domingo, 12 de março de 2017

O Pecado Karnal

Por: Erick Morais

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Recentemente, o historiador e filósofo Leandro Karnal, a figura mais “pop” do pensamento brasileiro atual, causou “alvoroço” na internet ao postar uma foto com dois juízes, entre eles, o juiz Sérgio Moro. Comentários de todos os tipos passaram a circular na rede, o que nos leva a pensar no porquê de toda essa ebulição.

Entre os principais comentários, estava o de que Karnal havia passado para o “lado negro da força”, já que estava em companhia de Moro. Obviamente, há o direito de o indivíduo não pertencer ao fã-clube que se formou no Brasil para o juiz, como também possuir críticas ao comportamento do magistrado. Entretanto, isso não significa que todos devam pensar da mesma forma, inclusive, Leandro Karnal, o qual mesmo discordando de alguns pontos na conduta de Moro, pode ter um encontro civilizado e dispor de uma boa conversa. A pluralidade discursiva é inerente à democracia, de tal modo que ao desconsiderar isso, há a quebra da própria estrutura democrática e o estabelecimento de uma ditadura, em que uma única forma de enxergar o mundo é permitida.

Outro ponto levantado é que o historiador estava apenas chamando os holofotes para si com isso, uma vez que sabia que haveria uma grande repercussão, levantando a ideia de que é apenas um aproveitador midiático, um “sofista”, entre outras coisas. Bom, não há como “bater o martelo”, afinal não somos juízes, com o perdão do trocadilho. Todavia, não podemos desconsiderar que ele, como um sujeito inteligente, possa usar artifícios a favor da sua imagem, até porque não é todo dia que um pensador ganha tanta notoriedade, sobretudo, em tempos de “youtubers”.

O que pode ser afirmado, diante disso, é que quando há o esvaziamento do pensamento crítico e, consequentemente, da democracia, há também o soerguimento de indivíduos eloquentes e teoricamente bem-intencionados, como salvadores da pátria e ídolos. Esse é o caso de Leandro Karnal, assim como é o de Sérgio Moro.

Não há como determinar categoricamente o que ele pretendia com a divulgação da foto e com o jantar, e acho que isso é secundário, pois o que mais me chamou atenção, e por isso é algo elementar, foi o tumulto gerado em demasia. Todos possuem o direito de emitir a sua opinião, mas isso não significa que ela deva ser imposta a todos, como já disse, o que significa que Karnal pode estabelecer os canais comunicativos que quiser e achar interessante; bem como, não é um motivo para deixar de admirá-lo enquanto um sujeito culto (e não como um “guru”).

Desse modo, percebo que na medida em que as pessoas seguem outros sujeitos como se estes fossem os detentores da verdade universal e absoluta, elas passam a ser reprodutoras de conhecimento e não produtoras críticas e reflexivas do seu próprio conhecimento, o qual pode ter a influência do historiador, de Moro, ou de quem quer seja, mas não deve ser uma cópia idêntica do original. Criar ídolos é sempre perigoso, pois isso em geral enfraquece a razão, bloqueando o entendimento em perspectiva do mundo e reduzindo o pensamento a “analisar” tão somente o comportamento do ídolo, como se estivesse em um programa de fofoca.

O crescimento na notoriedade de alguns pensadores contemporâneos, como o próprio Karnal, a meu ver, é algo extremamente positivo, já que nem só de piadinhas vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de deus. Entretanto, “deus”, neste caso, deve ser o próprio pensamento, construído criticamente e individualmente por mais que haja influências de outras pessoas, como a de um historiador brasileiro.

Sendo assim, o problema não está em “seguir” o Karnal e escutar o que ele tem a dizer, posto que ele tem contribuído muito para o debate público no país, e sim, em colocá-lo em um pedestal e idolatrá-lo, pois quando fazemos isso, o nosso “deus”, a nossa “consciência” deixa de pensar e, então, passamos a “pecar”, ou diria melhor, a cometer um “Pecado Karnal”.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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