terça-feira, 2 de maio de 2017

Créme de la créme: A ditadura das imagens

Por: Alberto Silva

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As “sociedades tecnológicas” estão repletas do prodígio da promessa. A promessa de maior celeridade, as supostas certezas de que tudo aquilo que não está feito pode ser entregue pronto, a geração de expectativas nos sujeitos sobre a instantaneidade do conhecimento acerca dos fatos, globais e locais, permitida pelo compartilhamento constante que produz as chamadas obesidades informacionais, o preenchimento dos vazios que nos ocupam por meio da identificação com outrem que jamais vimos. Sobretudo, esses fenômenos estão imbricados com dois fatos extremamente consideráveis a serem analisados por quem esteja permanentemente instigado pelos problemas resultantes da complexidade social: a incapacidade individual de produzir mediações autônomas e a falsificação imagética que dia-a-dia nos causa torpor.

Entre o que é real, o que é simbólico e o que acessamos há uma diferença abissal. A verdade, conforme Badiou, é genérica (e no âmbito do conhecimento, portanto, infinita). Em uma escala própria, ela é o final de um trajeto onde uma série de eventos inomináveis e indecisos somados a um sujeito indiscernível, aquele que participa do processo de construção dos caminhos cognitivos, se encontram (BADIOU, 1994). A generalidade elaborada física ou metafisicamente não indica exatamente que as realidades vividas por mim e pelo outro não sejam algo palpável. A renúncia à razão e consequentemente à objetividade é frequente. Porém, interpretações dissolutivas como a de que os elementos materiais são meros produtos discursivos entram em choque diretamente com os dados existentes e mesmo com os inexistentes que se desejem explorar.

Logo, por real, podemos entender “aquilo que tem existência verdadeira e não imaginária”. O que é “relativo ou pertencente” a um mundo que transpõe as elaborações ficcionais humanas. Mesmo quando está na alçada do que nos cerca, a realidade é intangível na sua completude. Por exemplo: podemos ter acesso às características de algo ou alguém, o que não significa que estejamos a par da ontologia disso ou daquilo. Nem o sujeito, dotado de inúmeros aspectos, sabe ao certo aquilo que estrutura o seu âmago, tendo em vista a existência de um princípio da(s) inacessibilidade(s) (ARENDT, 1958). Quando esse processo de construção do real se dá de maneira distanciada, só podemos acessá-lo através do que dele é feito imageticamente. É a partir das representações, essencialmente midiáticas, que os indivíduos que estão à distância têm contato com o ocorrido e com o que está para ocorrer.

Em razão disso, a tão festejada globalização (exaustivamente estudada na década de 1990 nas universidades brasileiras), que dá às classes médias dos países periféricos a chance de universalizar as suas posturas de “ser sujeito” no mundo, é essencialmente um processo de constituição de símbolos do real que circulam via web à “velocidade da luz”*. O simbólico, elaborado a partir da maneira como se dá a representação dos acontecimentos ou dos indivíduos ainda sofre reveses, tendo em vista que se modifica por onde passa. Os símbolos não chegam puros até nós, eles são ressignificados por agentes de médio ou alto poder situados na esfera do controle das informações. São os símbolos desconstruídos ou depurados que vão parar nas mãos dos que consomem a informação disponibilizada. Dessa forma, o que se tem é um reino das imagens.

São as imagens feitas a partir do real que desaguam sobre nós após um certo caminho inerente às “sociedades tecnológicas” (termo mencionado ao início do texto). São elas que ditam o que é legítimo e o que não é, o que é verdade ou pós-verdade, qual é o padrão de beleza, de consumo, de felicidade, de comportamento – frente às mais variadas situações –, de humanização ou desumanização. São delas que se criam estereótipos ou se reforçam os já existentes. Com elas podemos sorrir, chorar, esquecer, lembrar. Isso tudo diz respeito a um conjunto de efeitos que muitas vezes nada tem a ver com a intencionalidade daqueles que as disseminam. Um olhar crítico sobre o processo exige ir na direção contrária, constituindo caminhos de inversão que minimamente compatibilizem o real, o simbólico e o sujeito. Quem sabe, dessa maneira, as “violências sem feridas” que são produzidas nos nossos dias por meio das imagens não sejam tão centrais.

*O recurso a essa categoria se trata de uma figuração linguística

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENDT, Hannah, 1906 – 1975. A Condição Humana/Hannah Arendt; tradução Roberto Raposo; revisão técnica e apresentação Adriano Correia. – 12. ed. rev. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.

BADIOU, Alan. Verdade e sujeito. Estudos Avançados 8 (21), 1994.

RECOMENDAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

O poder imagético da produção dos consensos ou dissensos via manipulação da mídia pode ser conferido no clássico “Network” (1976), vencedor de quatro estatuetas na premiação do Oscar em 1977. Um longa imprescindível.

Título: “Network” (Rede de Intrigas)

Direção: Sidney Lumet

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 121 minutos

Ano:  1976

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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