sexta-feira, 10 de março de 2017

Escravos Modernos

Por: Rafael Magalhães

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“Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber”

Zé Ramalho – Admirável Gado Novo canta o que vivemos.

 

Com a crise econômica, o mundo do trabalho vem se tornando cada vez mais hostil, exigindo do empregado (não necessariamente CLT) que ele se debruce sobre suas atividades, que dê seu melhor, gaste o máximo de suas energias, que assuma mais algumas funções, que esteja feliz por estar empregado e que simplesmente viva pela  empresa. Além da exploração destas, devido à situação vivenciada não só no Brasil, mas no mundo, o trabalhador vê cada vez mais seus direitos serem reduzidos e suas condições de trabalho se tornarem mínimas.

Ao envolver globalização e exploração da mão de obra, cria-se o termo “Hands on” que seria equivalente à “mãos à obra” no português. Esse termo nasce para mostrar que o trabalhador e a equipe são “Hands on”, pessoas que possuem proatividade e estão disponíveis para aprender novas tarefas, formas de fazer, de agir e de enfrentar desafios. Uma forma de explorar a situação do mundo, porém com um nome americanizado. Atualmente o Brasil enfrenta uma forte crise econômica, política e social, sem grandes perspectivas para uma possível melhora. O mercado está supersaturado de profissionais, qualificados ou não, que lutam diariamente por uma vaga, aceitando receber até a metade do que eram acostumados, em situação que sequer considerariam antes. Mas ao olhar de uma forma crítica, as pessoas empregadas não estão felizes como “deveriam” estar.

Além da estabilidade não ser garantida, os funcionários sofrem com pressão para agirem com rapidez e qualidade, sendo sobrecarregados por enormes quantidades de atividades e funções, já que seus colegas foram demitidos e apenas ele(a) compõe a “equipe”. A empresa busca cortar custos o máximo possível, reduzindo o quadro de funcionários, salários, benefícios e outros gastam que sejam, legalmente (ou não), possíveis de serem interrompidos. Sendo assim cria-se o “Funcionário Polvo”, aquele que em seu horário de trabalho normal tem que realizar suas atividades e a de mais 2 ou 3 pessoas, sem perder o prazo, sem errar, sem gastar mais que o necessário. No tempo que não estiver fazendo horas-extras, leva o trabalho para casa, esperando que consiga terminar tudo antes do outro dia, afinal ele é um funcionário especial, um dos poucos que não foi demitido. Precisa mostrar o seu “valor”.

Essa relação de trabalho demonstra-se totalmente precária e doentia, sem oferecer um ambiente propício para o funcionário exercer suas atividades, e cobrando do mesmo, um rendimento sobre-humano. Essa situação além de não desenvolver o empregado, cria situações de estresse que segundo Seligmann-Silva (p.190, 2010):

“[geram] a manifestação de sintomas inespecíficos, como cefaleia, insônia, e irritabilidade nos trabalhadores, decorrente das duras condições do ambiente e da organização do trabalho. […] o alcoolismo e o uso de drogas não é uma questão tão somente individual, mas pode decorrer de mudanças no mundo do trabalho que não contemplem o desenvolvimento e a emancipação do sujeito.”

No Brasil, não existem quantidade de estudos suficientes para se verificar a relação do adoecimento mental e o mundo do trabalho atual, sendo escasso o material para análise. Porém torna-se evidente a relação do adoecimento (mental e corpóreo) ligado ao abuso sofrido pelas situações de trabalho. Tendo este que se submeter a condições precárias em prol de um salário diminuto, e pressão por todos lados, influenciando tanto em sua vida pessoal, acadêmica e profissional.

E onde fica o “Recursos Humanos (RH)” nisso tudo? A área que deveria ser voltada para “proteger” e “ajudar” o funcionário, passa a ser submetida aos cortes de custos, sendo considerados como desnecessários os investimentos em: treinamentos e desenvolvimento, lembrancinhas para as datas especiais e quaisquer evento que seja necessário gastar dinheiro em prol do “colaborador”. O principal capital da empresa, não é o dinheiro, nem o seu produto, mas as pessoas que investem de forma indireta e direta naquela organização, e estes são os primeiros a serem descartados.

O RH, incapacitado, esquece que humanos sofrem, seja de forma mental ou física, pelo que passam (crise) e deixam de dar qualquer tipo de apoio a estes funcionários, que vivem momentos de grande apreensão e focam sua energia em escolher o funcionário que menos se adequou ao novo modo de exploração, para lhe dizer “Você está desmotivado, sem energia, parece não estar dando o seu melhor… Não é esse o perfil que a empresa busca.”.

Mas é claro, ele “ainda” não se adequou a ser um morto-vivo.  Ele ainda tem uma vida fora dali.

 

E você, quantas vezes é obrigado a sorrir por cada chibatada?

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Sobre o autor

Rafael Magalhães

Jovem, estudante de Psicologia, possível Existencialista, estudante da Morte, em crise com a vida, com sonhos. Fotógrafo de hobby e escritor de poesia no tempo livre.

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