sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Tensões entre o Zoon Politikon e o Lobo do Homem

Por: Laís Sales

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Para Freud, sofremos por três principais  motivos: a superioridade da natureza, a fragilidade dos corpos e os relacionamentos humanos. A felicidade adviria de seguir o programa do princípio do prazer que rege a cada um. No entanto, a vida em sociedade prioriza o coletivo à força bruta. Dessa forma, a moral e a religião impõem o caminho que devemos seguir e isto nos faz sofrer, mas por outro lado possibilita a vida em sociedade.

A questão é que com as novas e sempre atuantes modulações da serpente capital, o poder-ser vem se tornando imposição de ser o que o capital, a moral e/ou a religião impõem. Segundo Aristóteles, o homem é um animal político, “zoon politikon”, portanto, necessita da vida em sociedade. Do mesmo modo, Gagnebin vai colocar que somos constituídos por meio da linguagem e no social, construindo a sociedade também desta maneira.

Entretanto, as práticas ao deus capital que criamos, vem desvinculando a linguagem de quem podemos ser, isto é, vem desterritorializando o caminho que podemos fazer, desvinculando-nos da arte de narrar nossas próprias vidas, retirando-nos do campo da experiência para uma vida prescrita, informada pelo grande Outro.

Algo que contribui bastante a esta discussão é o que Heidegger discute em “Serenidade”, texto no qual aduz sobre o perigo de um dia cairmos na admissão de que somente o pensamento calculista, amplificado pela técnica, seja aceito. Atualmente, temos tomado o caminho mais rápido e econômico para adquirir conhecimento, contudo, na mesma velocidade em que este chega, se vai. Assim, ameaçamo-nos com a perda do enraizamento e da capacidade de refletir.

A ciência se coloca como caminho para a felicidade e adquirir seus produtos hiper evoluídos é ser feliz. Tornamo-nos também produtos de um sistema que vende modos de ser que se apresentam sempre em constante evolução pela Matrix, afinal não podemos ficar para “trás”. Nessa engrenagem, a natureza “ocupou” o posto de abastecimento para energia da técnica e da indústria, seguindo o pensamento de que dominá-la suprimiria um dos sofrimentos apontados por Freud. Mas, a verdade é que o homem está entregue de forma indefesa à técnica, como coloca Heidegger, negando a capacidade de refletir, característica imprescindível ao homem e o seu real desenvolvimento.

No caminho da reflexão, deparamo-nos com Walter Benjamin, que nos diz que a arte de narrar está atrelada ao presente, à capacidade de nos vermos como históricos e podermos desprender-nos da história linear para uma reinvenção.  A perda desta capacidade nos impede de criar uma memória social e pessoal, tornando-nos “a-históricos”, como Mattar e Rodrigues descrevem no texto que propõe diálogos entre Kiekergaard e Foucault, apontando a prática do cuidado de si como meio de inventar-se.

Porém, tratamos aqui de uma micropolítica, da possibilidade de tecer e destecer a vida individual para mudar as redes e os nós no campo social e pessoal a partir do refletir, bem como, recuperar a capacidade de lutar contra os pesadelos míticos que nos aprisionam. Recuperar o nível da experiência como Foucault colocou, de pensar a partir de“qualquer coisa da qual saiamos transformados”, promovendo uma relação artesanal entre nós e a vida, sabendo que a felicidade não será um território estável e eterno, mas que é feita de momentos e que cabe a cada homem encontrar sua salvação, como Freud postula.

Todavia, isto não impede a vida social, pois a civilização nasceu de Ananke (necessidade) e de Eros (amor) e é nutrida pelos mesmos. Viver a era da técnica e cultivar a arte de si, de refletir, é alcançar o nível de serenidade que Heidegger nos apresenta, podendo dizer sim ao uso da tecnologia e não à absorção de quem somos feita por ela. Somos dessa forma, o “zoon politikon” e ao mesmo tempo, “o lobo do homem”, aberto ao mistério e a serenidade na possibilidade da construção de novos territórios.

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Sobre o autor

Laís Sales

"Apenas uma gota no oceano da vida"

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