segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Extremismo: O muro que nos separa da Democracia

Por: João Neto Pitta

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A deputada Maria do Rosário, em uma rede social, disse que não existe democracia com a direita no poder; em um programa na Tevê bandeirantes, o apresentador Datena vociferou que os ateus são ”anti-democráticos”, além de colocá-los como seres malignos que não têm ” amor a deus”… Resta saber que democracia é essa que eles estão falando! Imagino que seja a democracia de Luis XIV ou de Gengis Khan, ou, pelo menos, o extremo oposto do que imaginava Aristóteles ou Habermas.

Há, porém, uma explicação a essa nossa tendência ao egoísmo político. Basta perceber que ela não se restringe aos dois exemplos supracitados, muito pelo contrário, ela está em todos os lugares, inclusive dentro de sua própria casa. A vontade de domar o mundo e transformá-lo em um espaço unívoco é, curiosamente, compartilhada por diversos setores da sociedade, até de forma inconsciente algumas vezes.

Certa vez, um humorista disse em um Stand Up, em um tom cômico, logicamente, que, a melhor maneira de se acabar com a intolerância, seria acabar com o ”outro”, o ser que pensa diferente, e, assim, todo mundo passaria a pensar igual e seria ceifada a intolerância , e completou com: ”Radical, mas eficiente”.  A piada revela muito mais do que o que aparenta, ela revela o subterrâneo de nossas intenções, queremos acabar com o inferno, e o inferno são os outros.

Freud asseverava que este ódio ao outro e a toda a sua forma de manifestação trata-se de uma inclinação humana, tendo em vista que a maior parte da história da humanidade foi conduzida por tiranias: Teocentrismos, Absolutismo, Ditaduras e só uma ínfima parte foi vivida como democracia, o que nos faz perceber que vivemos em um regime político ainda imaturo.

Tendo vivido a maior parte do tempo em regimes tirânicos, cuja maior característica é o monopólio de pensamento,  o homem se deparou com um mundo pouco rico e sem qualquer pluralidade, seja de pensamento ou de crença, o que construiu uma inclinação tirânica em todos nós, mas enfaticamente nos grupos que detinham este monopólio: os cristãos e a Elite. Pedimos a liberdade e com ela veio a diferença.

A democracia é a institucionalização dos conflitos. É, portanto, uma prova de tolerância que está constantemente ameaçada, como expressa Bertold Brecht:

“A cadela do Fascismo está sempre no cio.”

Este perigo está presente principalmente na atividade de alguns deputados e senadores que se usam das instituições democráticas para esvaziar a própria democracia, o que o filósofo Habermas chama de ”Esvaziamento do Espaço Público”,  um exemplo disse são alguns projetos de leis que têm como objetivo limitar a participação de determinados grupos e restringir seus direitos:  Estatuto da Família, seguidamente  de alguns outros projetos que visam extirpar a possibilidade do casamento Homoafetivo, e também o Projeto do Deputado Eduardo Bolsonaro que busca criminalizar o comunismo e qualquer partido vinculado a este tipo de ideologia.

Isso também explica o porquê de querermos construir muros ao invés de pontes, haja vista que temos sempre a percepção de que o mal é trazido pelo o outro e nunca é feito por nós, pessoas de direita dizendo que não existe democracia com pessoas de esquerda no poder e pessoas de esquerda dizendo que não existe democracia com pessoas de direita no poder. Quem está certo? Nenhum deles! Estão reproduzindo um pensamento anti-democrático na mesma medida.

O problema sempre está no Ateu, no Judeu, no Índio, no Gay, no Mexicano, no Vegetariana, no Carnívoro, No Islâmico, No comunista; mas, curiosamente, ele nunca está em nós. Somos tão benevolentes como qualquer monge ou padre.  Detectamos o mal no outro e automaticamente pedras aparecem em nossas mãos, mas Jesus não está mais aqui pra dizer  – ”Atirai a primeira pedra quem não for pecador”. 

O próprio processo de apedrejamento se dá como uma maneira de canalizar o ódio em uma vítima expiatória, pedra por pedra eu destrincho o meu ódio naquela pessoa que identifico como aquela que causou tudo de ruim ao mundo, sem perceber a minha própria participação em todo mal que me cerca.

Pessoas em todos os lugares vibraram com o AVC da mulher de um Ex-presidente, algumas até lamentaram por não ser algo contagioso. Em uma postagem que repudiava essa atitude e clamava por tolerância, uma das pessoas se justificou dizendo que era algo normal e que já viu esquerdistas falarem coisa pior. Está tudo explicado agora.

O AVC da mulher do Ex-presidente pode não ser contagioso, porém o ódio e a falta de empatia, certamente, são. Os muros que nos separam e a polarização política e ideológica são alimentados pela crise, que faz com que coloquemos a culpa sempre em quem está em conflito com a nossa maneira de pensar. A nossa falta de dinheiro,  a batida de carro em uma via de velocidade mínima, a nota baixa de um filho – são sempre culpa da escola, do prefeito e de um partido político que, logicamente, não é aquele em que participo. Precisamos de alguém pra culpar pelo que acontece de ruim. A prudência, a moral e a compaixão, valores compartilhados principalmente pela filosofia grega, foram substituídos pelo ressentimento e por um maniqueísmo difuso que rege cada vez mais as nossas atitudes. É preciso encontrar a nossa responsabilidade em cada ato, para que, desta maneira, consigamos evoluir como sociedade que busca a tolerância e o fortalecimento de nossas instituições.

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Sobre o autor

João Neto Pitta

Eu, você, ele... Tanto faz! Vamos todos morrer um dia.

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