sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Nossa face oculta: Jung e as nossas sombras psíquicas

Por: Fernanda Mazzoli

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 “(…) Diga-lhe que deve respeitar os sonhos de sua juventude quando um homem será, que não abra o seu coração, essa flor terna e divina, ao inseto mortífero da razão, que se jacta de acerto, que não se deixe desviar quando a sabedoria mundana do entusiasmo, a filha dos céus, blasfemar. ” Don Carlos, 4º ato, 21ª cena, versos 4.289-4.296.

Em um momento de tantas mudanças sociais, as pessoas se questionam cada vez mais sobre o que compõe o EU e como pode-se definir em palavras essa característica tão intrínseca e pessoal a cada um de nós. Vivemos em uma sociedade arraigada nos construtos do cristianismo que impõe ao meio social uma relação superficial tanto com o exterior que nos arrodeia quanto com o nosso interior, passível de expansão somente para os próprios olhos de quem o vê, ou seja, o ser habitante do EU.

Através dos ensinamentos sociais, somos doutrinados a agir de forma justa e correta perante à sociedade, com a orientação de mantermos nosso humor e nossas atitudes constantes em todos os momentos. Quantas vezes precisamos passar por cima de acontecimentos e experiências sem reflexão? Vivemos e convivemos sem questionar o fato de que todo e qualquer menor traço “ruim” de nossa personalidade deva ser omitido, contido ou simplesmente ignorado. Afinal, é possível suprimir os sentimentos e pensamentos ruins que nos vem à tona nas mais diversas situações?

É justamente sobre essa questão que precisamos iluminar nossas cabeças! Sabemos que o mal existe, porém acreditamos que vigora somente no outro, jamais em nós. Digo aos navegantes: infelizmente essa não é a verdade! Neste mundo que vivemos, todos nós somos compostos, expostos e impostos a coisas boas e ruins. Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, definiu os sentimentos e comportamentos considerados imorais e violentos, aqueles que nem nós mesmos poderíamos aceitar, como “sombra”, a parte primitiva e mais sombria do nosso ego.

Ao ler as palavras “primitiva e sombria” é comum que a maioria associe somente ao que não é bom, funciona como um alerta: Não vá por esse caminho! Mas o que não nos ensinam é a extrema importância de desenvolver um relacionamento saudável com a parte que não é considerada tão saudosa em nós. A sombra é ao mesmo tempo responsável pela espontaneidade, criatividade, pelos insights e pelas nossas emoções mais profundas e verdadeiras. Jung exemplifica essa relação ambígua com simplicidade:

“A história dos símbolos nos indica que isso coincide com o fato de Cristo e o diabo terem toda uma série de símbolos em comum. Por exemplo: O diabo é o ‘leão’ e Cristo é o ‘leão’. ‘Leo de tribu Juda’ ou ‘ele anda em volta como um leão que ruge’, procurando a quem devorar. Ou a águia. Ou a ‘Stella matutina’, que é a estrela d´alva, Lúcifer. Ambos são ‘lúcifer’. Isso indica que uma unidade original foi, por assim dizer, separada por um ato da vontade. A unidade original de fato se encontra presente em seu pai, isto é, no Javé judaico. Javé é uma ‘coincidentia oppositorum’. Ele possui ambos os lados, um lado claro, positivo, e outro escuro. Por um lado, deve-se amar esse Deus, certo? Por outro, deve-se teme-lo. ”

Lúcifer para nós é o diabo, a criatura mais temida e repelida socialmente, contudo significa em latim portador da luz, que traz a luz. É justamente essa a ideia de transformação: o que traz a luz também traz a sombra e a sombra que existe pode e deve ser iluminada.

A iluminação só se faz possível quando modificamos nosso comportamento, agindo com consciência e sem medo de entrar em contato com nosso lado sombrio. Como reconhecer a ação do meu “eu ruim”? Caros amigos e amigas, a verdade nem sempre vem macia e assim, contatando essa temida sombra, a projeção toma o seu lugar nessa relação. A projeção não é um ato voluntário, é um processo dinâmico e comum à nossa psique, simplesmente trata-se de um conteúdo inconsciente transferido para um objeto ou pessoa, fazendo com que esse conteúdo pertença a tal objeto/pessoa. Simplificando, a projeção é como um espelho: o que acuso no próximo reflete o que eu sou e o que penso sobre mim e o mundo.

Os conteúdos sombrios não se esgotam, sempre que houver processos de escolhas haverá duas possíveis vivências: o que foi e o que não foi vivido. Reconhecer a sombra implica em momentos intensos de reflexão que promovem diversos questionamentos de si: os hábitos, crenças, valores, afetividade, entre outros. Somente através desse exercício, chamado processo de individuação, é que podemos finalmente construir o EU: caem-se as máscaras e as projeções lançadas ao mundo, resultando em um amadurecimento da personalidade e em um indivíduo único e inteiro.

O segredo de toda essa reflexão é claro como a luz do dia: precisamos viver o presente, de olho no futuro e esquecer o passado. Não podemos prever tudo o que nos vai acontecer, mas podemos viver aqui e agora, conectados com o nosso verdadeiro EU, nos conhecendo profundamente sem medo de acessar o que se apresenta, aliás, o medo é paralisante, não nos permite movimentar, evoluir. O autoconhecimento é uma dádiva, é saber que sempre após um dia, inevitavelmente o Sol irá raiar novamente e nada melhor do que caminhar refletindo a luz!

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“Se você manter uma atitude de não julgamento e irradiar amor para a essência de cada pessoa, você não terá que experimentar uma dança cármica ou interação com elas. Abençoe-as e deixe seguir o seu caminho, enquanto você se mantém no seu. ” Maiana Lena.

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Sobre o autor

Fernanda Mazzoli

Feliz, alegre e satisfeita com a vida e o viver. Apaixonada pelo Sol, pela Lua e as Estrelas. Amante da natureza em sua grandiosidade e indiscutivelmente pisciana. Psicóloga acupunturista em formação e com amor no coração!

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