quarta-feira, 5 de abril de 2017

Boyhood: Um filme sobre tudo, sobre nada, sobre a vida

Por: Erick Morais

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A vida possui um grande significado ou é apenas uma sucessão de acontecimentos? Existe um lugar para nós no universo ou estamos somente andando por aí, tentando encontrar um lugar mais confortável? Qual o sentido de tudo? Há uma resposta, um padrão, um destino? Ou estamos apenas sentido o agora, a força do tempo? As reflexões apresentadas são extremamente difíceis de serem respondidas, mas, apesar disso, em algum momento das nossas vidas, fazemos essas indagações e por mais que tentemos, dificilmente chegaremos a conclusões irrefutáveis.

A fim de percorrer essa problemática, Richard Linklater produziu durante doze anos uma obra de arte espetacular, o filme “Boyhood”, o qual consegue trazer todos esses questionamentos filosóficos de um jeito extremamente poético, algo que vi acontecer raras vezes de um modo tão belo, seja no cinema, seja na literatura. Aliás, a despeito disso, Linklater parece ter o dom de criar roteiros nos quais percebemos diálogos ao mesmo tempo cotidianos, reflexivos e poéticos; e melhor, de uma maneira tão natural que é impossível não ter algum grau de empatia com o que está acontecendo.
 
A narrativa do filme não possui um clímax, algo muito grandioso, talvez, por isso, seja um filme que nem todos gostem ou consigam entender a sua mensagem, que está em todo o filme, em cada novo acontecimento, que mesmo não sendo extremamente grandioso, impacta a vida e a leva por caminhos diferentes. Sendo assim, o filme é um amalgama entre o nada e o tudo. É sobre a vida, seu desenrolar, suas pequenas histórias, seus mistérios, sua precariedade, seu sentido (ou falta dele).
 
Embora a perspectiva principal do filme seja proporcionada por Mason Jr (Ellar Coltrane), todos os personagens são bem construídos e possuem o seu olhar sobre o que está acontecendo. A forma como Mason é desenvolvido, um garoto melancólico e observador (não é à toa que gosta tanto de fotografia), permite que o filme possua um recorte mais intimista e pessoal, já que o personagem foge a estereótipos e ao senso comum, assim como, acontece na construção de Forrest em “Forrest Gump”.
 
A passagem do tempo exerce uma influência determinante na história, uma vez que percebemos o modo como o tempo interfere nas nossas vidas: mudanças de comportamento, de gostos, de influências, de amizades, de amores, fechamento de ciclos e início de outros, maturidade, etc. Ou seja, o tempo é elemento vivo do filme, posto que, através dele conseguimos analisar o arco maior que forma a personalidade de uma pessoa. Isso é perceptível, por exemplo, em Mason (Ethan Hawke) que inicia o filme como um pai ausente e meio irresponsável, mas, transforma-se no decorrer do longa em um cara mais centrado, mais presente, mais maduro, sem deixar, no entanto, o jeito mais irreverente e solto, o que o transforma em um pai, apesar da distância, bem próximo e amigo dos filhos.
 
O tempo também é determinante no papel das escolhas, pois permite que percebamos de modo paulatino as consequências das decisões que tomamos. Sem dúvida, Olivia (Patricia Arquette) demonstra brilhantemente isso. Case-se duas vezes, muito mais por carência e conveniência que amor, com dois homens que inicialmente parecem legais, mas apresentam-se, com o passar do tempo, como bêbados, violentos, idiotas e perturbados; estuda alucinadamente procurando uma ascensão na sua vida material e profissional; compra e se desfaz de casas; e, por fim, apesar de parecer ser muito mais madura do que o pai dos seus filhos, faz escolhas piores que ele ou no mínimo tem consequências piores, o que a leva a extrema confusão e dor, em um dos melhores diálogos do filme, demonstrando o porquê de Arquette ter ganhado o Oscar e que a vida possui uma força muito maior do que somos capazes de entender ou controlar.

“Percebi que minha vida vai acabar, simples assim. A sequência de marcos da vida. Casar, ter filhos, divorciar. Aquela voz que achamos que você era disléxico. Ou quando te ensinei a andar de bicicleta. Outro divórcio, conseguir meu mestrado, finalmente conseguir o emprego sonhado. Ver a Samantha ir pra faculdade, ver você ir pra faculdade. O que acontece depois? A merda do meu funeral! Só achei que haveria mais.”

E nesse ponto que está o cerne do filme, ou seja, qual o sentido de tudo? Como reagir com a passagem avassaladora do tempo? Com a finitude? Por mais que tentemos e corramos, algo sempre fica sem ser feito, experiências ficam sem ser sentidas, como se nós quiséssemos fazer tantas coisas, estar em tantos lugares, mas a nossa condição precária não permitisse. Como reagir diante dessa precariedade? Como agir sabendo que a maior parte das coisas não são passiveis do nosso controle e que novas coisas acontecem o tempo inteiro interferindo diretamente no que desejamos?
 
No fim das contas, Olivia, a mãe, era tão confusa quanto seu filho, procurando ainda o seu lugar, um entendimento maior do que a cerca, uma completude maior da sua existência. Por mais que seja mais velha e mais experiente, os seus anseios são os mesmos do seu filho, de mim, de você e qualquer ser humano. Isto é, procurar sentir a vida mais profundamente, na sua essência. Entretanto, isso se torna complicado na medida em que a cada gota de areia que passa da ampulheta, vamos deixando de existir, vamos perdendo oportunidades, temos que enfrentar as consequências das nossas escolhas erradas, corrigir os nossos erros, tentando sempre fazer mais do que talvez tenhamos capacidade para fazer em uma vida dura e solitária como é cantada pelos músicos de um bar no filme.

“No dia que nasci, comecei a envelhecer. Ninguém me avisou que a vida seria tão solitária e cruel. Eu tinha cabelos brancos com 23 anos. Essa vida difícil vai acabar comigo. O corvo negro deixou uma marca no meu rosto. Aonde quer que eu vá parece que estou no mesmo lugar. Essa vida difícil vai acabar comigo.”

Assim como no filme, a vida não possui um grande acontecimento, no entanto, tudo que nos acontece possui importância e traz consequências para nós. A resposta final ninguém é capaz de dar, tampouco, somos capazes de sentir a vida por completo em todas as suas formas, de modo que sempre acharemos que deve haver algo a mais, até mesmo porque, um dia a areia acaba e o nosso ciclo se encerra. Entretanto, o mais importante é manter a chama que nos mantêm vivos acesa. Procurando, como Mason Jr, ser o seu eu por inteiro, sem padronizações, sem adestramento; procurando o seu lugar no universo; buscando interações reais; buscando a magia que há no mundo; e o mais importante, sentindo.
 
Sentindo dores, alegrias, tristezas, momentos que guardamos no coração e momentos que o destrói, momentos que trazem conforto à nossa existência e momentos que nos deixam confusos, pois a vida pode às vezes parecer tudo e outras vezes ser um grande vazio, mas o que nos diferencia de verdade e  permite senti-la da melhor forma possível é o modo como aproveitamos o momento e deixamos o momento se aproveitar de nós, já que quando nos formos, restará apenas o que fizemos no intervalo entre o tudo e o nada do grande espetáculo chamado vida.
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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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