quinta-feira, 30 de março de 2017

Cantando na Chuva: What A Glorious Feeling! Porque Dias Cinzas são Lindos!

Por: Elienae Maria Anjos

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O verão já se foi, permitindo que um caminho seja aberto para que minhas estações preferidas com passos moderados se aproximem aos poucos de minha vida…

Estamos no outono e sua presença me puxa quase todos os dias para ficar um pouco à janela de minha sala. Como tudo pra mim é Arte, transformo a janela em uma tela viva, com muitos tons frios, porém vivos, porque a cena muda constantemente, conforme os movimentos das horas. Em um momento as nuvens se entrelaçam, formando imensas bolas de algodão, em outro, elas se assemelham a um asfalto espelhado no céu, porque tudo fica cinza carbono. É possível visualizar o vento usando as folhas dos coqueiros para dançar, sempre em um vai e vem até alcançar os cachos dos meus cabelos e depois prosseguir o seu caminho que nunca sei em que destino irá descansar. De repente é calor, depois é frio e tudo continua a se modificar na tela! O frio traz um aconchego preparando a chegada da minha alegria… e aí vem ela… A chuva! Ela é uma visitante inesperada no final de mais um dia de outono, com gotas espessas, semelhante às pincelas irregulares desses pintores impressionistas. Suas águas impetuosas põem um ponto final no passeio do meu filho Marvin, que assustado decide correr para dentro de casa, e eu sorrio e agradecendo a ajuda que vem do céu. Às vezes ela decide nos visitar durante as madrugadas, oferecendo aquela sensação calma para relaxar, daí, nada é mais necessário do que parar e ouvi-la criando seus sons particulares no teto de minha casa, mas antes que consiga me adormecer, chego a pensar ou a sonhar que estou novamente diante da janela-tela, prosseguindo com o mesmo ritual em observar a vida que o inverno traz, cheia de chuvas e frio, me envolvendo por alguns meses com boinas, cachecóis, luvas e sorrisos.

Minha admiração por dias chuvosos é tão forte que não consigo entender os repetitivos comentários que excluem as sensações boas e a beleza que existe em um dia de chuva. Quem não enxerga qualidades nesses períodos do ano, talvez esteja lhe faltando algo agradável dentro de si, porque não são os dias cinza de chuva que nos deixam tristes e sim o que temos permitido entrar em nossa alma através de muitas ações produzidas por nós ou por outros e que não tem conexão alguma com as estações frias.

São nesses magníficos dias de chuva que me minha memória cinéfila resgata a maravilhosa lembrança de um preferido musical que descreve perfeitamente o que sinto ao ouvir e mergulhar nas águas que descem do céu.  Com uma belíssima sequência de quatro minutos e cinquenta segundos, uma pessoa com um sorriso largo nos lábios, fecha o guarda chuva e o torna seu parceiro de sapateado, ali mesmo, na rua com pouca luminosidade e totalmente mergulhada em águas das chuvas que não cessam de cair, mas, nada o impede de dançar e cantar expressando sua felicidade… É claro que estou falando da clássica comédia musical Hollywoodiana, “Cantando na Chuva” (Singin’ In The Rain,1952)…

E foi assim que um longa-metragem musical com arrebatadoras cenas de sapateado nos deu a oportunidade de conhecer um dos excelentes trabalhos do exímio bailarino/sapateador/ator Gene Kelly, que não só produziu os números musicais, mas também protagonizou e dirigiu junto com Stanley Donen.

E as canções?? Belíssimas e inesquecíveis composições de Arthur Freed, Nacio Herb Brown e Lennie Hayton. Algumas tem sido até hoje homenageadas e regravadas, mas, como esquecer de Make ‘Em Laugh, Good Morning e é claro, Singin’ In The Rain? Um fato interessante é que o musical foi escrito depois da escolha dessas canções, assim o roteiro foi se encaixando no enredo de cada uma delas.

Mesmo que o filme faça muito uso de cenários, pequenas aparições externas e nenhuma tecnologia cinematográfica para aquela época, o perfeccionismo profissional de Gene Kelly sempre o conduziu a criar ideias enriquecedoras para o cinema, por exemplo, em Cantando na Chuva, ele fez uso de um brilhante sincronismo das câmeras junto aos movimentos corporais delicados e acrobáticos dos bailarinos e sapateadores, permitindo assim efeitos visuais produzidos simplesmente por uma mente tão inteligente que realizava trabalhos tão próximos da perfeição.

Quando nos conectamos com as atuações de Deb Reynods, Gene Kelly, Donald O`Connor, passamos a sentir de perto o magnetismo em cada expressão daquela equipe que nos contagia em todas as sequências. Chego à conclusão que esse musical ocupa a posição de um dos melhores de todos os tempos, porque de fato nada lhe faltou! Ele é completo!

Há mais um ponto importante para a Sétima Arte nesse musical, pois foi em Cantando na Chuva que tivemos a primeira oportunidade de conhecer todo o processo que envolve a escolha e criação de um filme. Através desse pano de fundo, fazemos uma turnê visual pelos Estúdios e bastidores cinematográficos. Iniciando pelos trabalhos dos marceneiros, pintores na construção dos cenários até chegar aos mais minuciosos e complicados serviços técnicos de iluminações, gravações, os ensaios dos artistas, os contatos diretos com diretores e as repetições de cenas incansáveis. Usando toda essa exposição para relatar o choque que foi para alguns e a revolução tão esperada para outros, quando o cinema começou a viver uma nova era em 1927, durante a transição dos filmes mudos para os falados, começando a partir do filme, também musical, “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer), de Alan Crosland, em Nova York, que foi gravado um ano antes de sua estreia pela Warner Bros.

Os Estúdios que ainda não haviam mudado a antiga forma de filmar passaram a sentir pavor, por conta da fama que poderiam perder diante de um público que já se encontrava ansioso em conhecer aquela nova emoção, diferente daquelas telas negras com frases em branco, expostas depois das cenas repletas de bizarras expressões faciais e corporais das mocinhas, heróis e vilões. No entanto, para os atores esse novo momento não foi também fácil para as suas carreiras, por isso tiveram que ter aulas com profissionais para se adequarem aos sonoros trabalhos cinematográficos. Essa parte foi descrita maravilhosamente na sequência musical Moses Supposes, com a dupla Kelly e O’ Connor.

Esse grande sucesso ainda conquista fãs de todas as idades, a admiração de vários estudiosos do cinema e sempre inunda nossas salas com águas festivas, mas, após seu lançamento, Singin’ In The Rain não teve a atenção merecida e foi julgado como um filme modesto, recebendo injustamente apenas duas premiações: Globo de Ouro: Melhor Ator em Comédia ou Musical, (1953) para Donald O’Connor e Writers Guild of America Award de Melhor Roteiro de Musical, (1953) para Betty Comden e Adolph Green. Mesmo assim, o musical se tornou uma porta de sucesso consagrando muitos daqueles profissionais, através de outros trabalhos.

Hoje com 65 anos de filmagem, esse musical ainda é aclamado e reconhecido, porque a Vida que pulsa nessa película nos alegra e inspira vários artistas em seus diversos trabalhos de som, vídeo e imagem, mesmo que, infelizmente, algumas daquelas celebridades não estejam mais entre nós.

Espere… Um momento… Estou ouvindo um som… Vem lá de fora e parece ser de mais chuva!… Então, fazendo uso das palavras de Gene Kelly: Gotta Dance!!! ^^)

Bye!

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**Curiosidades:

Musical: “Cantando na Chuva” foi exibido pela primeira vez dia 27 de março de 1952, em Nova York. O pôster do filme mostrava Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds e tinha a frase “What a Glorious Feeling” (Que sensação gloriosa, em tradução livre).

Trabalho em Equipe: Para terminar o filme de acordo com o cronograma definido no início das filmagens, os atores chegaram a trabalhar 19 horas por dia.

Roupas: velhas e artigos de outros filmes foram utilizados, como objetos (tapetes, cadeiras, mesas) da mansão usada por Greta Garbo e em A Carne e o Diabo que podem ser vistas no musical “Good Morning”.

Walter Plunkett: figurinista do filme, trabalhava nos Estúdios desde 1929, e sabia exatamente o que se usava na época retratada.

TV: A estreia do longa na televisão, que ocorreria em 23 novembro de 1963, teve que ser postergada em duas semanas por conta do assassinato do presidente John F. Kennedy.

Triste: o negativo do filme foi destruído em um incêndio.

Gene Kelly: Durante a gravação da cena clássica de cantando e dançando na chuva, o ator estava com febre alta, mas, mesmo doente, tudo ficou redondinho em apenas uma tomada. A chuva vista no filme era uma mistura de leite e água, para que ficasse mais visível na tela, só não contavam que a mistura fosse fazer com que o terno de Gene Kelly encolhesse. Para elaborar o cenário e deixar tudo pronto para a filmagem, a equipe de produção levou um dia inteiro.

Debbie Reynolds: Um microfone foi colocado dentro de sua blusa para que suas falas pudessem ser ouvidas mais claramente. Durante um número de dança, é possível ouvir seus batimentos cardíacos.

O ator Gene Kelly chegou a insultar a atriz Debbie Reynolds por ela não saber dançar. Para a felicidade dela, Fred Astaire estava no estúdio por acaso e a viu chorar. O mestre da dança, então, deu a ela algumas dicas.

Depois do número “Good Morning”, Debbie Reynolds teve que ser levada para seu camarim pois algumas veias de seu pé estouraram. Apesar de a atriz ter trabalhado duro no número, Gene Kelly achou que o som do sapateado tinha que ser dublado. Ele foi para uma sala e reproduziu tanto o som dos sapatos dela quanto o do dele.

Anos depois de “Cantando na Chuva”, Debbie Reynolds disse que sobreviver a esse filme e dar à luz foram as duas coisas mais difíceis que ela já fez.

Debbie Reynolds tinha apenas 19 anos quando fez o filme, morava com os pais e tinha que se deslocar todo dia de sua casa até os estúdios. Ela se levantava às 4h da manhã e tinha que pegar três ônibus para chegar até o trabalho, e às vezes acabava até dormindo no set de filmagens.

Donald O’Connor: Sua irresistível dança-solo ao som de Make ‘em Laugh, um dos momentos mais deliciosos do filme. Muitos críticos consideram a sequencia uma das mais incríveis já filmadas. Na realidade, Donald O´Connor não está sozinho na tal cena. Ele encontra numa boneca de pano, a partner perfeita. É uma sequência essencialmente frenética: o ator dança, cai, pula e até atravessa uma parede. Depois de tanto esforço, ele desmaiou e ficou três dias hospitalizado. Mais tarde, recebeu a notícia de que houvera um problema naquela filmagem. E lá foi o ator refilmar toda a sequencia, com igual vigor acrobático. E novamente, desmaiou e foi parar no hospital.

O ator Donald O’Connor diz que, a princípio, não gostou muito de trabalhar com Gene Kelly porque ele era considerado “tirano”. O’Connor conta que passou semanas morrendo de medo de cometer algum erro.

Cyd Charisse: A atriz teve que aprender a fumar para fazer sua sequência.

Antes do longa, a atriz Cyd Charisse só havia aparecido nas telas em números de dança ou como figurante, desde 1944. Sua performance como Louise Brooks foi tão boa que lhe deu a chance de ser a estrela de outros filmes. Depois de “Dançando na Chuva”, ela fez “A Roda da Fortuna”, com Fred Astaire.

Um número de Cyd Charisse teve que ser interrompido por várias horas depois que descobriram que era possível ver os pelos pubianos da atriz através de sua roupa. Quando o problema foi resolvido, o figurinista Walter Plunkett brincou: “Ok, finalmente conseguimos ‘lamber’ a virilha de Cyd”.

Reconhecimento: Em 2007, o filme foi eleito como o 5º melhor filme de todos os tempos pelo American Film Institute.

**Fonte: Uol, CinemaClassico etc… =D

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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