terça-feira, 28 de março de 2017

Matematizamos a vida?

Por: Laís Sales

post

 

Ouvi uma buzina insistente e parecia ser à frente da minha casa. Eu estava na casa dos meus pais e imediatamente saí para atender o possível chamado. Era o carro do sedex, a chuteira do meu marido possivelmente chegara. Perguntei a quem o carteiro procurava e quando respondeu tive a certeza de que ele estava chamando no local correto. Respondi que receberia a mercadoria, ele logo “desceu” da van, dizendo em tom de quem não está nada satisfeito que da próxima vez que vier e não tiver o número da casa no portão, levará a mercadoria de volta. Fiquei me perguntando se havia necessidade não da fala, mas da maneira como ele reagira, quase não conseguiu descer da van, pois parou o carro sem puxar o freio de mão e acabou tendo que descer e puxar o freio ao mesmo tempo em que abria a boca para me dirigir estas palavras. Assinei o papel. Recebi a entrega.

Mas, as palavras que me dirigira permaneceram em minha mente. Fico pensando que mundo é este, no qual vivemos, onde o carteiro que já é conhecido e por quem você também é conhecida (o), precisa voltar com a sua entrega, simplesmente por que não há indicação de número em sua casa? “Não há número”, não há registro, é assim que somos computados, antigamente ele viria numa bicicleta, a pé ou até mesmo em um carro e diria “eu procuro o seu fulano”, “a dona fulana”, mas, não é mais tanto o nome que nos identifica, são os números, ainda que saibamos os nomes uns dos outros.

Queremos saber onde se localizam, em que estatísticas se enquadram, se podem receber a entrega por estarem dentro da norma. Que mundo é este onde os números são superiores à experiência do encontro com alguém? Superiores a identificação que fazemos do nome na carta, na entrega à pessoa referida? Que mundo é este onde as horas sobrepõem-se ao que fazemos durante elas? Que mundo é este onde a lógica prevalece sobre o sentido? Onde a humanidade é matematizada?

Da próxima vez, senhor carteiro, não volte com a entrega se não achar o número, porque não sou um número, sou alguém como você que esquece de puxar o freio de mão quando a lógica é quebrada, quando algo sai do lugar. Sou alguém que também pode se desorganizar ao não achar um número, mas percebi que talvez seja esse caos que promova os encontros, a reflexão de que o mundo da lógica é importante, mas não está acima do prazer de agradecer a sua entrega, o nosso encontro ou a arte de viver.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Laís Sales

"Apenas uma gota no oceano da vida"

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER