terça-feira, 9 de maio de 2017

Nevando em Bali: O Mundo Inverso no Paraíso Tropical

Por: Elienae Maria Anjos

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“Bali pode ser o paraíso em um minuto e o inferno no seguinte. Você vive a fantasia, o sonho, mas um dia acorda. E no dia que acorda não sabe onde vai estar, em que tipo de inferno se meteu.”

Quando pensamos em paraíso, sempre somos visitados mentalmente por um cenário completamente perfeito, repleto de elementos tranquilizadores encontrados na natureza, com suas diversas formas de sedução expostas nas paisagens maravilhosas, seja em terra firme ou acima no céu com o brilho contagiante do sol que se contrasta com nuvens borradas ao redor de um azul misterioso, abrindo sempre um leque de degradê com a cor amarela, laranja e às vezes também com o lilás, visitando aquele espaço ao final de mais um dia. Essa mistura maravilhosa de tons toca as montanhas de tantos lugares lindos por aí, trazendo mudança no verde que começa a bailar por outros tons mais escuros anunciando a chegada da negritude da noite acompanhada por estrelas reluzentes… Esta é a tela que esperamos ansiosamente encontrar em algum porto seguro de muitos lugares que são pedacinhos do céu na terra, prontos a recarregar nossas energias e também repousar nossas vidas tão agitadas.

Tranquilidade assim existe em muitos lugares, por exemplo, falemos sobre a ilha Bali, um paraíso que se encontra na Indonésia, tão positivamente citada e mostrada através de belas imagens hospedadas no Google ou facilmente visto em filmes hollywoodianos, tipo Comer, Rezar e Amar… Porém, sejamos realistas, não precisamos de muito esforço para ter a certeza que não há paraíso na terra, assim como também sabemos que pessoas, histórias e vários fatos têm o seu lado sombrio guardado debaixo de várias chaves. Às vezes, é preciso uma visão especial para enxergar esse “mundo inverso” que aparentemente não é diferente do mundo rotineiro e calmo que a nossa visão alcança diariamente, porém, esse lugar do avesso que citei só pode ser visto nas obscuridades, por isso é preciso retirar a venda de nossos olhos e a camuflagem sobre algumas vidas que guardam fatos impactantes, inimagináveis, aguardando ou não o momento em que a casa um dia poderá cair, permitindo que cenas reais venham a tona diante de tantos noticiários e olhos estupefatos. Estas são algumas das muitas reflexões que tem rodeado minhas mente após a leitura do jornalismo investigativo Nevando em Bali. Um brilhante Best-Seller publicado pela Geração Editorial, fechando com chave de ouro a trilogia da escritora australiana, Kathryn Bonella, que iniciou sua pesquisa com No More Tomorrows, retratando a história da estudante Schapelle Corby, a prisioneira que se tornou ilustre e o segundo Hotel Kerobokan, com esse título irônico a autora nos apresentou sem reservas os acontecimentos bizarros que se passam dentro da prisão de Kerobokan.

Eu pensava que era o dono do mundo. Pensava que nada ia acontecer, sempre falava pra mim “nunca vou ser pego”. Às vezes, meus amigos falavam “ei, cara, economiza um pouco de dinheiro, um dia pode precisar”. Eu respondia “Foda-se, cara, eu nunca vou ser pego. Nunca”.

Com uma escrita extraordinária se desenvolvendo freneticamente do início ao fim, Kathryn Bonella consegue nos envolver em um crescente suspense-policial misturado ao terror, com muita adrenalina a cada capítulo repleto de confissões surpreendentes, tantas que muitas vezes me perguntava se estava diante de uma história fictícia, pois todos os depoimentos, citações jornalísticas e até mesmo fotos são tão surreais que se torna um tanto difícil aceitar ou concordar que tudo aquilo foi ou ainda é real, podendo estar acontecendo nesse exato momento em que vivemos esses segundos de escrita e leitura.

