domingo, 2 de abril de 2017

O que é saber viver?

Por: Alberto Silva

post

Savoir vivre. Em algum momento, os leitores desse texto podem ter se deparado com essa combinação de termos. Na França ela é normalmente empregada quando o interlocutor deseja emitir a seguinte colocação: saber viver. Olhando para a máxima, não é difícil de se chegar a uma tradução livre, dadas as similitudes silábicas e sonoras do léxico. Aliás, os franceses compartilham conosco de muitos elementos da grande área das línguas latinas quando se trata da expressão de sons, palavras, frases, ruídos etc. Entre nós, moradores de Pindorama, essa dupla de palavras (fonética e frenética) aparece eventualmente com certo senso de elegância ou mesmo de erudição. Uma certa elite blasé que ainda crê no renascimento dos antigos quatrocentões paulistas ou ainda pensa estar no meio da parca vida de salamaleques aristocráticos que a família real brasileira aqui mantinha no século XIX, tornou savoir vivre sinônimo de acordar, se dirigir à varanda de roupão e comer croissants servidos pelo mordomo da casa.

Para esse segmento abonado que sempre viveu às custas do “resto”, sabedoria existencial também é ter o privilégio de cruzar os oceanos, conhecer distintas culturas, ainda que as exortando, e fazer disso não motivo de enriquecimento das experiências sensoriais, mas de escárnio àqueles que ficam. Os propósitos então diferem. Saber viver, nessas concepções limitadas de classe, deixa de ser uma revisão profunda do modo como estamos conduzindo o nosso agir diário e passa a ser a posse de fetiches mercantis ou não, mas que nos dão cada vez mais poderes simbólicos e significativos. A pergunta título desse texto nos encaminha em outra direção: a do olhar para si mesmo e ao nosso entorno e ver de que maneira estamos acuados ou libertos de produtos discursivos plurais. Quase uma homenagem ao indivíduo (uma denúncia do homem – sentido universal – que já nasce amarrado por grilhões como dissera Rousseau), dirão alguns. Nem é só de denunciar modelos, como já fiz em outros textos, que se trata. É de dar conta dos âmagos em nosso ser.

Para a felicidade dos que desvendam mistérios, atrás da questão título há mais dois dilemas: afinal quem somos? ou quem gostaríamos de ser? As respostas para eles na grande maioria das vezes advêm das nossas pretensões materiais. Como se numa espécie de silogismo, pretensões materiais desembocassem, quando realizadas, em felicidade automática ou em preenchimento dos nossos vazios. Para a tristeza dos mortais, a agonia da existência, único mecanismo capaz de nos fazer refletir sobre a melhor maneira de viver, não é atenuada com tão pouco. Sim, a conquista das posses é diminuta diante da plenitude da vida. É preciso ir além. Não vou especular aqui nesse espaço as saídas para tais indagações. Cada um, em algum momento das suas vidas, vai ter que parar para encontra-las. Mesmo aqueles que estão submetidos à alienação sistemática se perguntam de fato para onde estão caminhando, principalmente naqueles gélidos momentos de agonia e dor.

Em Partner, filme de 1968 dirigido por Bernardo Bertolucci (considerado inclusive um dos melhores do diretor pela crítica especializada), o personagem Jacob encontra um outro eu, igual a ele fisicamente, mas desprovido de sua personalidade passadista. Seu sósia é um jovem revolucionário no melhor sentido da palavra, daqueles que surgiram aos montes na explosão que foram aqueles anos. Em certo momento do filme, que é repleto de referências a Marx, Freud, Godard e principalmente ao romance O duplo de Dostoiévski, Jacob (a cópia) diz que na verdade nós, os espectadores do longa, provavelmente não devemos estar entendendo nada do que se passa na tela. A provocação é correta, já que o cinema de arte do qual Bertolucci é um devoto requer um certo grau de referências, e de paciência, para que seja interpretado na sua integralidade. Após afirmar isso, o personagem nos provoca e afirma que ele é na verdade “aquilo que nós queremos ser”. Pede para olharmos para trás, para os lados, pois todos nós temos um eu que suprimimos e que gostaríamos de materializar nos espaços que compartilhamos. É nesse ponto que, para quem tem a oportunidade de degustar esse experimento estético radical, toda a esquizofrenia do roteiro montado pelo diretor faz sentido.

As coisas se encaixam no momento em que compreendemos que nossa existência anda longe, ou não, do tipo ideal que às vezes projetamos. Afinal, há um pouco da “velha infância” que sobrou em nós: ela nos dá chão para projetar as ilusões*. Os sonhadores andam de braços dados com os seus sonhos. Os amantes andam de braços dados com os seus amores. Os subversivos andam de braços dados com suas utopias. Sonhos, amores e utopias: eles podem ser imaginários, mas nós não os queremos abandonar pura e simplesmente. Deixar de tê-los em mente é emergir na aridez. Somente quando caminhamos, num horizonte infinito, em busca deles é que estamos sabendo viver. É quando descobrimos o que queremos ser, principalmente em relação ao “outro”, que tudo ganha uma cor diferente na nossa vida. Uma dimensão que nem mesmo nós que a sentimos sabemos explicar muito bem como se dá. Sendo assim, sem muitas respostas a dar para o meu leitor, termino com os versos de Clarice Lispector:

“Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado”

É preciso saber viver! (Alusão ao trecho da música original gravada por Roberto Carlos em 1974)

*”Ilusões” é aqui empregado não como algo irrealizável, mas como projeções de um futuro que ainda não vivemos e nem sabemos se iremos viver. Ter isso em mente é mais estimulador ainda para que façamos uma condução existencial correta.

REFERÊNCIA CINEMATOGRÁFICA

Título: Partner

Direção: Bernardo Bertolucci

Gênero: Drama/Cinema de Arte

Duração: 105 minutos

Nacionalidade: Itália

Ano: 1968

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER