quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Big Brother chamado GLOBO

Por: Erick Morais

post

Em tempos de crise e desesperança é sempre importante retornar aos clássicos, já que neles conseguimos encontrar muitas das questões que nos rodeiam e atormentam, ajudando-nos, portanto, na elucidação desses problemas. Nesse sentido, encontramos nas palavras de George Orwell um caminho sobre o qual podemos caminhar, haja vista a sua enorme capacidade de enxergar o futuro.

Nas obras de Orwell aparece um elemento fundamental: a linguagem. A linguagem é um traço fundamental dentre o que constitui o homem. É por meio da linguagem que damos nomes às coisas, que as atribuímos significados e, por conseguinte, construímos as verdades. Antes de prosseguir, é bom que se diga que o presente texto não trata sobre a questão da verdade (sobre relativismos e objetividade), mas antes, sobre a forma com a linguagem se relaciona com a verdade, pois sendo esta objetiva ou meramente subjetiva, fato é que a concepção que temos acerca da verdade das coisas passa pelo campo semântico, o qual é dado pelas palavras.

Além disso, a linguagem também é o elemento que permite a comunicação, aqui entendendo-se linguagem em sentido amplo. Ou seja, é o que permite que haja trocas de signos entre os interlocutores. Sendo assim, há de se entender que os meios de comunicação compreendem muito bem como se dá essa dinâmica das palavras, por assim dizer. Bem como, recorrem constantemente à utilização de elementos que possam potencializar as suas falas, a fim de introjetá-las nos indivíduos como se fossem as verdades definitivas sobre aquilo que se fala.

No entanto, o que realmente se torna um problema não é a utilização de elementos que amplifiquem a sua voz, mas a volatilidade e incoerência com os seus discursos, o que cria um paradoxo ante verdades que em determinados momentos são colocadas de maneira tão objetiva. Talvez, o grande exemplo disso seja a rede Globo de televisão, o que faz com que alguns a comparem, e eu me incluo nesse grupo, com o Big Brother da obra “1984” de Orwell.

Assim como no livro, a Globo exerce com muita força o uso da linguagem, o que chega a ser monopolizador em muitos momentos. E como vimos, se é por meio da linguagem que atribuímos significado às coisas, é necessário também entender que quem possui a linguagem, possui poder. Os sujeitos que não possuem ou têm o uso limitado da linguagem estão em uma condição menor dentro das relações de força que se constroem na sociedade. Um exemplo nítido disso dentro da nossa literatura está em “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, em que os despossuídos materialmente e juridicamente, são os despossuídos das palavras, incapazes de significar o mundo e entender o seu significado; sendo, então, indivíduos abaixo da condição humana de nomeadores das coisas.

Desse modo, ao possuir o poder que a linguagem permite, tanto o Big Brother orwelliano quanto o tupiniquim exercem o controle, pois as verdades a que as pessoas têm acesso acerca de uma infinidade de coisas provêm daquilo que os donos das palavras determinam como verdade ou não. E servindo exclusivamente aos seus interesses, as “verdades” construídas por meio da linguagem mudam constantemente, basta que os interesses supracitados mudem. Assim, de acordo com os interesses que venham a melhor calhar no momento, a Oceania pode estar em guerra com a Eurásia ou com a Lestásia (desde sempre), ou pode-se ser veemente a favor de um governo e noutro momento – como num passe de mágica – ser contra o mesmo governo que outrora apoiava.

Não é preciso dar o exemplo do governo atual, afinal, isso não se esgota nesse exemplo, pelo contrário, é algo recorrente na história – ainda que isso não seja tão transparente, uma vez que tendo controle sobre a linguagem passa-se a ter controle sobre a própria história, não à toa um dos lemas do Partido em 1984 era: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.

Em outra obra de Orwell, “A Revolução dos Bichos”, já encontramos esse uso da linguagem como um personagem importante na construção da história (em sentido duplo, de estória e História); posto que os mandamentos, colocados inicialmente como dados objetivos, são constantemente mudados a fim de fortalecer o poder dos porcos e, consequentemente, o controle destes perante os demais animais da Granja. Até mesmo o nome da Granja, que se inicia chamado “Solar” e torna-se “dos Bichos” após a “revolução”, torna a se chamar Solar, como se em momento algum tivesse deixado de ter esse nome. E diante de tamanho absurdo, os outros animais, limitados no seu uso da linguagem, apenas aceitam a verdade colocada, afinal: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”.

Assim como nas estórias de Orwell sempre existe alguém ou grupo determinando as verdades que devemos acreditar e as normas que devemos seguir, nesta terra também existem os “donos das palavras”, encontrando na grande mídia, sobretudo na Globo, muitos dos seus senhores. Obviamente, nem tudo que acontece é da responsabilidade deles, mas é necessário compreender em que medida muito do acontece também passa por seus jugos. Entretanto, acima de tudo, é preciso buscar entender em que medida muito do que acontece passa por nós, que apenas ouvimos quando deveríamos falar, e apenas fazemos quando deveríamos dizer “por quê?”. E sei que nem todos querem se levantar do sofá, o que não anula o que disse, e sim fortalece, afinal, você que conseguiu se levantar, o que tem feito? Tem vivido a sua liberdade sozinho ou tem procurado falar mais alto que as televisões? Em tempos de desesperança, é preciso ser luz, por mais que a escuridão seja profunda, pois: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.

 

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER