segunda-feira, 13 de março de 2017

Yorgos Lanthimos e a padronização da vida no cinema

Por: Alberto Silva

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O filme The Lobster, dirigido por Yorgos Lanthimos, lançado no ano de 2015 e recentemente indicado ao Oscar na categoria “roteiro original” nos concede uma série de experimentalismos imaginativos e um conjunto de analogias sutis que servem como comparação paródica com a atual sociedade dos enquadramentos. O personagem central do longa-metragem vive em um mundo distópico e doentio, onde os padrões, resultantes essenciais dos discursos, são afirmativos de um modelo no qual estar sozinho é algo condenável. Mandado para um hotel onde tem o tempo de quarenta e cinco dias para que consiga uma parceira, David, interpretado por Colin Farrell, passa por uma série de percalços e desvencilhanças para evitar a sua transformação final em animal, castigo para aqueles que não fazem funcionar de maneira bem sucedida o instinto da sedução. Com antecedência e prevendo de maneira pessimística o resultado da empreitada da hospedagem (e também por obrigação), David escolhe que gostaria de ser uma lagosta caso dê tudo errado na expressão do seu sex appeal perante as moças que também passam valiosos dias enclausuradas na “colônia dos solteiros”.

Logo ao chegar no famigerado hotel para onde são mandados os incapazes de possuir um relacionamento amoroso na sociedade, David tem a opção de escolher entre as categorias homossexual e heterossexual. A rigidez dos esquadrinhamentos é tão forte que sequer a bissexualidade ou mesmo a assexualidade são possibilidades a serem cogitadas. É com base na seleção de uma das categorias que a sua estadia será passo a passo moldada, a fim de que não só ocorra o seu estimulamento sexual com mulheres (todos os dias uma empregada tratava de deixá-lo ereto) como também a sua conscientização da importância suprema de estar ao lado de uma companheira. Diariamente, atividades como bailes para formação de casais e encenações do quão terrível é a vida de um solteiro ou de uma solteira são feitas a fim de tornar os presentes cada vez mais amarrados mentalmente aos dispositivos de padronização. Para completar a quadra doutrinária, o casal de gerentes trata não só de ir aos quartos de cada um dos hóspedes como também de demonstrar a imensa felicidade da sua união, fruto direto das vivências conjugais.

Quando os casais são formados, o que ocorre por sorte com um amigo manco de David, há uma grande cerimônia de comemoração no hotel que faz com que todos festejem essa vitória perante os demais. Os pares são privilegiados, chegam a fazer refeições em local à parte dos infelizes soletiros. Os casais que após um tempo começam a se desentender tem direito inclusive a uma criança, que o hotel trata de fornecer para promoção da conciliação diante das famosas discussões de relacionamento. Com o passar dos dias maçantes, regados por danças e caças na floresta onde os hóspedes eliminam uns aos outros com balas de tranquilizantes, David decide escapar da prisão litorânea. O estopim é o fato de ter assassinado sua recente conquista, uma mulher paranóica e absolutamente sem sentimentos que decide entregá-lo aos gerentes. Com a ajuda da empregada do hotel, que nada mais é do que uma espiã, dessas que costumam aparecer com frequência na história dos regimes totalitários, David foge para a floresta onde se junta a um grupo alternativo de indivíduos que praticam uma espécie de “celibato”.

De um local onde o proibido era ficar solteiro, David passa para um lugar onde o proibido é ter uma companheira ou companheiro. Por onde se olha no filme, as liberdade de autodeterminação e de autopropriedade são dados inexistentes. É permitido apenas seguir os padrões, sejam eles hegemônicos ou contra hegemônicos. A pena de romper com as regras são os castigos mais crueis. No hotel, a masturbação custava a mão daquele que o fizesse, na medida em que era obrigada a pô-la dentro de uma torradeira quente. No mundo selvagem alternativo, o custo de um beijo era o corte violento dos lábios ou mesmo a cegueira dos olhos (custo de uma relação). Para a infelicidade de David, lhe aparece o sentimento involuntário da paixão justamente quando está fora do espaço que era reservado para tal. É na floresta, onde o amor é proibido, que ele se encanta perdidamente pela personagem interpretada por Rachel Weisz. A genialidade de Lanthimos é a perspicácia com a qual expõe as contradições dos personagens no âmbito do enredo. Ambientes de proibição costumam gerar noções subversivas na vida real. No mundo do cinema, talvez não seja algo tão diferente para as pessoas de carne e osso que compõem as histórias que nos chocam e nos emocionam. Desse aprisionamento moral, resta um passo para que o personagem central decida se libertar fugindo com a sua amada.

O roteiro do filme, o qual esse texto tenta apresentar em linhas gerais e de maneira não linear até para não recair nos famosos spoilers, ora se aproxima do tipo de cinema existencial que alguns diretores, eivados de inspiração filosófica, inauguraram no século passado, ora flerta com os filmes clássicos sobre regimes totalitários, ora se espelha nas narrativas nonsense do cinema pós contemporâneo (à lá Trier). Acima de tudo, e para além de um alcance informacional da matriz cinematográfica que Lanthimos professa, é importante perceber que todos os dias ao acordar também estamos destinados a cumprir uma mesma sina: a do exercício dos padrões. Romper com eles custa caro em nossa sociedade. É tarefa de homens e mulheres corajosos que não se sentem contemplados pelo arsenal discursivo determinado no campo ético. São Davids da vida que a despeito dos castigos cruéis, vão rompendo barreiras de grupos cujas regras previamente determinadas massacram os seus verdadeiros “eus”. The Lobster não é só uma curiosa elaboração ficcional. É um longa que nos permite pensar que assim como os condenados a viver entre os indesejados, recuperando-se, também habitamos em meio ao absurdo.

Título: The Lobster (“O Lagosta”)

Direção: Yorgos Lanthimos

Gênero: Ficção científica/Comédia romântica/Suspense

Nacionalidade: Grécia/Reino Unido/Irlanda/Países Baixos/França

Duração: 118 minutos

Ano: 2015

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Sobre o autor

Alberto Silva

Estudante de ciência política, além de amante da área a qual se debruça diariamente, é também apaixonado por sociologia, cinema, literatura e, é claro, por vinhos. Comunista em política, keynesiano em economia e anarquista em cultura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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