sábado, 1 de abril de 2017

Por que Moana não é um filme feminista

Por: Juliana Santin

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Confesso que nunca fui uma feminista militante e não pretendo ser. Acompanho as infindáveis disputas de todos os lados, as violências, os exageros, acho que muito do que se faz, ainda que com ótima intenção, acaba sendo um desserviço à causa e a todas as pessoas, homens e mulheres, e sempre que possível, convido a todos a ter um pensamento mais complexo e amplo. Não posso concordar que todos os homens são potenciais agressores, até porque, tenho um filho menino e não acho que esteja criando um monstro machista, que se aproveita de todos os privilégios naturais (homem, branco, heterossexual), para humilhar mulheres.

No entanto, mesmo não sendo militante e sendo muito favorável à existência de homens no planeta, apreciadora da companhia de muitos deles, não podemos negar o óbvio. O machismo é histórico, cultural e está entremeado na nossa vida, muitas vezes, de maneira até que bastante sutil. Sempre digo que o machismo disfarçado me enoja e me preocupa, porque passa muitas vezes, como natural.

Recentemente, fui abordada por um conhecido, com quem tinha uma relação bastante superficial, que mostrou-se interessado em ter um relacionamento comigo (sutilmente, ele me disse que eu tenho um ‘corpão’). Isso não era de meu interesse naquele momento e disse isso a ele. Diante da negativa, ele mostrou-se ofendido comigo, e postou uma indireta nas redes sociais dizendo que “corpo bonito é fácil de obter, mas que caráter e humildade vinham de berço”.

Ora, na cabeça dele, o fato de eu não querer ficar com ele era um desvio de caráter ou falta de humildade. Foi como se eu tivesse seduzido ele e depois jogado fora – coisa que não fiz. Ou ainda, como se apenas o fato de eu ser uma mulher atraente na visão dele era motivo suficiente para ficar com ele, já que o provoquei com meu “corpão” – mesmo que eu não tenha feito nada nesse sentido, apenas existido na frente dele.

Ando também sendo surpreendida com homens que se assustam com iniciativas mais ativas, como convidar para sair, por exemplo, ou com o fato de ser independente e inteligente – pasmem, pesquisas mostram que muitos homens preferem mulheres menos inteligentes do que eles, pois sentem-se inseguros já que essa característica ainda é considerada “masculina”. Oi? Até um psiquiatra que admiro muito, Flavio Gikovate, falou em um vídeo que as mulheres precisam segurar a onda no início do relacionamento para não assustar os homens, que se sentem intimidados com essas mulheres “fortes”. Isso demonstra que o machismo afeta a todos, inclusive, os homens.

Assim, quando vi que o filme Moana, da Disney, era feminista, fiquei até curiosa. Li isso em alguma notícia de jornal, embora os diretores tenham negado. Ainda bem que negaram. Comentei isso com meu filho que tem 11 anos, antes de vermos o filme, e enquanto víamos, ele cochichou comigo: mãe, não estou achando feminista! Pois é, filho, nem eu.

Conversando com ele depois, porque se tem uma grande contribuição que posso dar a essa causa é tentar criar um homem não machista, falei: acho que eles falaram isso, porque o maior objetivo da Moana (que é uma moça de 16 anos) não é encontrar um príncipe e casar, como a maioria das princesas da Disney, mas sim, conhecer-se, saber quem é, entender suas origens. Você não acha que isso é feminismo? Meu filho respondeu: não, eu acho que isso é normal.

Sim, é isso mesmo, filho, esperamos que uma moça de 16 anos de hoje em dia tenha como anseio maior encontrar-se, construir sua vida e sua identidade, e não, encontrar um príncipe e casar-se. O tal príncipe até pode acompanhar a moça na jornada, ele não é um problema; mas tampouco, é a solução. Ninguém é a solução da vida de ninguém, casamento não é um fim em si mesmo e não deveria ser objetivo de vida de ninguém – não o único, pelo menos. Relacionamento é uma parte da vida. Há muitas outras e nenhuma é um fim em si mesmo.

Então, somente de se chegar a considerar que um filme em que uma menina de dezesseis anos não tem como objetivo final encontrar um príncipe é um filme feminista já é machismo. Uma moça que não pensa em namorar/casar aos DEZESSEIS anos? Só pode ser feminista. Sério?

Continuando, vemos o modelo patriarcal padrão: a menina não pode explorar o oceano, como sua natureza pede, porque o pai não deixa – e a mãe é um zero à esquerda que concorda com o pai. A avó é a única que incentiva Moana – e é mulher! -, mas se auto-proclama como “a louca da ilha”.

Ainda, há uma questão bastante interessante que foi a estratégia da Disney para não desviar o objetivo da moça e fazê-la não cair de amores pelo Maui, o semideus que a acompanha na trama: ele é feio. Quando vi o filme, pensei isso, mas fiquei quieta. Depois, minha sobrinha comentou: “você viu o que eles estão ensinando para as crianças? A Moana só não ficou com o Maui porque ele é feio”. Percebi, então, que não fui a única que pensou isso. Bom, então vemos que o filme mostra que os homens feios não cativam o coração das princesas Disney e que isso ajuda a manter o foco no resultado.

Quando comecei a pensar nesse assunto, conversando com meu filho, pesquisei no Google sobre o tema e me surpreendi com a seguinte notícia: ‘Moana’: Dar emoção a princesa sem príncipe foi desafio, dizem diretores. A minha reação foi: como assim? Realmente, é mesmo muito difícil para nós, mulheres, conseguirmos nos emocionar com alguma outra coisa que não esteja relacionada com homens/romance… Sério? Dá até preguiça.

Isso foi dito pelos diretores, John Musker e Ron Clements, que classificaram Moana como uma princesa “durona”. “Abdicar de um romance que faça brilhar os olhos dos espectadores foi um dos principais desafios da construção do filme, segundo a dupla”, diz a reportagem.

Eu não sei se o problema é deles ou dos espectadores, que cresceram vendo comédias românticas onde o romance é o objetivo, o fim em si mesmo. Isso até poderia ter validade, se o público alvo não fossem crianças que ainda não passaram a vida assistindo filmes de Hollywood e ainda não formaram esse conceito em suas cabeças.

Mas a coisa piora quando eles afirmam: “Você quase pode tirar o gênero da história e dizer: ‘É um herói masculino’. Acho que isso cria um novo impulso em um território desconhecido”.

Ou eu não entendi bem, ou masculino ainda dá gênero ao herói. Se você age como um herói, ou seja, com coragem, iniciativa, proatividade, inteligência, força, você age como um ser masculino, como um homem. Lembra da pesquisa sobre mulheres inteligentes?

Assim, quando a Disney acha que está inovando colocando uma moça sendo “herói masculino”, parece fazer como alguns que se dizem não homofóbicos, mas emendam: até tenho amigos gays! Quem não é homofóbico tem amigos – se são gays ou não é indiferente, tanto quanto se são loiros, negros ou, até mesmo, mulheres!

Talvez tenhamos um filme da Disney menos machista no dia em que isso nem for mais tema de reportagem, no dia em que a moça buscar algo além de um príncipe se tornar normal para a maioria das pessoas, no dia em que existirem PESSOAS corajosas, inteligentes e com iniciativa – e não heróis masculinos.

Em tempo, gostei do filme, apesar disso. É uma história bem clichê, previsível, mas mostra aquilo que as crianças e jovens devem aprender desde cedo: você tem que seguir a sua vida, buscar seus objetivos e sua identidade, ir atrás disso. Poderá contar com a ajuda de pessoas, mas a jornada é sua, você terá muitas dificuldades no caminho, pensará em desistir muitas vezes, encontrará forças que não sabia que tinha, e perceberá que o caminho é feito até o dia de sua morte, com príncipe ao lado ou não.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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