sábado, 8 de abril de 2017

O Amour pelos Olhos de Michael Haneke

Por: Elienae Maria Anjos

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“Uma vez li num livro que o amor não existe para nos fazer felizes, mas para demonstrar o quanto é grande a nossa capacidade de suportar a dor.”
Alessandro D’avenia, Branca como a Neve,Vermelha como o Sangue

Até que a morte os separe”… Haverá no amor, terrivelmente banalizado, algo que dê suporte para enfrentar as dores da separação causada pela morte? Eu não sei, mas uma pequena frase da canção de Léo Jayme que diz: “Amor principio de tudo…” ficou sinalizando em minha mente durante as duas horas e poucos minutos em que acompanhei o filme Amour (2012), pela visão do diretor que tira o telespectador de sua zona de conforto após conhecer suas criações. Segundo a opinião de alguns críticos, os filmes desse cineasta e também roteirista, são bombas relógios preparadas para retirar a passividade que temos diante das mazelas e segredos que insistentemente não damos atenção porque são incômodos que não queremos enfrentar, basta apenas saber que eles existem. Com um enredo simples, maquiagem e vestuário básicos, conversas tensas e tendo praticamente como único cenário um grande e silencioso apartamento, afirmo que ninguém realmente conseguirá continuar a ser o mesmo após conhecer a história do casal de músicos aposentados: Georges Anne.

Então, quem é esse homem? Ele é Michael Haneke, austríaco, 74 anos com formação em psicologia, filosofia e ciência teatrais na Universidade de Viena. É chamado por alguns de “o artista do mal estar”. O que ele tem provocado de forma negativa em um significativo número de cinéfilos, em outros como eu, por exemplo, tem despertado grandes transformações à flor da pele, pois encontrei naquelas cenas, confrontos que me conscientizaram visceralmente sobre as fragilidades que existem em nós e foram representados por aqueles personagens que vestiram um pouco das muitas histórias verdadeiras, por isso então, mais uma vez a Arte imita a vida.

“A TV nunca pode ser uma forma de arte, porque ela atende às expectativas do público.”
Michael Haneke

Amour e Haneke surgiram em minha vida após a experiência vivida no falecimento do meu pai. Percebi então que aquela história estava muito além da impressão de que foi baseada em fatos reais, pois Haneke convida a todos, ainda que de forma brutal, a experimentar a junção entre o tempo real e a ficção. Suas ideias nunca são iguais e sempre chocam todo aquele que consegue assistir, porque em nenhum outro filme é possível encontrar tais inspirações. No entanto, algumas pessoas rejeitam reviver novamente certos abalos emocionais e outras fazem uso exatamente das palavras que o personagem Georges (Louis Trintignant) responde ao desespero da filha que quer saber o estado em que se encontra sua mãe, após o segundo AVC: “Não há mérito em mostrar tudo isso”

É fato que muitos pensam assim, pois que apreciação há em pôr os olhos em uma pessoa definhando lentamente? Perdendo a noção de quem é e o que fez… Que não compreende mais o que está escrito nos olhos de quem as observa, que já não sabe mais identificar os papéis principais em sua família, porque em seus delírios terminais, todos são estranhos ou todos se tornaram a “mãe” ou o “pai”?…

“Tudo isso é tão angustiante. Honestamente não há nada que possa fazer. Vamos ver o que acontece quando ela voltar para cá. Vamos dar um jeito. Talvez eu contrate uma enfermeira, talvez eu me vire sozinho. Vamos ver. Já passamos por poucas e boas, sua mãe e eu. Tudo isso é novidade.”
Georges

Meu pai chegou ao um nível tão crítico antes de partir, que cheguei a pensar algo muito triste observando o seu fim: quem passa por tamanha angústia de um vazio mental e dores sem fim, estranhamente é “feliz”, por ser poupado em não ter noção do estado precário em que se encontra… Pensamentos assim são tão fortes, mas reais e repetidas vezes se fez presente em minha mente, assim como é provável que o mesmo se deu com outras pessoas que já passaram por algo semelhante no contato com um idoso em seus últimos dias de vida.

Mas, quando estamos de frente para a tela Amour só podemos reviver ou nos surpreender com tudo o que há nele pela forma que o filme foi construído. O método usado não mistifica a história, ele explora a simplicidade que é comum nos cotidianos, mas em certos casos, isso incomoda o público acostumado com segundos e não longos e ininterruptos minutos de pensamentos, ações, reflexões e olhares, que são incomuns na maioria dos filmes práticos, de belíssimas trilhas sonoras e com rasas demonstrações da realidade. Essa tecnologia abre mão das canções e explora somente o tempo e os sons reais, nos unindo às precariedades humanas encontradas na vida de Georges e Anne de tal forma, que sentimos o que está além de nossa epiderme. Nossa audição percebe a distância da fala entre um cômodo e outro, o barulho dos talheres e da água da torneira. Sentimos e ouvimos seus esforços físicos em guiar a cadeira de rodas e o erguer do corpo limitado de sua esposa… Tudo nos faz respirar o cansaço de ambos, ouvir os passos arrastados e trêmulos de quem já não sente firmeza em suas pernas, por conta de seus 80 anos. Podemos até sensivelmente compreender as feições de todos, tanto que me entristeci ao observar que já expus a mesma face sobrecarregada de mal estar, piedade e espanto encontrados no rosto do ex-aluno de Anne, ao descobrir sobre a escassez de saúde em que a sua admirável professora de música se encontrava.

“Filmes que são entretenimento dão respostas simples, mas acho que isso é, em última análise, mais cínico, já que nega ao espectador espaço para pensar. É dever da arte fazer perguntas, não fornecer respostas. E se você quer uma resposta mais clara, vou ter que recusar”.
Michael Haneke

Foram exatamente esses impactos tão reais que me fizeram ser mais uma apreciadora das obras de Arte de Haneke, mesmo sabendo que seu dedo é posto em nossa ferida a cada filme lançado. Isso pode até ser visto como masoquismo, mas não compreendo dessa forma, porque a sua inspiração se conecta ao movimento de nossas vidas. Ainda assim me surpreendo em notar que ele não se incomoda em explorar essas bagagens humanas, apesar do negativismo de certas opiniões sobre seus trabalhos, aliás, suas ideias tem lhe rendido merecidamente milhares de premiações. Destaco somente alguns diante de tantos que ele tem sido privilegiado em receber: Melhor Diretor de Cannes (2005) por Caché, Oscar de Melhor filme Estrangeiro (2013) por Amour, Palma de Ouro (2012) por A fita Branca e Amour e o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Diretor por Caché (2005), A Fita Branca (2009) e Amour (2012) entre outros.

Ainda não conheço todas as obras de Haneke, mas compreender o amor pela sua ótica foi para mim uma das formas mais assustadora e bela que presenciei, por isso, acredito que seu principal objetivo como cineasta é nos levar a enxergar sem constrangimentos e medos os mistérios que ainda estão abafados em nossos esconderijos emocionais, e com certeza aguarda que nos tornemos pensadores, questionadores e não meramente telespectadores da vida e dos filmes.

Haneke-750

Filmes de Michael Haneke

Amour (2012)
A Fita Branca (2009)
Caché (2005)
O Tempo do Lobo (2002)
A Professora de Piano (2001)

Código Desconhecido (2000)
O Castelo (1998)
Violência Gratuita (1997) (foi refilmado em inglês em 2007)
O Vídeo de Benny (1992)

71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1993)

 

 

Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no blog Leituras da Paty.

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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