quarta-feira, 15 de março de 2017

Do Fruto Proibido aos Movimentos Feministas: Ensaio Sobre a Transgressão Feminina

Por: João Neto Pitta

post

”A mulher é um pecado!” – disse um poeta barroco.  Toda as suas formas e feições: a delicadeza de seu rosto, o compasso de suas pernas, o desenho de seus lábios, tudo isso, é, para nós homens, a representação do pecado; antes cegos, do que a revelia de um corpo que nos leve ao erro. Gregório de Matos era sucinto ao delinear a sua poesia, o corpo e o espírito em luta constante, sobressaltando-se ao sentimento inabalável da paixão e, ao mesmo tempo, sucumbindo à santidade do espírito.

A palavra pecado e mulher namoraram durante muito tempo, tanto por personificarem aquilo que o homem deseja de forma profana, quanto por desafiar as limitações que foram-lhes impostas ao longo dos tempos. No primeiro caso, o homem prefere a cegueira do que o desejo absurdo, no segundo ele aponta o desvio feminino como erro a ser apedrejado e dizimado da humanidade.

A mulher, na narrativa judaico-cristã, fundou o pecado na medida em que abocanhou o fruto proibido. O presente que Deus deu a Adão para desnorteá-lo da solidão, trouxe-lhe o pecado. A mulher já aparece como transgressora, e isso lhe custaria caro. Paulo advogou (provavelmente em Romanos) que, por conta disto (o fato de ter pecado primeiro), a mulher deverá ser submissa ao homem.

Hesíodo narra que Pandora era um presente dos deuses aos homens. Uma criatura divina com um olhar atraente e sedutor, porém, feita pelos deuses com um intuito de se vingar dos homens, tratava-se de algo belo por fora e horrendo por dentro. A figura da mulher já era associada à sedução, à beleza e ao engano. Pandora trazia uma caixa em suas mãos, e nela havia todo o caos que circunda o nosso mundo. Seria então – em uma interpretação mais distante talvez – a mulher um presente ” de grego” aos homens?

Na peça de Eurípides ”Medeia”, o personagem Jasão, em algum momento, chega a dizer que ”Se houvesse outra maneira de ter filhos, que não precisasse da participação da mulher, os homens estariam livres dessa praga”.  A posição da mulher era restrita à reprodução e às atividades domésticas; sendo, portanto, necessário aos homens, sobretudo no que concerne ao desenvolvimento de uma família.  Medeia, na peça supracitada, fora traída por Jasão, conquanto, não cedeu ao desatino, decidiu vingar-se e a sua primeira atitude foi conquistar o coro, que era formado por mulheres. Disse Medeia:

Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras.  De início, temos de comprar por alto preço o esposo e dar, assim, um dono a nosso corpo – mal ainda mais doloroso que o primeiro. Mas o maior dilema é se ele será mau ou bom, pois é vergonha para nós, mulheres, deixar o esposo (e não podemos rejeitá-lo).

E prosseguiu falando :

Inda dizem que a casa é nossa vida, livre de perigos, enquanto eles guerreiam. Tola afirmação! Melhor seria estar três vezes em combates, com escudo e tudo, que parir uma só vez!

Medeia conseguiu conquistar o coro, que via nela, além de uma certa identificação, uma forma de lutar contra o sistema opressivo que se apresentava.  Pela maneira como ela conduziu seu discurso, pontuando as limitações que são impostas ao sexo feminino e denunciando esta situação injusta, Medeia simboliza, também, parte dessa luta que mobiliza várias mulheres: ”O Feminismo.”

O Feminismo nasce como forma de contrapor essa ótica unilateral, esse discurso unívoco de mundo, no qual o homem parece ser o único narrador, e a mulher aparece apenas de forma secundária, como um ”presente” ou algo que serve apenas para satisfazer as necessidades masculinas. A mulher passaria a ser um sujeito e não uma propriedade.

Apesar de o movimento supramencionado ter conquistado vários avanços no que concerne à igualdade (levando em conta que tal princípio ainda não foi conquistado), é imprescindível lembrarmos que a imagem da mulher e o pecado não se dissociaram totalmente da perspectiva masculina, pelo contrário, ela passa a ser vista maculada no próprio movimento. A mulher que urde contra o sistema patriarcal é caracterizada como ”mal amada”, feia e como transgressora (no pior sentido) – a palavra pecado é substituída – porém, continua representando a mesma coisa. A mulher aparece como iníqua na medida em que se posiciona como representante do movimento e o movimento passa a ser encarado como uma forma de desvirtuar a mulher de seu papel feminino.  Papel que, curiosamente, foi criado pelo próprio homem.

Quando a filosofa Simone de Beauvoir disse que ”Ninguém nasce mulher, torna-se” , ela quebra completamente essa perspectiva de um papel feminino pré-estabelecido (para saber mais, procure o outro texto que eu escrevi ”Ninguém nasce mulher, torna-se: Simone de Beauvoir e o papel da mulher na sociedade”).  E logo após isso, Simone, também se une a nossa lista de mulheres ”pecadoras”.

Poderia comentar o nome de várias outras mulheres que lutaram contra a misoginia – palavra pichada em um muro de sangue –  no entanto, deixarei para um próximo texto.

A evolução histórica da figura da mulher ao longo do tempo é cheia de reviravoltas e conflitos que perduram até hoje. O Feminismo desperta amor e ódio, entre os homens talvez mais ódio do que amor, afinal, uma mulher que trabalha e que é autônomo deixa de viver para o homem e passa a viver para si.  O casamento deixa de ser o motivo de se viver e passa a se tornar uma etapa da vida.  A mulher foi escarrada por comer o fruto proibido, foi condenada por trazer uma caixa que trouxe o caos ao mundo, foi queimada na idade média por ”bruxaria” e hoje é julgada por conduzir um movimento que brada contra o patriarcado (que a condenou a tudo isso).

Percebemos que há um histórico que liga a mulher ao pecado, não por outra coisa, mas por viver sob o auspício de uma sociedade severamente machista que limita as suas formas de expressão e, com isso, apagam um pouco de sua humanidade. A importância do feminismo está em apresentar uma contra-narrativa, um golpe contra um sistema unívoco, um uivo contra a opressão. Feministas de todo o mundo, uni-vos.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

João Neto Pitta

Eu, você, ele... Tanto faz! Vamos todos morrer um dia.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER