segunda-feira, 27 de março de 2017

Por uma vida cada vez mais inútil

Por: Juliana Santin

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Será que a felicidade tem alguma utilidade? Costumamos pensar nas coisas úteis como coisas boas, desejáveis. Mas, afinal, o que seria uma coisa útil? Sem pensar muito, diríamos que útil é tudo aquilo que serve para alguma coisa. Em outras palavras, úteis são aquelas coisas que têm seu valor fora delas. Como assim? Bom, a tesoura é útil, porque ela serve para cortar papel. Sem papel, a tesoura perde totalmente a razão de existir. O colírio é útil para limpar os olhos. O carro é útil para nos deslocarmos de um local para outro. E assim por diante.

E a felicidade, serve para que? Resposta dada pelo professor Clóvis de Barros Filho citando Aristóteles: para nada. A felicidade é completamente inútil. Os momentos felizes são aqueles que valem por si mesmos, que têm valor em si mesmos, que não servem para absolutamente nada além de nos alegrar. Você não sorri para obter um resultado com aquilo. Você sorri porque está feliz.

No entanto, vivemos uma realidade totalmente focada na utilidade. Estamos sempre fazendo coisas que têm valor fora delas, com quase nenhum foco dado justamente em descobrirmos o que nos causa felicidade. Os perfis de liderança que vemos hoje, o mundo corporativo em si, é pautado na máxima: foco no resultado. Tudo o que você faz aqui tem valor lá. Se você está feliz ou não fazendo aquilo pouco importa, porque ninguém tem tempo a perder com coisas, bem, inúteis, como a felicidade.

Desde criança, entramos nessa rede de utilidades: estudamos uma série para que possamos passar para a outra, para depois passar no vestibular, para depois fazer faculdade, para depois trabalhar, para depois ser promovido, para depois…. quase sempre, as atividades do presente têm seu valor em algo fora dela, no futuro. Mas quando o futuro chega, o valor rapidamente foge para outro objetivo futuro. E assim, sucessivamente.

Segundo Clóvis, pouquíssimas são as pessoas que conseguem enxergar valor em si mesmas. E ele diz que o mesmo vale para a felicidade. “Ou você teria a resposta para a pergunta: ser feliz para que? A felicidade é perfeitamente inútil, a vida boa é perfeitamente inútil, porque ela vale por ela mesma”, conclui ele.

Uma coisa que serve meio que de termômetro, a meu ver, para percebermos os momentos que valem por si mesmos e os que não valem tanto assim – ou que não estamos presentes o suficiente para percebermos isso – é a necessidade de postar em redes sociais. Por que? Porque a exibição nas redes sociais acabou tendo uma “utilidade”, acabou dando a momentos de nossa vida um valor fora deles: postar nas redes virou um objetivo que, muitas vezes, ultrapassa a coisa em si. Cria-se momentos, cenários, fotografias, sorrisos para ter o que mostrar, para ter como construir uma imagem.

Não há problemas em postar coisas nas redes sociais; o problema é quando o que fazemos em nossa vida passa a valer PORQUE foram postados, curtidos, comentados. O problema é quando vale mais mostrar que fez do que fazer. Quando a inútil felicidade passa a ser útil para ser exibida ao mundo ela invariavelmente deixa de ser felicidade e passa a fazer parte do mundo de utilidades.

Há um bom tempo, talvez um ano, decidi que ia reduzir drasticamente as postagens pessoais no Facebook, porque tinha lido reportagens sobre manipulação de dados, além de ter ficado impactada com as duras palavras ditas pelo professor, Leandro Karnal, falando sobre o uso das redes hoje em dia.

Eu acredito que nós estamos gritando desesperadamente para sermos observados. (…) Quando eu não tenho sabor nas coisas que eu vivo e faço, multiplico as coisas que vivo e falo. E falo mais, e saio mais, e faço mais festa, e tenho mais amigos, e viajo mais, não paro de viajar, porque como eu não consigo estar comigo, quero estar em todos os lugares do mundo”, diz ele.

Como eu não tenho de fato amigos, tenho 3000 no ‘Face’. Como eu não tenho uma vida interessante, eu fotografo tudo na minha e compartilho com todos. A minha solidão se insinua de tal forma e ela é tão estrutural que tenho que fazer com que os outros me digam aquilo que desconfio: que minha vida é uma vida que vale a pena ser vivida, através da observação dos outros”.

