quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Quando terceirizamos as nossas opiniões, nos tornamos colônia de pensamentos alheios

Por: João Neto Pitta

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”Penso, logo existo”; eis uma das frases mais reproduzidas e repetidas. Está na boca de qualquer jovem secundarista, desde que foi proferida por Descartes. O homem se individualiza através do pensamento, o processo sináptico de raciocínio e aprendizado faz com que sejamos únicos entre os animais e únicos entre nós mesmos, malgrado as aparências e uma certa estrutura que é compartilhada de forma hereditária.  Sem pensamento não há liberdade, nem tampouco autonomia. Há apenas o reflexo de outras deliberações, do que nos é passado geneticamente e culturalmente. Somos, assim, frutos dessa bilateralidade, a qual não escolhemos; porém, por mais ínfima que seja, também temos a liberdade e, sobretudo, de pensamento com o qual podemos questionar – a qualquer momento – o que nos é passado e ensinado.

Pensar é uma atitude solitária, assim como ler, dois verbos inalienáveis. O que nos faz questionar: em um mundo líquido de multidões e efemeridades  em que momentos paramos para de fato pensar sobre o mundo que nos cerca? Ou mesmo ler um livro? Nas pesquisam constam médias baixíssimas de leituras entre nós brasileiros, caracterizando, dessa forma, a nossa miséria intelectual. A multidão está sempre em nosso bolso, alimentada por redes wi-fi, esperando um toque na tela do celular e uma conversa vazia que precede a angústia em estar sozinho e mascara nosso medos. Como consequência, corrompemos o nosso momento de pensar.

Em um mundo que parece cada vez mais fugir de nossos olhos, em que as notícias e informações nos afundam em um dilúvio de frivolidades, selecionar o que ouvir e no que acreditar está ficando cada vez mais difícil. Ao passo em que a crise e o mal-estar faz com queiramos buscar rapidamente respostas, conquanto, o que nos aparece como fonte de conhecimento, em um curto prazo,  não contém um conteúdo profundamente suficiente para entendermos o que nos cerca, apenas respostas curtas que compramos em uma promoção de respostas fáceis.

O jovem médio, hoje em dia, não lê Aristóteles, Marx ou Foucault para entender a política, pelo contrário, a leitura não combina com o mundo líquido, sobretudo leituras que exigem maior esforço, como as dos autores supramencionados.  O mundo líquido, para sobreviver, precisa de algo que seja curto e raso para que todos possam acompanhar. Se reforçar nossos preconceitos e medos, melhor ainda.  Por isso, o Youtube, cresce exponencialmente a cada dia que passa, não só como plataforma de lazer, mas como plataforma de informação.

O Youtube se encaixa perfeitamente na metáfora da liquidez, é constituído por qualquer um (o que amplia o número de idiotas); composto por uma maré de informações: boa parte delas carrega um conteúdo desonesto e amplifica a massificação da opinião, colonizando mentes que terceirizaram o pensamento.  A lógica do pastor e da ovelha não se reduz ao paralelo que a igreja faz, é muito mais longa e tem raízes em muitos de nossos atos. Neste ponto, Étienne de La Boétie, quando reflete sobre a servidão voluntária, acerta em cheio – procuramos, cada vez mais, alguém que pense por nós, que diga por qual caminho temos que seguir, não suportamos a condenação Sartriana chamada liberdade. Freud asseverava que: ”Quando duas pessoas pensam a mesma coisa sobre tudo, uma está pensando pelas duas”.

O ”youtuber teen” – como é conhecido o ser que constantemente faz vídeos e tem um reconhecimento acima da média – fala sobre tudo, tem uma opinião sobre todos os casos: da agricultura na África até o problema policial do Espírito Santo.  Faz vídeos todos os dias. E, seus seguidores, como ovelhas, aguardam ansiosamente os seus vídeos, para saberem a quem devem odiar no dia seguinte e a quem devem endeusar. Transformam, de forma mágica, pessoas em adjetivos: petralha, mortadela, esquerdopata, coxinha  e, desta maneira, se abstêm de ter uma real relação de busca de compreensão e entendimento de cada um.

É importante frisar que não tenho como intenção fazer uma crítica imponderada, generalizando e colocando na mesma caixa todos que fazem vídeos para o Youtube, não é nada disso! Na verdade, reconheço o bom trabalho de intelectuais que usam deste meio para se expressar e conseguem promover livros e ensinamentos essenciais para a formação do sujeito, tal como a internet em geral, o Youtube é rico e plural. Atenho-me a criticar, apenas, àqueles que se usam deste meio para disseminar ódio, intolerância e desonestidade, que entendo ser a maioria deles.

Amos Oz adverte que a literatura é a melhor maneira de aprendermos a ter empatia pelo o outro, tendo em vista que ela possibilita com que nos coloquemos no lugar de outras pessoas, tendo contato com outras formas de se imaginar  e conceber o mundo. Ser humano não é somente uma entidade biológica, é uma entidade discursiva e simbólica, que se foma na medida em que é suscitado o caráter generoso e complacente do ser. Buscar o pensamento e a reflexão é fugir das correntes, questionando o que nos é imposto e, assim, construir um sujeito capaz de avaliar as situações e as suas peculiaridades para que aja conforme o contexto e as circunstâncias que se lhe apresentem, e não com as respostas congeladas de seus gurus. Não terceirize a sua opinião, não colonize a sua mente, Pense!

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Sobre o autor

João Neto Pitta

Eu, você, ele... Tanto faz! Vamos todos morrer um dia.

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