sábado, 6 de maio de 2017

A era de ouro dos musicais

Por: Alberto Silva

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Os circuitos de cinemas do mundo inteiro, inseridos em uma série de contextos aparentemente insolúveis, tem sido prolíficos nos últimos anos no que diz respeito ao lançamento de longas-metragens de grande destaque que tem feito pulsar e encantar não apenas a chamada “crítica especializada”, mas também o público de maneira geral. A beleza técnica somada à enredos inteligentes tem arrastado multidões para as salas numa espécie de revival ou redescoberta da magia representada pela sétima arte. Do Brasil tem partido um número cada vez maior de filmes potencialmente competitivos nos festivais dos países centrais, bem como tem crescido a criatividade dos diretores das películas apresentadas nos já tradicionais eventos do ramo no país como o Festival de Gramado (RS) e o Festival Internacional de Cinema do Rio (RJ).

Ao mesmo tempo, filmes do “trágico” Oriente Médio como os iranianos “A Separação” (2012) e “O Apartamento” (2016), ambos de Asgar Farhadi, chegam ao Oscar em condição premiada, ainda que com seu diretor tendo sido proibido de aportar nos EUA na última edição da cerimônia que é ao mesmo tempo evento político da classe artística norte-americana, conhecida historicamente pela defesa de valores liberais progressistas, e de entretenimento para os milhões de telespectadores ao redor do mundo. Na Europa, continente de onde há anos tem saído aquelas que são de longe as melhores produções do mundo (modesta opinião do autor do texto que não é nem um desses sujeitos que faz parte da crítica legitimada pela Folha), é em Cannes, Berlim, Veneza e outras cidades que há lugar para o melhor do cinema de arte que se contrapõe diretamente à indústria cultural de massas situada em Los Angeles (mas que constantemente tem surpreendido o mais raffiné dos espectadores). Na América Latina, filmes como o “Segredo dos Seus Olhos” (2012) deixam atônitos aqueles que o assistem tamanha é a boa contextualização (a história se passa durante a ditadura militar argentina) e a inteligência do enredo de suspense.

Na própria Hollywood, emergem os longas que já nascem clássicos em seu tempo como os criativos Birdman (2015) e La La Land (2016) do diretor Damien Chazelle. Particularmente, esse último foi apontado como uma espécie de renascimento dos grandes musicais. Chazelle, um diretor novato no showbiz, teve a capacidade de constituir além de um enredo romântico consistente entre duas pessoas que lutam dia-a-dia pelos seus sonhos mais profundos, uma grandiosa produção técnica repleta de referências aos musicais da Era de Ouro do cinema. Após muitos anos sem um musical com tanta relevância (vale destacar os filmes exclusivamente e irritantemente cantados dos anos 1990 e 2000 como “Moulin Rouge” de 2001, “Evita” de 1996 ou o fúnebre francês “Canções de Amor” de 2007, para citar alguns exemplos da chatice disseminada) os especialistas do ramo resolveram banhar de elogios, e merecidamente, a produção do jovem cineasta de 32 anos proveniente da cidade de Rhode Island. Entretanto, é importante lembrar que há um tempo não tão distante atrás musicais arrebatadores eram lançados quase que anualmente nas salas de cinema mundiais.

Esse texto tem como um de seus objetivos apresentar 10 deles, analisando brevemente o seu enredo e o seu diferencial para a história da musicologia na cinematografia que teve início nos idos de “Picolino” (1935) com Fred Astaire. Os filmes foram selecionados à gosto do autor, portanto podem haver muitas divergências, principalmente se algum cinéfilo (alcunha que eu não reivindico) decidir ler o que aqui está escrito. De maneira geral, os títulos descritos têm alguma relação com listas mais gerais preenchidas nas torres de marfim da crítica, fazendo com que a sequência não se torne tão subjetivista. Todavia, mesmo no alto, onde se produzem os discursos referendados, não está ausente um certo fetiche por períodos, nacionalidades e produções. Para isso, basta ver a lista dos 100 maiores filmes de todos os tempos produzidas pela Associação Nacional dos Críticos Norte-Americanos de Cinema*. A impressão é a de que não há bons filmes após a década de 1980. Com exceção de um “Senhor dos Anéis” (2001) aqui ou um “Titanic” (1997) aculá, somados à aparição curiosa de “Toy Story” (1999), o cinema teria morrido na época em que Woody Allen fazia seus primeiros filmes ou Kubrick estava no auge.

