quinta-feira, 2 de março de 2017

A estetização da estética

Por: Alberto Silva

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A apreensão do objeto artístico por parte do espectador é essencialmente um processo de mediação entre múltiplas esferas do social. Tal fenômeno de alcance, inicialmente, se dava pelas próprias linguagens e significâncias inseridas na obra de arte. Com o avanço do pós-modernismo no campo cultural, ou da realidade artística que tem início com a exponencialização do fordismo e posteriormente com a flexibilização capitalista neoliberal por assim dizer, o material ao qual caberia o papel de ser meramente observado sofre uma mudança de conotação. Primeiramente, perde o seu teor emancipatório, tão apregoado pelos homens de letras no século XVIII, e passa a expressar formas de racionalidade instrumental, próprias da mecanização e da complexidade que vem adquirindo os modos de organização contemporâneos; e em segundo lugar, ganha uma autonomização que lhe retira quaisquer significados próprios, dando abertura para as mais livres interpretações.

A art pour l’art, como a intitulam os sociólogos João Valente Aguiar e Nádia Bastos, é o lema da produção cultural em nossos dias. Diz respeito fundamentalmente à tentativa do mundo artístico de se desprender do mundo político, econômico e social. Passos nesse sentido começaram a ser dados com as rupturas independentistas do início do século XX em relação ao academicismo vigente nas escolas europeias de belas artes. Pode-se falar de superações da l`antique art, também nesse nível das vanguardas, já com os realismos do final do século XIX. No entanto, vale lembrar que mesmo com a proliferação de manifestos e formas de fazer cultura plurais e diversificadas nesse período, não há como se afirmar com precisão que o produto artístico se autonomizou completamente. Os homens e mulheres vanguardistas eram sobretudos produtores de um modo de fazer arte que não deixava em segundo plano a crítica às condições históricas vigentes. Eis ai a arte moderna, anterior àquela que se desprenderia totalmente de um compromisso fundamental com o meio no qual estava sendo produzida. O pós modernismo é sobretudo o momento no qual:

“A arte atinge, então, no campo artístico, um estatuto similar ao da mercadoria no campo econômico. Autorreferente, sujeito e objeto de si própria, quanto mais a arte contemporânea se autonomiza como objeto artístico – portanto, despida de objetivos não estéticos –, mais ela é aplicável como mercadoria de primeira ou segunda ordem no mercado, precisamente porque se torna, no campo artístico, o equivalente das/às trocas estéticas, ou seja, uma mercadoria estética.” (AGUIAR e BASTOS, 2013, p.195).

Também com a dissolução das formas totalizantes no diálogo cultural travado nos principais centros de produção artística, a própria estética antes baseada em um constructo imagético que tinha como um dos seus pilares a exposição de um conceito de “beleza” dito e aceito socialmente, passa a se fundamentar numa noção de apreensão radical da arte. O que cabe ao espectador das obras na pós-modernidade não é a constituição de uma visão rumo ao encantamento nem o deciframento de códigos que supostamente estariam por detrás do que foi produzido, mas sim o exercício de processos de subjetivação instantâneos que recapturariam a peça artística ao seu próprio modo. Desse modus operandi marcado pela individualização das experiências estéticas se aproveita a indústria cultural que difunde em larga escala produções artísticas em um nicho específico de mercado no qual a arte é arrematada em leilões milionários frequentados pelos estratos dominantes da sociedade. O que antes elevava o cultivo da razão e da sensibilidade torna-se mercadoria fetichizada. Transforma-se em um dos motores da presente economia financerizada. Em suma, nessa nova realidade:

“(…) avançamos com a proposta de que a ênfase do papel da imagem no quadro da realidade cultural pós-modernista fundamenta que a substância da imagem no pós-modernismo seja construída numa lógica de espartilhamento. Quer dizer, a imagem, contrariamente às concepções positivistas mais arraigadas, não é transparente e não vale em si e por si mesma. De fato, ela nunca é unívoca e linear e sua produção e recepção implicam processos de filtragem tanto da sua “arquitetura” interna como das mensagens que transmite” (AGUIAR, 2010, p.185)

Os elementos retratados no corpus simbólico das obras passam não apenas por um processo de descomodificação mas também de despersonalização. A arte então se multiplica. Não é necessário mais que alguém diga quais os seus cânones, os seus modos de fazer. A libertação do artista, seja ele do campo da pintura, da arquitetura, da escrita, do cinema, etc., é o retrato também de uma sociedade que se modifica. Não apenas de modo negativo, com o avanço inegável do modo de produção capitalista por todo o planeta, mas similarmente de modo positivo com a multiplicação de afetos, comportamentos e estilos de vida que não cabem mais em enquadramentos previamente definidos e em narrativas que desejam abarcar toda a realidade material. A arte dos antigos se desconstrói e temos agora uma arte dos modernos. Não que tenha abandonado de todo algum tipo de conexão com a realidade emergente, mas estabelece-la deixou de ser a sua função primordial. Se há algum compromisso este é com a própria retroalimentação do fazer artístico.

“A arte é, portanto, em determinadas expressões mais significativas dos últimos decênios, um conceito, uma máquina produtora de conceitos e de imagens sobre si. É uma metáfora sobre a própria arte. Pois se o mundo é desmaterializável na obra de arte, se tudo pode ser arte, a arte é a metáfora da metáfora, independentemente do tema mais visual que uma obra possa abordar.” (AGUIAR e BASTOS, 2013, p. 200)

A crítica conservadora no campo cultural tem sido resolutiva ao afirmar que os fenômenos aos quais se submeteram as produções artísticas dissolveram não só as possibilidades estéticas do “belo” nas obras de arte, como também fizeram com que o campo cultural se tornasse cada vez mais elitizado. Tendo a concordar parcialmente com essa afirmação nitidamente reacionária de exaltação da arte do passado. Talvez a produção artística da contemporaneidade, rica em possibilidades, na verdade tenha se fechado bem mais do que a dos pré-modernos* e seus regramentos acadêmicos. Para o homem comum passou a ser tolice a apreciação estética de objetos que muitas vezes trazem experimentalismos subjetivistas que nada lhe dizem respeito.

No passado, creio eu, a arte já chegou a cumprir uma função muito mais democrática. Basta lembrar dos mosaicos da Idade Média encomendados pelos imperadores para que os populares se encantassem ou mesmo das pinturas muito difundidas no século XIX e que ajudaram, por meio de sua difusão entre as massas, para a construção de narrativas heroicas que ajudaram a firmar a solidez de uma diversidade de Estados-nação**. Hoje restou a grande indústria do entretenimento, com seus próprios códigos de vinculação. Não se pode negar que mesmo com todo o seu efeito de alienação, tal campo da cultura pode ser lido partindo-se de uma perspectiva relativista. Foi ela que restou como possibilidade sensorial àqueles que foram postos de fora da ala artístico-cultural tida como legítima ainda hoje, em um mundo no qual mesmo os conceitos de “certo” e “errado” já evaporaram pelos ares.

*Refere-se aos artistas que ainda seguiam os liames do neoclassicismo e do romantismo
**Há de se relativizar essa afirmação. O que é feito nesse ponto do texto não é a reificação do panis et circense, mas pura e simplesmente a exposição da ideia de que outrora alguns símbolos “culturais” (da “boa cultura” referendada pelos meios ilustrados) eram compartilhados tantos pelos segmentos dominantes quanto pelos segmentos dominados. Desde os anos 60, a arte de rua vem caminhando no sentido de estabelecer novamente essa comunicação arte-povo e, diga-se de passagem, de modo não alienante.

Referências bibliográficas:

ADORNO, Theodor W., 1903 – 1969. Indústria cultural e sociedade/Theodor W. Adorno; seleção de textos Jorge Mattos Brito de Almeida; traduzido por Julia Elisabeth Levy… [et al.]. – 10ª ed. – São Paulo: Paz e Terra, 2016.

AGUIAR, João Valente. A imagem da cultura no pós modernismo. Tempo social, Revista de Sociologia da USP, v.22, n.1, 2010 – pp.179 – 198.

AGUIAR, João Valente; BASTOS, Nádia. Arte como conceito e como imagem. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, v.25, n.2, 2013 – pp.181 – 203.

MATTA, Roberto da. Você tem cultura?. Jornal da Embratel, RJ, 1981.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Cientista político, graduado pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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