sexta-feira, 3 de março de 2017

Sobre conversas que nos despertam

Por: Guilherme Lima

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Geralmente conversas explanam de diversas maneiras aquilo que pensamos, sentimos, vivemos. É a forma pela qual expressamos tudo aquilo que advém do modo como enxergamos as inúmeras facetas de determinado assunto, ideia, sentimento e afins, ou resumindo sintaticamente a questão: ela revela, desde que seja sincera e verdadeira, aquilo que em boa parte de nossa existência prezamos e temos como certo ou errado. Mais do que ferramenta de comunicação ou expressão, conversas tendem a estimular a produção no trabalho, nas artes e tantos outros mecanismos de interação social que acabam por definir a construção de nossa identidade enquanto seres pertencentes a certa coletividade. Em Suma, conversas e o ato de conversar definem em boa parte aquilo que viemos a ter e ser no bojo do conceito de humanidade.

Conversar expondo de forma clara e precisa aquilo que se está passando por sua mente é por vezes extremamente difícil para uma pessoa. Envolve tantas questões acerca de si mesmo, o que está trancafiado em nosso interior, expondo aos olhos do externo (seja uma pessoa a quem confiamos, um grande público em uma palestra ou um discurso) um bom pedaço daquilo que nos molda enquanto seres pensantes. Conversas demonstram, portanto, aspectos do que somos, fomos e uma indicação do que poderemos vir a ser em algum ponto de um futuro, sendo este do pretérito perfeito ou na maioria dos casos, imperfeito.

Desta forma, o modo em que estas conversas discorrem são outro fator que farão elas acarretarem um efeito sobre nossas percepções, ânimos, pontos de vista, sentimentos, gerando algumas certezas ou nos enveredando pela constância do eterno aumento de questionamentos. Conversas daquelas longas e demoradas, em que não percebemos que o tempo acabou passando simplesmente porque estamos de tal maneira absorto no que o outro está nos falando e ouvindo o que queremos dizer. São elas as geradoras de luzes sobre angustias, temores, sonhos, desejos. A conversa, por fim, se torna um canal por onde corre o rio de correnteza carregada ao embalo das necessidades humanas, desembocando em falas acerca de tudo e do nada, de amores perdidos sublimes aos rancores eternamente amargos.

Existem momentos fugazes pelos quais estas conversas inspiram a novos pensamentos, outros olhares sobre si e o redor, um clique para mudança de tempo e espaço e despertar para novos meios de encarar os próprios pensamentos, sentimentos acerca do nosso “eu” e sua relação com o mundo lá fora. São nos relatos inéditos e surpreendentes que nos deparamos com inesperadas verdades que se revelam graças ao estabelecimento de confiança através das trocas de intimidades e outros medos relacionados ao julgamento, que a maioria daria ao que está sendo exposto. A figura de um indivíduo, também preocupado com a sentença de uma maioria estabelecida pelo senso comum preconceituoso e tacanho, dá o conforto e segurança para dizer e ser o que realmente se é.

Porém, estamos indo cada vez mais ao caminho inverso deste tipo de conversas que abrandam as agonias incrustadas no peito. Estamos vivendo tempos onde tudo é rápido, rasteiro e do agora, em que tudo parece não durar, se desfazendo cada vez mais nas monossílabas que pouco dizem ou nada explicam; no determinismo das redes (anti)sociais de meros expressivos 140 caracteres, carregando mais um individualismo do desabafo, que embora pareça se dirigir a todos, acaba indo aos caminhos da surdina de ninguém. Na prática somos a geração em que a “timeline” da rede social é nosso espelho de narciso: falamos o que queremos para nós mesmos, não damos ouvidos a ninguém, e assim concluímos esta falha teoria de comunicação, onde o mundo não nos dá ouvidos ou mera pelota de importância, mas passa essa falsa impressão massageadora de egos.

Mas existem, ainda que raras, as conversas de alívio. Trocas de experiência, conhecimento, bons humores em que os seres mutuamente crescem e têm assim novos descobrimentos e saberes, gerando a gama de sentimentos nunca antes percebidos, ou que há um tempo haviam adormecidos pela falta de quem poderia não lhe dar voz, mas sobretudo, ouvidos dispostos a escutar uma História que pode ser tanto do aqui agora, como dos tempos passados vindouros ou de incertezas futurísticas. Nesta comunicação geralmente se faz necessário não apenas ter o que falar ou conteúdo a que discursar, mas sim estar atento e dar vazão a fala alheia. Neste esquema, é saber ser tão bom ouvinte quanto um perfeito narrador de casos e acasos.

A busca na verdade por estas conversas “iluminadas” é ao fim de tudo, o aconchego e suporte que nos dão. É perceber que não se está sozinho nesta situação de ser o incongruente em meio aos ditames de um modelo perfeito aos quais devemos nos encaixar. As singularidades dos nossos problemas nos tornam diferentes, contudo ter ciência de que outros passam pela mesma situação faz com que as coisas se tornem mais fluidas e compreensíveis. Expor e trocar a própria história de problemas ou desconfortos que nos tornam diferentes só ressaltam o quanto temos nossos pares e que não estamos isolados na moribunda normalidade.

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Guilherme Lima

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