sábado, 13 de maio de 2017

O Poder da Leitura: A Palavra é o meu Domínio sobre o Mundo

Por: Elienae Maria Anjos

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“A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.”

Eu gosto das lembranças, das memórias profundas, porque acredito que é necessário usarmos nossa mente para resgatar algumas faíscas do passado e tentar curar ou nos adequar em certas realidades do presente, passando experiências para quem aguarda ouvir algo de nós, mesmo que tenhamos vivido momentos pesados e tristes, afinal, só crescemos, superamos e buscamos realizar sonhos, depois de subirmos extensos degraus ou nadarmos contra a correnteza da vida. Então, vou lhes contar uma das muitas lembranças significativas que existem e tiveram o poder de mudar uma vida. Em um passado distante um casal havia decidido morar em um local com infraestrutura adequada para que a sua caçula, que é cadeirante, tivesse acesso a escola, morando, obviamente, próximo a escola. Planos perfeitos e muito bem elaborados para inserir sua filhinha “no mundo”, porém, eles pensavam que a sociedade poderia estar preparada para atender o “diferente”, mas, se o olhar, o coração e as intenções não forem voltados para o ser humano, de nada vale as modernidades que se atualizam ano após ano na selva de pedra… E por causa da falta de um olhar especial, aquela criança aos sete anos, não foi aceita na escola, porque não poderia existir contato entre uma cadeira de rodas e as outras crianças “normais”.

Seus planos se frustraram e então voltaram para Angra dos Reis, tendo ainda em suas mentes a preocupação com a educação de sua filha. Enquanto uma solução melhor não surgisse, a menina se desenvolvia mais e mais pelo caminho da arte, fazendo precocemente autorretrato de visitantes ou parentes. Desenhando, pintando e recortando sempre com o auxílio de alguns objetos que sua irmã comprava. Acredito que ela nem imaginava que estava incentivando uma cópia em construção de Frida Kahlo enquanto ocupava as horas daquela criança impedindo a existência de lacuna em seus dias, assim aos poucos, ela presenciou o nascimento de mais uma artista plástica, porém, autodidata.

“Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”

E foi esta mesma irmã que teve também a magnífica iniciativa de organizar alguns materiais didáticos para formar na cozinha e varanda de sua casa uma pequena amostra do que seria uma sala de aula. Assim aos 9 anos de idade, a menina foi alfabetizada, tendo somente como ferramenta uma cartilha, um quadro negro simples e pedaços pequenos de giz que seus irmãos traziam. Aquela irmã que nem sonhava ainda em ser educadora, sugou totalmente a cartilha e se doou ao máximo para abrir a mente de sua pequena aluna, ensinando-a a ler e escrever. Ambas conseguiram superar o novo e aprender a vencer seus obstáculos! Mas, ao encerrar a cartilha, o que mais poderia fazer? Um caminho foi descoberto, a porta da liberdade se abriu, não havia mais mistérios naquelas letras que apareciam em sua TV, mas, a fome de aprender nunca se sente saciada quando uma mente se dispõe a acolher mais informações, e foi assim que aquela criança percebeu que estava com medo de esquecer tudo o que aprendeu. Como forma de não voltar à estaca zero, ela se agarrou a uma ideia que esta mesma irmã passou: pratique sua caligrafia, isso te ajudará a melhorar sua letra e também a fixar o que aprendeu. Pegue livros, o que puder encontrar e leia, leia muitos livros, isso também te ajudará a desenvolver a escrita, a leitura, a falar melhor e ampliar mais ainda o seu mundo.

Consequentemente sem nunca ter frequentado escolas, sem ter a noção do que é ortografia, gramática ou outras regras da língua portuguesa, a menina cresceu e evolui através da leitura de diversos livros que buscava insaciavelmente. Adorava as imagens coloridas e os cheiros dos gibis da Turma da Mônica, Luluzinha e das HQs da Disney. Depois dos gibis passou a ler livros voltados para adultos porque não havia em sua casa leituras apropriadas para a sua idade. Mas isso não lhe importava, porque a magia de poder compreender a união das letras era a sua maior alegria… Ela nunca esqueceu quando leu Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, tendo ao seu lado um dicionário rs… E quando começou a viajar através da mente, criando fantasias a partir de todos os livros que chegavam a sua mão… Participou de gangues de meninos e meninas pela fantasia do livro Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár

Morou em uma pensão e brincava sempre com a menina Clarissa. Logo depois conheceu a vida de um médico pobre e ambicioso, na história de Eugênio Fontes em Olhai os Lírios do Campo, ambos escritos por Érico Veríssimo

Emocionou-se com a história do menino Zezé do livro O Meu Pé de Laranja Lima e mergulhou nas águas límpidas das praias descritas no livro O Garanhão das Praias, os dois do escritor José Mauro de Vasconcelos

Diversas vezes ela se sentiu heroína, ladra, amante, amiga e amada incorporando as mulheres que sempre foram personagens principais das tramas de Sidney Sheldon… Virou moradora de rua, teve asas, investigou assassinatos e desvendou vários mistérios nas ilhas e nas matas passando pela Coleção Vaga-Lume e pelas inspirações de Agatha Christie… Entre tantas personagens significativas, ela escolheu como modelo de vida ser somente a Raposa do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint Exupéry, e por isso não desistiu de tentar interagir com os humanos, os observando o suficiente a distância antes de se aproximar. Aprendeu o valor da conquista e mesmo com certa dificuldade não abriu mão de preservar em sua vida, que é a toca e o campo de trigo maduro a presença de algumas rosas e príncipes.

Com passar dos anos conheceu muitas outras literaturas, outros nomes de autores entraram para o seu círculo de amizades além da distância, do tempo e da existência. Da infância à adolescência cresceu e se amadureceu ao lado dos papéis escritos com tinta preta, conhecendo a vida e seus mistérios com o auxílio de seus amigos imaginários que marcaram sua história e ainda hoje desempenham o papel de ensiná-la viver, porque sempre temos algo a aprender..

“O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.”

Olhando para o momento em que me encontro, estou certa de que aquela menina de muitos anos atrás, sem ter noção, usou o medo ao seu favor, sugando com seus olhos e mãos todas as literaturas que lhe salvaram, buscando o que estava sempre além do fixar em sua mente as vogais, as consoantes, as palavras e pontuações. Vivenciando essa transformação experimentei um tipo de construção feita de livros até chegar aqui, no presente em que vivo, com passos lentos e sem receio esse novo caminho, o de ser escritora.

Sou a menina do passado e também sou esta mulher silenciosa e pensante do presente, que pouco expõe as emoções, mas, que não se embaralha mais nas reflexões sufocadas, pois ao escrever aprendi a liberá-las para o mundo em um papel virtual e por fim aceitei a seguinte verdade: sou um rascunho em eterna revisão pelas mãos da vida, desde que a própria me deu a oportunidade de publicar histórias, vidas, análises, opiniões e outras genialidades pelos blogs. Encontrei nesses estímulos o que necessito para não perder a sensibilidade de sonhar e de ter esperança, mas ainda me esforço em não emprestar meus ouvidos ao negativismo, aliás, sempre estive muito ocupada na companhia dos meus livros, por isso, nunca precisei ouvir os pensamentos e as opiniões contrárias sobre as realidades da minha existência. Se hoje vivo, foi por um escape que não busquei, porque antes disso ele já havia me procurado e encontrado.

Todas as citações são de Clarice Lispector, minha Diva.

Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no site Leituras da Paty.

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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