Dizer que houve uma “era de ouro” é algo com o qual concordo (isso está explícito no título escolhido para o texto). Afirmar que não há possibilidade de competidores para o que faziam Orson Welles ou Godard nos nossos dias é outra coisa. Polêmicas e fanatismos à parte, segue a lista que não é só para sinopses curtas e grossas, mas é também para a formação de uma espécie de bula de recomendações cinematográficas que abrilhantem o cérebro dos leitores.
O colunista diz com toda certeza que quem a seguir não sairá menos feliz após assistir esses musicais. Uma pipoca e um bom refrigerante ajudam na jouissance. A ordem dos filmes é temporal. Para além das emoções de quem os selecionou, aspectos como trilha sonora, cenografia, figurinos, performances, atuações e demais pontos contaram. Tudo na base do parco conhecimento sobre o mundo das filmagens. As obras são todas estadunidenses, já que a tradição de musicais é eminentemente advinda de Hollywood. Confira:

01 – O Mágico de Oz (1939): Estrelado por Judy Garland, conhecida também pelo musical “Felizes para sempre” (1944), o filme é baseado no livro do escritor L. Frank Baum. O enredo conta a história de Dorothy, garota capturada por um furacão no Estado do Kansas e carregada a uma terra fantástica habitada por bruxas, leões covardes, um homem de lata, espantalhos falantes, entre outras figuras fantásticas. É considerado um dos dez melhores longas-metragens de todos os tempos (a depender da lista aparece entre os cinquenta primeiros). Sem dúvidas, uma obra-prima da canção, da cultura e da imagem tida até hoje como um patrimônio nacional pelos estadunidenses (conforme considerações da Biblioteca do Congresso Americano). 101 minutos a serem preservados na memória de qualquer fã de cinema.

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02 – Cantando na Chuva (1952): “Singin in the Rain” é considerado o maior musical de todos os tempos em praticamente todas as listas categóricas. O filme, que mais parece uma daquelas belas pinturas feitas à mão, mas que na verdade se movimentam e constituem um desses longas épicos, conta a história da passagem do cinema mudo para o cinema falado, que ocorre no final da década de 1920. Don e Lina, casal famoso das telas na época dos filmes não falados, precisa se adaptar com as transformações de Hollywood para manterem o seu prestígio diante do público. Para isso contarão com o apoio de fonoaudiólogos e de Kathy, interpretada pela memorável Debbie Reynolds. A cena de Gene Kelly debaixo de chuva cantando “Singin in the rain” é o ponto alto da trama.

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03 – Amor Sublime Amor (1960): Sem dúvidas o meu favorito da lista. “West End Story” é uma espécie de unanimidade nas listas dos maiores musicais de todos os tempos montadas eventualmente por grandes revistas e pela reunião da crítica especializada. A história do filme se passa em um bairro multicultural da periferia de Nova York dividido por duas gangues. Numa espécie de “Romeu e Julieta” moderno, uma paixão proibida ocorre. Tony, antigo líder da gangue de brancos anglo-saxões Jets se apaixona por Maria, irmã do líder da gangue rival Sharks, composta por imigrantes de Porto Rico. A ruptura de fronteiras promovida pelo casal atiça o ódio e o confronto entre os dois lados da trama. Vencedor de dez prêmios no Oscar de 1962, três prêmios no Globo de Ouro de 1962 e no Grammy de 1962 (melhor álbum de trilha sonora de cinema e televisão).

