quinta-feira, 23 de março de 2017

Dos nossos Monstros internos e seus Preconceitos

Por: Guilherme Lima

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Ultimamente venho tendo os pensamentos consumidos pelos mais variados questionamentos, sejam eles rasos ou profundamente densos. Um em especial de certa forma tem ocupado fortemente meu tempo, maquinando esboços e teorias sobre o mesmo: a contradição demasiadamente humana sobre o conflituoso embate entre a conduta humana (sobretudo a minha) na disputa de discurso X ação. A eterna busca em conciliar da melhor forma possível ambos sem que sejamos hipócritas ou juízes sem nenhum juízo moral para tal, permitindo-me abusar da retórica redundante.

É extremamente fácil e belo ter um discurso completamente ideal, sonho idílico construído nos alicerces do mais seguro e belo mármore grego, estando este discurso alinhado perfeitamente com a ética e nossos direitos universais de liberdade, igualdade e fraternidade, tão recorrentes em nosso tempo aos quais a sociedade moderna assentou toda sua teia social e difundiu em normas de lei. A liberdade do indivíduo é citada e amplamente defendida a plenos pulmões, mas enquanto no campo da teoria o avanço foi pujante, progressista e visceral, quando chega o momento de trazer as questões para a realidade e aplicá-las, agindo de uma forma na qual possa ser levada adiante, torna-se evidente como acaba empacando este agir.

Com um discurso claro, preciso e direto, vamo-nos armando com a mais bela das retóricas que a princípio criamos num forte senso crítico para avaliar o todo. É muito bom e necessário termos senso crítico embasado e alinhado com nossa filosofia de pensamento, entretanto, geralmente acabamos por nos enveredar pelo mundo da hipocrisia regulatória. A velha ideia presente na frase “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” toma força e reacende as maiores contradições latentes dentro de cada cérebro humano, perdendo-se a noção do malefício que causamos ao ambiente em que estamos inseridos, e assim, o clássico efeito borboleta torna-se uma cruel verdade.

Estamos envoltos pelo meio permeado de concepções do senso comum carregado com as sutilezas de hábitos, falas, e pensamentos pré-determinados que ao pararmos para pensar no que fora dito, feito ou escrito, estão carregados de ideias machistas, homofóbicas, racistas e tantos outros preconceitos estereotipados historicamente em nosso mundo das aparências. Encaramos isto com uma naturalidade, algo já dado e imutável, aspecto entranhado em nossa cultura onde vamos repetindo feito papagaios discursos que corroboraram e fazem parte de uma ferramenta de perpetuação da situação de exclusão, dominação e condenação de determinados grupos sociais por simplesmente serem diferentes ou não se enquadrarem nos padrões do “suprassumo” ideal da sociedade.

Não quero, nem é minha intenção com esse texto, passar uma ideia de que sou o tipo de cara“desconstruidão”. Não tenho essa pretensão, pois estou ciente que em minhas atitudes e falas, por mais que tente controlá-las e observar o que é errado e não perpetuar uma cultura de preconceitos, acabo cometendo perversas sutilezas em meus hábitos. Comentários e atitudes machistas; pensamentos segregacionistas para algum grupo; atos racistas inconscientes como atravessar a rua quando percebe alguém de cor vestido de determinada maneira numa rua vazia a noite; fazer piadinhas homofóbicas. Tudo isso, acabo cometendo na rotina, e quando me deparo com a cagada e o quanto estou prejudicando outras pessoas, a chamada “crise existencial” acerta em cheio como um belo soco na cara dado pela hipocrisia.

Um processo de mudança destes paradigmas e contradições discursivas, entre o que deveria ser e o que realmente é, só poderá ser alterado, mesmo sendo ideia que bate na mesma tecla, numa mudança cultural através de uma educação que prime pela empatia, tolerância, reconhecimento do outro, onde os indivíduos acabem respeitando o próximo e vendo que existem outras perspectivas e modos de se viver e ser, e que estas não lhe acarretam nenhum problema, muito pelo contrário, contribuem e muito para um engrandecimento de sua humanidade, adquirindo novos conhecimentos, visões e perspectivas sobre a vida em si. Todo ser humano por si só é uma singularidade e nossa semelhança, paradoxalmente falando, é que somos diferentes um do outro.

Resta então buscar amenizar estas mazelas da contradição, fazer exercícios e reflexões sobre nossos atos e o quanto os mesmos estão desconfigurados com nosso modo de pensar e enxergar a vida. Obviamente, isto é um processo complicado, pois nos força a aprendizados diários e esforços sobre nosso individualismo que está incrustado subconscientemente no pensamento humano, presente em nossa educação, concepção de mundo e vontades, ou seja, ter um domínio de si mesmo e dos impulsos mesquinhos leva tempo. Uma evolução que apesar de seu custo, é essencial para assentar uma mudança definitiva.

Se enxergar no espelho e perceber que temos nossa parcela de banalização do mal, nas pequenas atitudes do cotidiano onde carregamos todos aqueles velhos discursos carregados de preconceitos velados pelos tons de brincadeira, ditas “inocente”, é exercício que na maioria das vezes, nos damos ao luxo de desprezarmos por simplesmente nos recusarmos a crer que estas atitudes, por mais as façamos inconscientemente, estão carregadas de uma visão deturpada e preconceituosa de nossa esfera social. O processo de enxergar o próprio reflexo como aquilo que mais odiamos dentro de nosso convívio é conseguir romper com a barreira da autonegação, afinal, é muito fácil apontar as falhas do outro, mas nunca as nossas.

Encarar e botar em prática nosso discurso e imergir ele na realidade é uma tarefa árdua para qualquer ser com mínima lucidez e racionalidade, evitando assim definhar-se em frustrações consigo mesmo. Por isso me lembro de um pensamento ao qual me expuseram: estamos divididos em 3 divisões de preconceituosos: o que é preconceituoso e não tem consciência disso; o que é preconceituoso e tem noção, mas não tenta mudar pois isso lhe convém de algum modo; e o que sabe dos seus próprios preconceitos e luta contra eles, policiando-se e evitando ao máximo reproduzir isso na prática da realidade. Entretanto, infelizmente tenho percebido que o último grupo é minoria, principalmente quando nos deparamos com os comentários nas redes sociais, e nos acontecimentos envolvendo os debates acerca dos direitos civis de grupos sociais minoritários ou marginalizados ao longo do tempo.

De fato, o maior monstro que devemos lutar e derrotar, carregamos conosco, enraizado dentro de nós, e a capacidade de vencê-lo é uma tarefa pessoal ao qual é vital para elevar-se como um ser melhor. Ou buscamos maneiras de convivermos de maneira mais harmoniosa, calcados pelo respeito e empatia mutua, ou vamos aos poucos entrar numa distopia ao estilo do grande livro de José Saramago, “Ensaio Sobre a Cegueira”: Apenas seres se aproveitando da posição de fragilidade do semelhante.

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Guilherme Lima

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