sábado, 1 de abril de 2017

Porque o amor pertence à insuspeitada categoria das coisas imprevisíveis

Por: Genialmente Louco

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Um desvario. É disso que se trata. O amor é uma sandice. Um desvio do caminho de dor em que a vida mergulha de quando em vez. É isso, sim. No meio de tanta estupidez e medo e indiferença, vem alguém tomado de coragem, declara seu amor em voz alta e sai sorrindo um parque de diversões e seus carrosséis, rodas gigantes, montanhas russas.

O amor é a maior ousadia da vida. É quando ela, abusada que só, ignora a morte à espreita, realiza, avança, provoca, acontece. Quem ama quer acordar mais cedo e viver até tarde. Amar é se dar conta de que estamos vivos. É a intenção sagrada que nos põe sobre os pés de manhã, a saudade honesta, o trabalho de cada dia. É a noite, a lua e o susto de não estar mais só.

Amar é um desacato à autoridade dos pessimistas, mal-amados, donos da verdade, descrentes da felicidade, vigias da vida alheia e toda torcida contra. Quem ama desobedece à lógica do um contra o outro, a fórmula do cada um por si, o vício odioso do confronto.

Sentir amor é o absoluto inesperado em tempos de pré-disposição para a maldade. Quem tem bravura para dar e receber amor desafia a danação, a selvageria e a morte. Tomados de ímpeto amoroso, os amantes esquecem que um dia também vão morrer. E quando por acaso se lembram, repousa mansa em sua lembrança a certeza de que ao morrerem permanecerão vivos do outro lado, trabalhando pela eternidade de seu amor.

Tem gente que escolhe sofrer, penar, regar sentimentos daninhos, cultivar pragas que desgraçam o roçado aos poucos, em silêncio. Eu escolho viver. E o amor há de ser isso mesmo, quem sabe? O ofício de cuidar da vida. De plantas, flores, sonhos, pessoas, amar é cuidar bem da vida. Limpar-lhe as folhas, molhar a terra, fortalecer as raízes. Proteger, respeitar, servir. Florescer.

Noite dessas, do meio de sua solidão, alguém me escolheu para amar. Veio, tomou meu coração nas mãos e eu entreguei-lhe o resto. Agora seguimos juntos, preparando nossa horta, planeando nossa obra. Rompendo firmes nossos transtornos. Construindo possibilidades, trabalhando pela vida que é boa agora e há de ser melhor amanhã.

Porque, afinal, quem ama não tem medo de trabalhar pelo amor. E o amor dá trabalho! Viver e amar dão muito, muito trabalho.

Fonte: Revista Bula/André J. Gomes.

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Sobre o autor

Genialmente Louco

“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

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