sexta-feira, 24 de março de 2017

Sociedade fragmentada, indivíduos fragmentados

Por: Mauro Gouvêa

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Qual seria o maior horror causado por um sistema desigual do que uma epidemia de psicopatologias? Ok, fome, miséria, violência, desrespeito às minorias são ótimas respostas, mas não seriam estas também um indicativo de transtorno mental em nossa sociedade?

Olhe à sua volta e me diga: quantas pessoas você conhece que sofrem de ansiedade, estresse, depressão, fobia social, transtornos alimentares, baixa autoestima, solidão patológica, entre tantos outros?

Não tenho dados precisos de estudos realizados no Brasil sobre este tema, gostaria de tê-los, minha urgência de escrever é maior do que minha vontade de pesquisar; trabalho com dados empíricos e a percepção emprestada de conversas e convivências com colegas e amigos.

Vejo uma sociedade angustiada, afogada em existências rasas. Existem diversas razões secundárias para esta angústia, esses estranhos viventes intitulados humanos estão cada vez mais mergulhados na modernidade líquida, como preconizado por Bauman.

Transformamos nosso antropológico instinto gregário em conexões efêmeras, fomos programados para nos conectarmos ao próximo, e agora somente conseguimos nos conectar aos iguais enquanto estes iguais nos são úteis. Indiscutivelmente nossa sobrevivência como indivíduo está inevitavelmente ligada à vida dos outros. As mudanças tecnológicas, o acesso à (des) informação, a pós-verdade e a ideologia nos dizem o contrário, transforma-nos em seres egocêntricos, predatoriamente competitivos e individualistas extremistas e intolerantes.

Sabiamente Milton Santos já identificava isso dentro de um contexto mais político quando afirmava que “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. E mais do que nunca as falsas identificações ideológicas impulsionam o isolamento de uma massa facilmente manobrável.

Afirmei em outro momento que o ódio é o sentimento mais fácil de manipular por não exigir grandes esforços cognitivos e é o que estamos vendo. Sociedade fragmentada composta por indivíduos fragmentados.

A crise econômica afeta muito mais essa geração do que crises bem piores em gerações anteriores, fácil diagnosticar: o consumismo preenche o vazio social. Mas longe de curar a doença do isolamento, intensifica a comparação social até o ponto em que, sendo afetados com a impossibilidade de saciar nossa fome consumista, começamos a nos atacar. Não por isso os mais raivosos são aqueles que mais têm e odeiam os que têm menos ou os que têm empatia pelos despossuídos.

Se a ruptura social não é tratada tão seriamente quanto membros quebrados, é porque não podemos vê-lo, mas os detentores do poder podem e esfregam as mãos de contentamento. E não estou aqui falando de um governo golpista tupiniquim, eles não são os detentores do poder, apenas marionetes deste.

Ao final das contas somos todos marionetes de um jeito ou de outro. E, mais uma paráfrase, desta vez de Paulo Freire, somos marionetes inclusivas ou excludentes?

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Sobre o autor

Mauro Gouvêa

(...)Minha voz é murmúrio equivocado enquanto grito só e a esmo. Unida a outras é forte brado, sendo assim, sou eco de mim mesmo. (...)

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