terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Ao Flaubert, o Romance Moderno

Por: Danilo Brandão

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Gustave Flaubert, francês, obcecado por sua arte, realista, foi um dos maiores nomes da história da literatura universal. Sua obra prima, lançada em 1857, depois de muito esforço jurídico, é considerada o primeiro romance moderno. Flaubert tinha noção do que estava criando enquanto escrevia Madame Bovary. Sabia que era uma obra inovadora, que contrariava a forma que a literatura tinha se configurado até o século XVIII.

Sua obsessão pelo tema literatura é algo extraordinário. Em carta à Louise Coltet, sua principal confidente nos tempos de Bovary (Foram quase cinco anos escrevendo o livro). Flaubert escreveu “Que coisa penosa é a prosa! Ela nunca descansa, há sempre o que refazer. Uma boa frase de prosa deve ser como um bom verso, imutável, bem ritmada e sonora.”. O trecho é um manual de como ser um escritor. Qualquer um que se dedique, pelo menos um pouco, ao ato de escrever ficção sabe que o autor está coberto de razão. A prosa é cruel, ela te joga no chão, te prende e te deixa por lá, você se sente dentro de uma caixa de tamanho desproporcional ao seu corpo. Desconfortável.

Mas graças a Flaubert todos os seus sucessores têm uma luz no fim da caixa: trata-se do Romance moderno. Não foi só Eça de Queiroz, com seu Primo Basílio e Machado de Assis, com seu Dom Casmurro, que bebericaram na fonte do Bovarismo do francês. Toda obra, do século XIX pra frente, tem um pouco de Flaubert e de sua Madame.
O subtítulo do livro é “Costumes de província”. Gustave coloca-se no controle de uma vila fictícia “Yonville – Abbaye”. É uma típica comunidade interiorana francesa. Havia a burguesia, formada por profissionais liberais, como o marido de Emma, Charles Bovary, médico da província. Havia a população, como Félicité, a empregada do casal. E a vida era pautada pela mesquinhez da capital e a esperança do progresso.

O enredo é uma teia de traições e tédio de Emma Bovary, uma mulher de meia idade que era infeliz em seu casamento. Mas o essencial não está apenas no fracasso do matrimônio do casal. Flaubert vai além e destrincha todas as contradições da sociedade da época. O autor tira o foco do Amor incompreendido, da idealização da vida – tema dos romances Românticos – e volta-se para a psicologia da sociedade, para as contradições da burguesia, o poder da igreja, mostra o fracasso das instituições conservadoras, como o casamento, dos mitos da ciência e da tecnologia vigentes na época. A partir dessa obra, a mundo da literatura deu um salto. Criou-se o Realismo. Instituições sagradas começam a ser questionadas. O Amor é ridicularizado. Mas, principalmente acaba-se com a falsa dicotomia dos Românticos. Somos humanos. Ninguém é totalmente bom, ou complemente ruim. Somos humanos, com suas fraquezas e desejos. Isso é extraordinário. O pioneirismo de Flaubert é tão inovador quanto chocante para uma sociedade conversadora.

Não foi fácil para o francês publicar sua obra prima. A sociedade protestou, o acusou de desrespeitar a moral, a igreja mostrou-se insatisfeita, principalmente com a personagem Homais (o farmacêutico da província, que aglutina em si, toda a burguesia, com toda a sua mesquinhez latente), um anticlerical convicto. Flaubert foi para a justiça e depois de um ano venceu. Publicou. E mudou a história da literatura para sempre

Madame Bovary é uma dessas obras obrigatórias. Cânones da literatura universal. A você, leitor-escritor, Madame Bovary é um aprendizado maior do que uma tonelada de Best Sellers. Aliás, quando tiver qualquer livro em sua mão, pense em Emma Bovary, sentada em sua poltrona, passando os olhos avidamente por linhas e linhas de romances Românticos. E você entenderá o porquê Flaubert é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos da literatura universal. De Dostoiévski até Sartre, todos reverenciaram o realismo de Flaubert.

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