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04 – Mary Poppins (1963): Estrelado por Julie Andrews, o musical de Walt Disney dirigido por Robert Stevenson é baseado no livro de mesmo nome escrito por P.L Travers. A história gira em torno da babá Mary Poppins contratada pelo frio banqueiro Mr. Banks e por sua fútil esposa Jane para cuidar dos seus filhos que haviam feito todas as outras desistirem do cargo. A partir daí, Mary torna a vida da família um mar de alegria, magia e diversão. É um dos meus favoritos, embora seja o mais fraco da lista. O teor infantil é notório; não se podia esperar algo muito diferente de uma produção da Disney. Recebeu 13 indicações ao Oscar, vencendo cinco delas. O longa foi a maior bilheteria do ano de 1964 arrecadando quase 20 milhões de dólares. A crítica é extremamente positiva até os dias de hoje, sendo aprovado por 100% dos usuários no site Rotten Tomatoes e tendo rendido um musical na Broadway que estreou em 2006.

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05 – Minha Bela Dama (1964): “My Fair Lady” contém uma das melhores atuações da carreira, se não a melhor, de Audrey Hepburn. Se já havia brilhado em “A Princesa e o Plebeu” (1953) e “Bonequinha de Luxo” (1962), é nesse musical que a atriz explora até os limites toda a sua performance, a sua elegância e o seu canto. O enredo conta a história de Eliza Doolittle, uma mendiga vendedora de flores em Londres. Descoberta pelo erudito professor de fonética Henry Higgins, Eliza, dona de uma voz terrível, passa a ser treinada para que em pouco tempo se torne uma dama da alta sociedade britânica.

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06 – A Noviça Rebelde (1965): O musical se passa durante a invasão da Áustria pelos nazistas em meados da década de 1930. “The Sound of Music” é mais um grande musical estrelado por Julie Andrews. Baseado no livro The Story of the Trapp Family Singers de Maria Von Trapp o filme conta a história real da família de cantores Von Trapp que ao contratar a babá Maria, freira saída de um convento extremamente rígido, tem sua vida completamente modificada na medida em que a governanta consegue ganhar o respeito das crianças e o coração do viúvo, pai das crianças. Além das relações familiar e amorosa, o enredo se centra na fuga da família para a Suíça em razão do confronto dos ideais políticos do pai das crianças com o regime nazista. O cenário principal é a bela Salzburgo, no interior da Áustria. Destaque para as músicas “My Favorite Things” e “Do-Re-Mi”.

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07 – Alô, Dolly (1969): Assim como os outros musicais da lista, “Alô Dolly” é encenada até hoje na Broadway, em West End e em teatros mundo afora. Recentemente, a cidade de São Paulo teve a sorte de receber a encenação com toda a pompa devida. O musical apresentado pela cantora Barbara Streisand (que também se destaca em “Funny, a Garota Genial” de 1968) conta a história de uma viúva casamenteira chamada Dolly que é contratada por um rico comerciante para que lhe arranje uma esposa em Nova York. Após uma série de confusões, encontros e desencontros é a própria Dolly quem tentara seduzir o milionário. As interpretações musicais de Streisand, a cantora recordista em vendas na América do Norte, dispensa comentários. Assim como dispensam comentários a elegância e a reconstituição de época dos cenários.

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08 – Um Violinista no Telhado (1973): O longa retrata a perseguição sofrida pelos judeus na Rússia czarista. O filme se passa em uma comunidade ortodoxa no interior da Rússia. Os elementos ressaltados no filme são a cultura judaica e todos os rituais que a cercam como questões existenciais relacionadas ao amor entre os integrantes do povoado, a autoridade paterna, o respeito às tradições, a violência simbólica e material perpetrada contra os indesejados e principalmente o choque entre novas e velhas gerações no judaísmo. A cena do casamento do alfaiate com a filha de Tevie é uma das mais sublimes da história dos musicais. Destaque para a música “Tradition” que abre a película e que nos faz lembrar dos contos literários do século XIX ou mesmo das fábulas de Esopo.