Pensando nessas palavras dele, percebi que quem tinha que curtir minha própria vida era eu e decidi reduzir meu uso. No entanto, no início, o processo de não postar era forçado, artificial. Na verdade, eu tinha uma satisfação interna muito grande em não postar, como se me sentisse superior por isso. Olhava aquele mundo de postagens alheias e pensava: nossa, como sou superior, não preciso disso. Ora, é óbvio que tinha apenas trocado seis por meia dúzia, deixando de ser a “garota Facebook” para ser a “garota anti-Facebook”. Ainda vivia em mim o desejo de ser curtida, nem que fosse por não estar lá.

No entanto, mantive-me firme nesse objetivo e, como em quase tudo, esse comportamento passou a se tornar mais natural. Com o tempo, parei de imaginar fotos e momentos postáveis. Passei a ir me desacostumando com a ideia de compartilhar cada movimento da minha vida e, quando vi, já nem tinha mais vontade de postar nada. Passei a olhar para o mundo não mais como algo a ser postado, mas sim, como algo a ser deliciado, vivido, apreciado.

E, aí sim, a viver momentos de felicidade inútil e totalmente off-line, totalmente anônima, totalmente solitária. Uma felicidade que não precisava de testemunhas nem de reforço da sociedade. Uma felicidade que tem tanto valor em si mesma que não precisa da aprovação dos outros.

Um exemplo foi meu exame e troca de faixa no karatê. Eu achava que, quando conseguisse essa conquista, iria desejar muito postar no Facebook. Já sabia até o texto que escreveria. No entanto, eu me senti tão feliz e realizada com essa conquista, que foi obtida com esforço e dedicação nos treinos, que o momento da entrega de faixa foi de felicidade completamente inútil! Eu estava nas nuvens, feliz mesmo. E nenhuma curtida tinha importância.

Eu não precisava de ninguém me dizendo que minha conquista tinha sido legal. Eu sabia que tinha sido incrível, um marco, uma realização pessoal, porque foi fruto de meu esforço e foi cercada de pessoas muito queridas. Então, a alegria que sinto ao vestir minha faixa nova é inútil. Os desavisados, que não praticam artes marciais, olham para mim e sorriem amarelo dizendo: que legal… E eu sorrio de orelha a orelha quando visto a bendita faixa. Mas você fica feliz só porque amarra essa faixa na cintura? Sim!

Em outro momento, comprei uma piscina bem pequena, dessas infláveis, para me refrescar com meu filho nas férias. Compramos de impulso, enchemos e entramos, só nós dois, munidos de copos descartáveis, uma pedrinha, com as minhas músicas tocando ao fundo. Mal cabia nós dois dentro dela. Ficamos horas lá dentro, nem percebemos o tempo passar. Saímos à noite, com fome, e com toneladas de mensagens e notificações na tela do celular que não fizeram falta nenhuma durante a brincadeira.

Eu não fotografei nada. Podia ter feito uma foto bem estratégica para não mostrar que a piscina é pequenininha, mostrando o quanto somos alegres e unidos, e o quanto sabemos curtir a vida. Fotos de mãe com filho curtindo uma piscina rende bastante. No entanto, ninguém viu, ninguém sabe (ou não sabia até agora). Estávamos nós dois, anonimamente no nosso quintal, vivendo um momento completamente inútil e sem testemunhas. E não é que passou voando?

E conforme fui descendo a telinha do meu telefone, vendo a timeline do meu Facebook nas festas de final de ano, com aquela infinidade de rostos alegres, famílias felizes, ceias fartas, não mais senti irritação, raiva, ou superioridade. Senti tédio. Parecia que estava vendo uma boiada, um rebanho de gado. Mal conseguia diferenciar um rosto do outro, um peru do outro, um sorriso do outro, uma praia da outra… O rebanho estava lá, fazendo o que todo mundo faz, caminhando juntos guiados sabe-se lá por quem – “tá cego, mas tá guiando alguém”, não é o que diz a canção?

Quando todos publicam que são felizes, quando todos dizem sem cessar: essa é minha vida e minha vida é legal, porque estou viajando, comendo esse prato, vejam! Quando todos dizem a mesma coisa, é preciso dizer que ser louco é a única possibilidade de ser sadio nesse mundo doente”, diz Karnal.

E eu agora sou o boizinho desgarrado do rebanho, mas que se distanciou tanto, que já não precisa mais ser visto fora dele para se sentir feliz. Desgarrei-me e descobri coisas que não é possível descobrir quando estamos andando em uma boiada e só conseguimos ver os outros e nos espelhar neles. Eu sou o boizinho desgarrado, comendo grama, tomando chuva, olhando a paisagem, descobrindo novos caminhos, me perdendo, me encontrando, caindo, levantando, sorrindo, chorando, sem plateia, sem registros, sem aplausos, completamente inútil, completamente feliz.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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