prêmio BAFTA de Cinema (Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico).

Não tenho dúvida que esses prêmios conquistados nos mostram o motivo pelo qual a presença daqueles trabalhadores marcou a luta do Orgulho Gay, assim como também a minha vida e de tantos outros. Além disso, ela nos fez aprender a agregar sem julgar, doar o pão, mas nunca esquecer que além do alimento, devemos doar abraços, lealdade, sinceridade, sem esquecer também é claro, das rosas.

“Eu tive novas experiências durante a greve, falar em público, ficar firme em um piquete e agora em um bar gay.

Mas sério, só há uma diferença entre este e um bar no Sul de Gales: as mulheres. Elas são bem mais femininas aqui. O que realmente quero dizer a vocês esta noite é “obrigado”. Se você foi um dos que colocaram dinheiro nos baldes, se apoiaram a LGAM, então, obrigado. Porque o que vocês nos deram foi mais do que dinheiro, foi amizade. E quando você está na batalha contra um inimigo tão maior e tão mais forte que você, descobrir um amigo, que você nunca imaginou, bem, este é o melhor sentimento do mundo. Então, muito obrigado.”

(Dai, líder grevista)

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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