sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A alegria só mora no agora

Por: Juliana Santin

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O diálogo começou assim: “mãe, não vejo a hora que chegue amanhã”. O motivo dessa frase de meu filho era a chegada dos gatos, que viriam para a nossa casa no dia seguinte. O motivo era mesmo nobre para uma criança que ama animais, como ele, mas mesmo assim, minha resposta foi imediata: “filho, nunca torça para o tempo passar mais rápido”.

Disse a ele que se existe alguma coisa que não volta jamais, nunca mesmo, é o tempo. O tempo que passou, é passado para sempre. Disse que estamos em uma contagem regressiva, caminhando em direção ao dia em que deixaremos de existir. Parece trágica, pessimista e um tanto quanto fatalista essa visão, mas ela é, a meu ver, a única que devemos sempre ter em mente.

Percebo que as pessoas vivem com uma ilusão de eternidade, adiando sonhos, compromissos, adiando alegrias, adiando a vida. Estão sempre torcendo para o tempo passar rápido para chegar aquele momento ali, no futuro, onde acreditam piamente que serão felizes.

Recentemente, ouvi um comentário assim: “nossa, você não dorme, só trabalha, precisa curtir a vida, que passa rápido”. Ora, que tristes são as pessoas que consideram o período do trabalho um período de não-vida! Passamos tanto tempo trabalhando que o trabalho precisa – e muito – ser vida! E nem sempre é necessário mudar radicalmente. Muitas vezes, só de estarmos presentes para o que fazemos e entendermos o propósito, o motivo de fazermos aquilo – seja o que for que façamos -, já nos sentimos alegres. Estamos produzindo algo, ajudando pessoas, curando pessoas, curando animais, servindo alimentos, limpando ambientes, vendendo produtos, etc… cada um com sua importância, cada um imprescindível à sua maneira.

Isso me lembrou as palavras do professor, Clóvis de Barros Filho, em que ele usa o termo “suicídio em conta-gotas”.

É muito comum no cotidiano das pessoas que elas assumam sem nenhum pudor estarem esperando que aquele momento passe logo. Assim, é comum que esperemos que a semana acabe logo. Tanto é que chamamos de’ happy hour’ o momento que a semana acaba. E a ‘hora feliz’, no mundo inteiro, é a hora que a semana acaba. Como a vida estava na semana, a hora feliz é a hora que a vida acaba. Assim, você passa o mês esperando o quinto dia útil, você passa o ano esperando as férias, você passa quinquênios esperando a licença prêmio, você passa décadas esperando a aposentadoria, sem perceber que cada segundo que você torce para passar logo está torcendo para a vida passar logo, porque a vida está no segundo que você quer que acabe”.

Portanto, não vejo nenhuma diferença do suicida, senão pela covardia. O suicida já não suporta mesmo e acaba com tudo. Você, covarde, não acaba, mas torce para acabar logo. Suicida em conta-gotas. Homem triste, que espera a semana para comemorar happy hour na sexta-feira, às 18 horas, para esquecer a semana que você empurrou com a barriga e viveu mediocremente”.

Também me lembrei do famoso texto atribuído a Rubem Alves, em que ele compara sua velhice, o momento em que percebe que terá menos anos para viver do que já viveu, com a criança que recebe uma bacia com jabuticabas e, as primeiras, come displicentemente, mas ao perceber que está acabando, começa a degustar mais cada uma, roendo até o caroço para não acabar logo. Acontece que o Rubem Alves teve a sorte de envelhecer. Sim, a sorte – só não envelhece quem morre antes.

O que me dei conta é de que recebemos essa bacia de jabuticabas, mas não conseguimos ver quantas frutas existem nela. Não temos acesso a essa informação. Assim, pode ser que tenham ainda muitas, milhares, mas pode ser que tenha somente uma – esse momento presente que vivemos agora. Pode ser que amanhã não exista mais para nós. Aquela era a última jabuticaba da bacia.

Agora, quantas não são as pessoas que chupam jabuticabas sem nem prestar atenção, torcendo para acabar logo aquelas cinco chamadas “dias da semana” para finalmente chegar naquelas duas chamadas “final de semana”. Enfiam na boca e nem se dão conta disso. Não saboreiam, não valorizam. Acreditam piamente que a bacia está cheia, que podem se dar ao luxo de consumir as frutas dessa maneira. No entanto, a verdade é que não sabemos! Então, devemos sempre, sempre, sempre, apreciar cada uma das jabuticabas, devagar, com prazer, roendo até o caroço, apreciá-las como se fossem, mesmo, a última.

E quando colocamos nossa mão na bacia e encontramos outra, sentimo-nos muito gratos! Fomos presenteados com mais uma chance de saborear a jabuticaba. É como quando encontramos um último Doritos no pacote ou quando encontramos dinheiro na carteira que nem sabíamos que tinha e ele permite comprar aquele sorvete em um dia quente. É uma alegria, um presente! Assim como são os minutos de nossa vida.

Às vezes, achamos ainda que podemos nos dar ao luxo de separar jabuticabas para comer depois. Encontramos uma linda jabuticaba, aquela que sempre sonhamos encontrar, mas ficamos com medo – medo de não ser o que esperávamos, medo de morder e ela estar podre por dentro, medo de derrubá-la e perdê-la antes de conseguir comer, medo de gostar tanto dela e sentir sua falta quando ela acabar. Deixamos, então, na nossa ilusão de eternidade, a fruta para depois, para quando estivermos prontos. E pode ser que quando você decidir finalmente ter coragem, a bacia esteja vazia. Acabou-se.

Então, apreciemos todos cada uma das nossas jabuticabas, devagar, sem ansiedade, com prazer. Mesmo aquelas mais amargas que são difíceis de engolir – sim, elas existem, às toneladas. Elas servem para que aprendamos a resistir, a apreciar as mais doces, a selecionar melhor a forma de comê-las. Servem para nos tornar mais resistentes, para que possamos aprender, crescer. Elas são inevitáveis; temos que engoli-las, custe o que custar, para dar espaço para as doces jabuticabas que chegarão depois. Elas não deixam de ser mais uma gota de vida.

Por fim, veio à minha cabeça uma frase de uma música que diz: “Cada vez que alguém me olha com atenção dá vontade de gritar que o tempo está na contramão e é preciso de algum jeito se apressar”. Temos que nos apressar, mas não em comer rápido as jabuticabas, mas em começar a apreciá-las como gotas de vida que recebemos de presente a cada minuto.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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