“Não é fácil pegar esses caras, mas, quando você pega, a sensação é ótima, é tão intensa quanto a dificuldade.” Delegado Caieron

O mais estranho é pensar que esses fatos aconteceram em Bali, um recanto tropical belíssimo, com moradores hospitaleiros, tendo ao alcance de turistas muitos hotéis cinco estrelas, lindos, grandiosos, enfim, um lugar sempre procurado por belos rostos e corpos de jovens aventureiros vindos de diversos países, inclusive o Brasil. A maioria são esportistas participantes de modalidades realizadas no mar, assim, nesse “paraíso” eles buscaram e encontraram ondas perfeitamente gigantescas, praias lotadas de pessoas ricas, belas e dispostas a pagar qualquer preço pelos seus sonhos. Com esse pano de fundo, aparentemente perfeito, Bonella começou a puxar a ponta de um fio sem fim de investigações a partir das suas primeiras publicações tecendo uma trama tão bem elaborada provocando em mim ansiedade e curiosidade de conhecer mais profundamente o submundo daquele lugar tão lindo e infelizmente contaminado. A cada virar de página recebia diante de meus olhos assustados os relatos de alguns profissionais do crime que ostentavam o status de serem grandes milionários, chefões do tráfico de drogas e de redes de prostituição.

Foi-me angustiante saber que toda essa corrida desesperada por um enriquecimento ilícito impediu que esses homens e mulheres conseguissem enxergar que a qualquer momento seus reinos de altíssimas riquezas poderiam ser encerrados, mas a ambição que os cegou afastou de suas mentes a grande verdade abafada pela arrogância e autossuficiência, assim, suas mentes rejeitavam sempre a trágica realidade sobre a pena de morte existente na Indonésia.

“Grandes criminosos, como produtores e traficantes, deveriam receber a pena de morte. Para mim, é melhor que uma pessoa receba a pena capital do que ver uma comunidade inteira viciada em drogas.” Megawati Sukarnoputri (Presidente da Indonésia em 2001)

Percebi também que Bonella de jornalista passou a ser em muitos momentos uma visitante querida e confidente para aqueles condenados, pois eles encontraram nela segurança e confiança para compartilhar seus segredos obscuros, vergonhosos e incômodos para os moralistas. Ela não estava ali para julgar ou condenar, ela foi uma escritora belissimamente ouvinte. Conforme as peças desse triste quebra cabeça se uniam, histórias se desenrolavam mostrando mais uma vez a realidade que todos nós sabemos que há na liberdade mal usada unida à mentalidade distorcida sobre valores humanos e podem rapidamente empurrar muitos inconsequentes para um abismo real e doloroso.

“Você está sendo liberado porque este país é uma merda. A Polícia Federal passou três anos te procurando, três anos para te pegar, e agora você paga esse advogado filho da puta e pode sair – um traficante grande como você de volta às ruas. Estou com nojo da minha profissão.”

Que impressões ficaram em mim ao findar da leitura? Afinal, nunca lemos um livro para depois facilmente esquecê-lo, nós precisamos pôr em nossas vidas as experiências lidas, seja no agora ou em um futuro que poderá acontecer amanhã, o que não quero é fechar meus olhos diante dos sentimentos que vivi nas descobertas viscerais e cruciais expostas através de uma linguagem precisa e mesmo que eu tenha tocado minhas rodas por um trilho de revelações assustadoras, por exemplo, a surpresa desagradável da quantidade de cidadãos brasileiros que fizeram parte da destruição de vidas em máfias nascidas pela ganância e vícios…

Nevando em Bali não é uma leitura fácil, é extremamente tensa e que prende a cada parágrafo, mas a minha curiosidade me fez ficar conectada a ele por horas, em rápidos dias até alcançar um final surpreendente, um pouco mais do que vivenciei desde o seu início e por isso diante de alguns pontos importantes finalizei a leitura em lágrimas. Chorando por aquelas vidas do passado e pelos jovens e adolescentes de hoje envolvidos nesse mundo obscuro por toda a parte do mundo, seja ali em Bali, aqui em Angra ou em tantos outros lugares. Infelizmente novos ou antigos continuarão atrás da neve destruidora, sem pensar muito, levando suas vidas para as profundas águas das escolhas erradas que muitas vezes não tem volta. Esquecendo tão facilmente que por trás dessas alegrias haverá um extenso capítulo manchado de sangue, violência, depressão e destruição, como você descobrirá ao adentrar por esse extraordinário portão literário.

“Eu ainda me arrependo de todas as merdas que pessoas sofreram por minha causa, direta ou indiretamente, porque eu era uma ferramenta, um mecanismo, uma peça de engrenagem. Se pudesse voltar no tempo, nunca mais entraria nessa… comecei a me dar conta de que a gente não precisa de muito para ser feliz.”

 

Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no site Leituras da Paty.

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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