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09 – O Mágico Inesquecível (1978): O musical que tem dentro do seu elenco os memoráveis Michael Jackson e Diana Ross (que interpreta Dorothy, uma professora de crianças que jamais havia saído do mundo restrito representado pelo bairro onde vive em Nova York), é uma releitura de “O Mágico de Oz” (1939). Juntos, o leão, o homem-de-lata, o espantalho (em suas versões dos anos 1970) e a moça negra da cidade norte-americana trilham o caminho do misterioso mundo de Oz em busca de um mágico que atenda aos seus desejos, através de uma estrada de tijolos amarelos. Por esse caminho, transmitem aos espectadores a mensagem de que a realização dos nossos sonhos está ligada a um caminho que se encontra dentro de nós mesmos. Ademais, talvez seja o primeiro musical formado exclusivamente por personagens negros, o que faz do mesmo uma celebração da cultura afro-americana e do “realismo fantástico” mesclado à cenários coloridos e coreografias monumentais. Destaque para a música “On Down the Road” interpretada por Ross e Jackson. Um aprendizado sobre dança, diversidade e imaginação.

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10 – Hair (1979): O filme de Milos Forman é um manifesto pacifista. Embora tenha sido feito após a derrota dos EUA na Guerra do Vietnã, a história se desenrola no contexto de um dos maiores conflitos da Guerra Fria. Seu enredo tem início mostrando a contraposição entre a juventude nova iorquina hippie adepta dos valores de Woodstock (drogas, nudez, liberdade etc.) e o estereótipo masculino do caubói do interior do sul do país. Logo, desemboca em uma comédia dramática musical que põe em questão o choque dos valores individuais frente à premência da nação. Destaque para “Aquarius”, a mais bela música do filme e para a mensagem de respeito à autonomia dos sujeitos e dos povos denunciada na cena na qual milhares de pessoas se reúnem em manifestação em frente à Casa Branca.

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O objetivo da lista montada aqui não é a de apontar os melhores musicais de todos os tempos. Não há competência nem mesmo na crítica de cinema, embora adorem fazê-lo, para determinar escolhas subjetivas como se algo meramente técnico fossem. Cinema é emoção, sorriso, contemplação, medo. Não cabe nas listinhas de sábios. Uma boa crítica é sem dúvidas imprescindível, o que não signifique que seja verdadeira. Em “Life Itself”, documentário que retrata a vida e os últimos dias do maior crítico de cinema de todos os tempos Roger Eberts uma das informações valiosamente deixadas para os espectadores é a de que a crítica não é mais tão determinante para o sucesso ou derrota de uma película como já foi no passado. Com isso, são aqueles que frequentam as disputadas salas, e veem filmes em VHS, DVD ou BLU-RAY ou mesmo baixam arquivos nos seus computadores, os responsáveis pela glória ou infâmia de um longa. As caixas de comentários de sites especializados sem dúvidas tornaram o ato de “criticar” algo muito mais democrático. A lista acima é uma pretensão inicial de desenvolver nessa coluna recomendações de filmes para o leitor com base em gêneros ou temáticas específicas. E é claro, gerar o bom e saudável debate com os leitores sobre aquilo que está escrito. Desliguemos as luzes, liguemos as telinhas ou telonas.

*A lista do American Film Institute foi atualizada pela última vez em 2007, em uma série que teve início no ano de 1998 nas comemorações dos 100 anos do cinema. O ranking leva em conta apenas filmes feitos nos EUA.

Encerro o texto com a cena do musical “A noviça rebelde” (1965) na qual aparece a canção “The Lonely Goatherd”, adaptada pela cantora Gwen Stefani em 2006 na música “Wind It Up”.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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