quarta-feira, 26 de abril de 2017

Mistérios do Além Mar

Por: Alberto Silva

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Reina no imaginário histórico que nos tempos de Aragão e Castela, as casas reais que se uniram em prol da unificação espanhola em meados do século XV, um astuto senhor que atendia pelo nome de Cristovão Colombo fizera brotar do íntimo das suas ideias a noção de que para além dos mares que banhavam a Península Ibérica algo mais estava disposto, notadamente inexplorado pela dita “civilização branca”, mas que permanecia um mistério para les hommes et femmes do Velho Mundo. Terras alheias, especiarias valiosas, frutos e flores nunca mencionados e personagens curiosos viviam do lado de cá, dentro de nuestra América (homenagem à Vespúcio, o colonizador) em contraposição ao lado de lá, que mesmo dentro das grandes universidades católicas criadas tempos antes, ainda continuava a enxergar o mundo de maneira estritamente circunscrita.

Da população, vítima da ignorância sistematicamente disseminada, aos sábios que tinham acesso aos livros predominava um clima de alienação e desconfiança. Talvez tenha sido nos poucos centros de produção do conhecimento fixados em solo do reino de Espanha que Colombo tenha sofrido a maior ojeriza quando disse, enquanto explorador e visionário que era, que o medo do que havia nos mares era ainda apenas uma convicção formada sem bases empíricas, embora só se fosse empregar o termo “empiria” stricto sensu um pouco mais tarde, no contexto mais específico do avançar da Revolução Científica Europeia, aquela que nós na terra verde-amarela, a colônia que nunca se libertou da colonização das ideias, aprendemos ter sido uma das notórias transformações mundiais ou universais. Universalismo esse restrito a uma meia dúzia de países.

De qualquer maneira, e comentários subversivos à parte (sim, pois nos tempos em que vivemos a verdade é transgressora), apenas o fato de desafiar as imagens de monstros e outras figuras diabólicas que emergiam nas águas como se dados da realidade fossem já concede um lugar especial para Colombo, creio eu, na história do pensamento. Sem nenhuma grande obra, mas com uma magistral aplicação do raciocínio. O seu ato de pensar para além do que está estabelecido nos parece pura obviedade, na medida em que vivemos numa era de transformações aceleradas, em que as descobertas não causam mais tanto furor como outrora. Mas Colombo concebeu experimentalismos possíveis em uma sociedade na qual a religião católica impunha, de maneira bem ou mal-intencionada, as medidas do certo e do errado, da força e da fraqueza, sem aberturas para a respiração.

Daí em diante, com Colombo no túmulo, que aportou nos terrenos que viriam a ser explorados para a felicidade de Aragão e Castela (seus reais financiadores), a Espanha ainda vivera uma época de ouro e mais tarde uma época de domínio sob o jugo napoleônico. Vivera também o fascismo vil e o retorno à monarquia na década de 1970 do século XX, uma restaurierung que vige naquele país até os dias de hoje. O elemento da religião ainda é uma força nas determinações culturais dos sujeitos espanhóis. Porém, não se imagina mais que o mundo é quadrado e que, portanto, desbravar os horizontes marítimos significa cair no vácuo espacial ou topar com dragões à lá Lago Ness. O catolicismo, no entanto, ou mesmo as demais religiões, incluindo as artes espiritualistas mais seculares, continua determinando um outro medo do qual não conseguimos nos desvincular: o da morte.

Os que estavam do lado de lá tinham a imaginação fértil para a projeção de todos os tipos de cenários para o que havia além da Europa. Essa simples ocorrência se dava porque não haviam chances palpáveis de explorar o desconhecido e retornar são e salvo. O que Colombo e seus homens fizeram, com todas as controvérsias que a historiografia possa apresentar, foi negar esse entrave e afirmar a possibilidade de um intercâmbio (me recuso a chamar de “descobrimento”) do além com o que aqui vivemos, presos no espaço-tempo determinado pelas imagens mentais circundantes. Para ele, o dilema era geográfico; a pendência que detemos é espiritual. Os ideais de transcendência que constituímos acerca do após vida são compostos por figuras bestiais ou angelicais, de momentos de agraciamento ou derrota, de julgamentos histriônicos (tal qual os egípcios concebiam mitologicamente).

A morte tornou-se uma grande elegia dos homens. Tornou-se e continua sendo: ato poético, literário e sublime contido no “imaginar” mesmo dos que não fazem arte. Os relatos dos que foram e voltaram não tem sido suficiente para desmistificações e esclarecimentos sobre a real dimensão do que está para além desse oceano que separa os que aqui habitam dos que já deixaram de habitar. Alguns podem teimar querendo dizer o contrário, mas talvez uma certa natureza humana permaneça entre nós, incontida nos seus anseios e dúvidas, concernentes à dimensão do real ou irreal. O exercício que Colombo fez é o que muitos astrofísicos, teólogos, astrônomos, sociólogos etc. tem tentado fazer. Creio no poder da ciência. Talvez não da noite para o dia tenhamos de modo objetivo as respostas que as religiões tentam dar há milênios. Mas é de tentativas que se fez o homem.

RECOMENDAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Deixo uma modesta indicação de filme sobre as agruras de Colombo para o leitor

Título: 1492 – A Conquista do Paraíso
Direção: Ridley Scott
Nacionalidade: Espanha/França
Duração: 154 minutos
Gênero: Aventura/Biografia/Drama/História
Ano: 1992

*A classificação indicativa do filme é de 16 anos. Uma pena. A película é uma verdadeira aula de história

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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