sábado, 18 de fevereiro de 2017

A linguagem universal da sexualidade humana

Por: Alberto Silva

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A sexualidade humana vem sendo objeto de questão para especialistas das mais diversas áreas com o decorrer do processo histórico. Dos idos da “era do fogo” o sexo vem se estabelecendo não só como uma forma de manutenção da ordem social por meio da reprodução dos indivíduos, fato que alguns atribuem como inerente ao ciclo vital, mas também como um canal de obtenção de prazer, portal de denúncia e caminho para o estabelecimento de comunicações as mais diversas na esfera pública. Sim, o simples ato sexual pode conter conotações tanto biológicas quanto políticas. O controle dos corpos, uma pauta muito recorrente na agenda de vertentes mais extremadas do espectro político é um claro exemplo da maneira pela qual as práticas afetivas desenvolvidas no interior de espaços privados podem ser entendidas como maneiras de desestabilização dos aparatos de repressão instituídos culturalmente.

Ao construir o argumento que sustenta a sua teoria deliberacionista, cânone do pensamento que se contrapõe ao republicanismo e ao liberalismo como maneiras de constituir a democracia, Habermas fala de dois fenômenos intrigantes da modernidade e que se dão de maneira intrincada: a “privatização do público” e a “publicização do privado”. A respeito do primeiro, podemos pensar no fato de que os espaços públicos, locais pour l`excellence do dialógo democrático e do encaminhamento de demandas, deixa de ser visto a partir do ponto de vista da coletividade e passa a ser colonizado pelo que Mancur Olson chama no clássico “A lógica da ação coletiva” de grupos de interesse. No que diz respeito ao segundo, podemos pensar na maneira como assuntos antes fincados ao ambiente dos lares tradicionais passam a ser questão de debate entre os sujeitos coletivos.

E aqui vem à tona o slogan da segunda onda feminista, “O pessoal é o político”, que rompe com a ideia de que elementos como a violência doméstica, antes naturalizada, ou mesmo o sexo, um elemento antes sacralizado e que permaneceu como tabu de longa data, sejam fatores que não estejam aptos para a temida deliberação nas arenas das sociedades complexas. O ponto desse rompimento significou não só a problematização do sexo e da sexualidade enquanto componentes do espaço das opressões, mas também uma fetichização e reificação dos mesmos pelas instituições mercadológicas. Desde a difusão em massa em anticocepcionais, criador em massa de um nicho na indústria farmacêutica e que afirmava a positividade do liberacionismo e da permissividade; passando pela cada vez mais recorrente representação do sexo nos longas e curtas metragens, nas telenovelas, nos livros (nesse campo Marques de Sade se antecipara com seus escritos do século XVIII), nas pinturas ou mesmo nas conversas entre os jovens que se formam cotidianamente mais e mais desvinculadas de padrões proibitivos de reificação da virgindade.

Dentro dos aparelhos de mercado, a pornografia sem dúvidas é a expressão máxima do sexo enquanto suposta instituição sagrada que objetificou-se. A exposição de vídeos e a prática do chamado sexo virtual, de maior ou menor qualidade, ambos de fácil acesso na internet propõem uma espécie de democratização do prazer, mal vista por muitos (como qualquer elemento social e que encontra-se sujeito a críticas) e que produz reações seja de certas correntes do movimento de mulheres mais críticos à agressão simbólica e a coisificação da mulher na indústria pornográfica, seja de setores ultraconservadores que ainda preservam certo imaginário arcaico de condenação das práticas sexuais diversas ao imaginário sacrossanto da tríade homem-mulher-reprodução. Essa disposição de conteúdos tornou possível que uma pluralidade de fetiches, muitos assustadores, estivesse ao toque de um simples clique dos usuários da rede. Se vê desde sadomasoquismo até fantasias incestuosas, com três ou mais pessoas, de ambos os sexos ou do mesmo sexo.

Em meio à pluralidade comunicativa representada pela prática sexual, de uma coisa não há dúvidas. Ela é um elemento comum a todas as sociedades humanas. Mesmo no mundo animal, tal prática se estabelece como uma forma de vazão ou mesmo, como diria Foucault, uma maneira de exercer o poder. O poder masculino sobre o feminino. O poder da ordem heteronormativa sobre os desviantes. O poder do moralismo sobre as liberdades individuais. Em suma, o sexo pode servir sobretudo como uma arma de manter as pessoas presas às conformações histórico-institucionais. Mas também já tem servido como uma válvula de escape ou como diriam alguns, mais pessimistas, como um exponencializador da promiscuidade. Há quem diga que o sexo é algo eminentemente descompromissado, apenas uma forma de obter prazer, de curar as dores, de gerar novas experimentações. A universalidade do sexo pressupõe essas suspeitas maravilhas também. No entanto, lá no fundo a grande “verdade” é que a sua concretização materializa aquilo que há de mais íntimo e inconsciente no interior das nossas subjetividades.

Referências bibliográficas

EM NOME DE DEUS. Direção: Peter Mullan. Ano de produção: 2002. Ano de estreia (Brasil): 2004. Duração: 114 minutos. Gênero: Drama. Nacionalidade: Irlanda, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

FOUCAULT, Michel, 1926 – 1984. Microfísica do poder; organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. – 4.ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

HABERMAS, Jürgen. Theorie des Kommunikativen Handels. Band I. Handlungsrationalität und geselchaftliche Rationalisierung. Frankfut am Main: Suhrkamp, 1981.

OLSON, Mancur. A Lógica da Ação Coletiva: Os Benefícios Públicos e uma Teoria dos Grupos Sociais/Mancur Olson; tradução Fábio Fernandez. – 1.ed. 2. reimp. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015. – (Clássicos;16)

SADE, Marquis de, 1740 – 1814. O corno de si mesmo e outras historietas/Marquês de Sade; tradução e notas de Paulo Hecker Filho. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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