domingo, 21 de maio de 2017

Ensaio Sobre a Lucidez (?) de um Povo chamado Brasil

Por: Erick Morais

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Vivemos em uma sociedade fragmentada, o que não é de se estranhar já que ela é construída e sustentada sob o pilar do individualismo. Na selva de pedra o que vale é o cada um por si e ninguém por todos. Dessa forma, todos se sentem confortáveis para exercer a sua liberdade individual, enquanto o coletivo respira por aparelhos. Aliás, nessa ótica, o coletivo sequer precisa existir, afinal, quem precisa dos outros quando pode se fazer por si mesmo? Entretanto, se o homem é um ser social, ele necessita da vida em comunidade, o que, a meu ver, estabelece um paradoxo com a estrutura de mundo na qual habitamos (ou apenas sobrevivemos?).

A crise política que o Brasil atravessa e que parece estar longe de terminar, traz, para aqueles que se permitem refletir criticamente, questionamentos sobre o modo como a nossa sociedade está estruturada. Obviamente, existem muitos refletindo sobre o cenário político atual, todavia, há uma diferença grande entre estes e os que me referi acima. A diferença está na capacidade crítica, e neste ponto não quero criar mais cismas entre nós, e sim, tentar demonstrar quão distantes de uma problematização mais profunda ainda nos encontramos.

Todos os movimentos que durante esse período foram para as ruas possuem a sua legitimidade, ainda que possamos ter ressalvas ou discordar total ou parcialmente dos mesmos, afinal, é esse diálogo entre opostos, entre contradições, que sustenta – ou pelo menos deveria – sustentar a democracia. E valendo-me da democracia, permito-me inferir as minhas impressões sobre tais movimentos.

Antes de qualquer coisa, reitero a ideia de que independentemente da minha opinião, eles possuem a sua legitimidade, no entanto, eles demonstram a fragmentação colocada no início do texto e, pior, pautados em grande medida pelo ódio aos seus opostos mais evidentes. Neste momento é preciso recuperar as palavras de Voltaire, pois mesmo que tenhamos o direito de discordar de opiniões, pensamentos e ideologias que não se coadunam com as nossas, isso não significa que também temos o direito de cercear a liberdade que os outros possuem de expressar as suas cosmovisões. Pelo contrário, devemos defender a materialização de que todos possuem de se expressar, afinal, como já dito, esse também é um dos fundamentos da democracia.

Ademais, já está mais do que comprovado que tanto a direita, quanto a esquerda (se é que assim podemos chamá-las) estão sujas até o pescoço com a lama da corrupção. Há de se entender, então, que reflexões que procuram demonizar um lado em detrimento do enobrecimento ou expurgamento do outro, carece, no mínimo, de crítica. Sendo assim, quando pelos mais diversos fatores, inclusive ódio, acreditamos que a solução para a crise é a escolha de jogadores diferentes entre os que participam do mesmo jogo, estamos tão somente reproduzindo um discurso ideológico fragmentário que, isento de qualquer senso político, não consegue ter um olhar amplo para toda a sociedade.

É exatamente neste ponto que se diferencia uma análise crítica, não isenta – mas afastada ao máximo de paixões – das “análises” pautadas apenas de um lugar social que não se esforçam minimante para enxerga os demais. E é bom que se diga que essa cegueira não é exclusiva de um lado, esse determinismo é de uma fragilidade e desonestidade intelectual sem tamanho, mas inerente aos dois.

Desse modo, o grande ponto que se coloca é em que sentido a soberania popular tem sido exercida pelo próprio povo. Diante do exposto, parece haver uma reafirmação dos individualismos, dos reinos dos particularismos, dos interesses pessoais e classistas, enquanto o coletivo, o popular, continua sendo mal visto, malnutrido e malcuidado. Quem agradece evidentemente a essa ruptura e a esse estado de ódio entre “petralhas” e “coxinhas” é a própria classe política que de tempos em tempos atualiza o cogito da dominação baseado no “dividir para dominar”.

E isso fica evidente quando pedimos “Diretas Já”, dado que, ao tomarmos atitudes como essa, jogamos novamente os holofotes sobre figuras que há décadas fazem parte do mesmo jogo sujo que temos a “oportunidade” de acompanhar em tempo real, procurando trazer à tona salvadores da pátria, o que historicamente já se comprovou inúmeras vezes “ser uma furada!”, para utilizar um termo bem popular que vem a calhar perfeitamente.

E, assim, em uma quebra de braço marcada por individualismos, o coletivo perde mais uma oportunidade de ser realmente pensado, afinal, se o problema está na estrutura, não adianta trocar as peças da engrenagem, é necessário que a própria máquina seja modificada. Como se faz isso? Com reformas, que formavam o pilar das reivindicações em junho de 2013 e que, posteriormente, sucumbiram aos interesses partidários, os quais encontram acolhida nas mentes de indivíduos que podendo olhar não veem e podendo ver não reparam.

Se olharmos para o passado, entretanto, encontraremos exemplo semelhante, quando reformas mais do que necessárias foram colocadas em pauta e, então, um golpe se instaurou, inclusive, com o apoio da sociedade civil. É hora de escolher se queremos continuar repetindo a história ou se queremos transformá-la. É hora, então, de romper as amarras que veneramos, entendermo-nos enquanto sujeitos e derrubar a ditadura que após a “redemocratização” continuou existindo nas terras tupiniquins.

Para tanto é imprescindível que compreendamos que a “liberdade” que se exerce sozinha permanece em um vale de escuridão e, portanto, é uma liberdade que esbarra nos limites da cegueira, tornando-nos perdidos, sozinhos e oprimidos no meio da multidão de cegos, que acreditando ser livres, permanecem presos aos limites da sua ignorância. Não é possível exercer de fato a democracia sem liberdade e esta só existe quando a concebemos em coletividade.

Assim, ao vivermos na ditadura do capital, comandadas pelas elites político-empresariais, estamos cerceados da liberdade, da cidadania, da coletividade, da soberania popular e, por conseguinte, da democracia. Em outras palavras, estamos cegos, lutando pela continuidade da nossa desumanização, embora devêssemos lutar por um sistema de humanização, em que possamos encontrar no outro a condição humana que queremos, de modo a tornar sempre acesa as chamas da lucidez.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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