domingo, 4 de junho de 2017

Sobre o Amor Fati: “nada desejar além daquilo que é”

Por: Juliana Santin

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“Eu escolheria rever você a ir para Londres”. Essa foi a frase que disse a uma amiga que mora em outra cidade e de quem eu estava com saudade um dia desses. Ela, obviamente, retrucou imediatamente. “Nem eu me escolheria quando tem Londres no meio.” Essa resposta por si só já valeria um texto. Afinal, você escolheria você mesmo em que situações? Qual é o seu valor para você? Você acha que vale mais ou menos que Londres? Ou que o status de uma viagem internacional? Mas não é sobre autoestima que quero falar. É sobre a vida real em oposição à vida ideal, aos afetos em oposição ao acúmulo de bens materiais e valores imateriais.

Talvez não tenha ficado claro para ela nessa minha afirmação que eu estava considerando uma única possibilidade, ou seja, se eu tivesse que escolher apenas uma última viagem nessa vida, sem opção de ter os dois. Se soubesse que vou morrer daqui um mês e me fossem dadas as duas opções: ir para Londres ou passar uns dias com ela, minha escolha seria obviamente, ela.

Claro, isso não existe de fato, pois ninguém precisa escolher entre Londres e a amiga antes de morrer, certo? Bem, na verdade, é isso que fazemos o tempo todo. Ora, mas eu não vou morrer daqui um mês e posso me encontrar com ela depois de Londres, poderia retrucar alguém, a quem eu responderia: como você sabe?

Eu sei, parece trágico, mas é a vida real. Sempre que fazemos escolhas na vida, elas podem ser as últimas. Por isso, é sempre muito, muito importante que essas escolhas sejam feitas com base em valores muito sólidos. Disse à minha amiga que quando eu estava na cama de hospital morrendo de medo de não acordar mais, a única coisa em que pensava naquele momento era em meu filho, que na ocasião tinha 6 anos. Não era em Londres que eu pensava; nem em nenhuma outra viagem que desejei fazer ou que fiz.

Poucos dias depois dessa conversa com ela, vi uma tirinha em alguma rede social em que um amigo diz para o outro que tem um biscoito. O outro responde que tem carro, casa e muitas roupas. O primeiro pergunta: mas você tem um biscoito? Resposta: não. E o biscoito é repartido entre os dois. Achei que essa tirinha mostra muito bem os diferentes valores das coisas. Se você está com fome, não vai adiantar nada você ter roupas chiques nem um carro da moda. Uma viagem a Londres eu posso comprar – eu e mais um monte de gente -, mas o afeto da minha amiga não tem como ser comprado com dinheiro. O afeto mata nossa fome e pode ser compartilhado, como o biscoito. E, mesmo que tentemos negar isso, todos temos muita fome de afeto e sabemos que não podemos adquiri-lo em 12 vezes sem juros no cartão. Um amigo que reparte o biscoito com você não tem preço.

Fiquei pensando muito sobre a enorme dificuldade que temos no tal do Amor Fati, do Nietzsche, e em como somos tão absolutamente escravizados pelo amor de Platão. O primeiro diz respeito ao amor pela vida como ela é, ou seja, amar a vida no presente, amar o mundo como ele se apresenta a você, amar a amiga que você tem na sua frente e que lhe sorri com os olhos ao invés de amar a ideia de uma viagem a Londres. Claro que viajar é legal. Eu adoro viajar. Mas rir até ficar com dor na boca dentro de um carro em uma noite que termina em pizza ou receber mensagens de áudio que lhe fazem rir alto em plena manhã, coisas que somente um amigo pode lhe proporcionar, tem outro valor.

Platão definia o amor como desejo e esse, por sua vez, por algo que não temos. Então, para Platão, amamos o que desejamos e desejamos o que não temos. Em outras palavras, minha amiga ama mais Londres, porque ela não tem essa viagem. Se ela se mudasse para Londres sozinha amanhã, tenho quase certeza absoluta que uma amiga poderia ser seu maior desejo em pouco tempo. Londres não lhe falta mais, portanto, agora ela ama aquilo que não tem.

Já o Amor Fati de Nietzsche é completamente oposto a esse, já que ele preconiza o amor pela vida real, pelo mundo de verdade, de carne e osso. O mundo que se apresenta a você que, no final das contas, é o único mundo que existe de verdade. Quando estou conversando com minha amiga, mas minha cabeça está em Londres, a realidade é que somente ela existe de verdade para mim naquele momento; Londres é apenas uma ideia, um desejo, um ideal.

Minha fórmula para o que há de grande no homem é amor fati: nada desejar além daquilo que é, nem diante de si, nem atrás de si, nem nos séculos dos séculos. Não se contentar em suportar o inelutável, e ainda menos dissimulá-lo — todo idealismo é uma maneira de mentir diante do inelutável —, mas amá-lo.” (Nietzsche).

Mesmo quando o mundo que se apresenta para nós é ruim, enquanto amarmos o mundo que não temos, o mundo ideal de Platão, continuaremos sendo infelizes. Por exemplo, há pouco mais de três anos, meu pai faleceu. Claro que eu preferiria um mundo em que meu pai estivesse vivo, mas se o único mundo que amo e que me causa alegria é o mundo com ele vivo, infelizmente estou condenada a ser infeliz para sempre, pois esse mundo não existe mais nem nunca mais existirá. Aceitar com docilidade, como dizia o psiquiatra Flávio Gikovate, as coisas que não dependem da gente e que não têm solução, é condição essencial para a felicidade.

Há alguns dias, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do professor Clóvis de Barros Filho aqui na minha cidade. Ele falou justamente sobre a vida que vale a pena ser vivida. Ao final da palestra, ele faz a pergunta: mas como sei que a vida que escolhi viver é realmente alegradora? Como sei que minha vida é uma vida que vale a pena ser vivida? Então, ele citou como exemplo um doce de leite… sim, um doce de leite que costuma ganhar de amigos e que ele gosta muito.

Disse que come o doce assistindo ao seu time jogar, mas que, por ansiedade do jogo, come o doce avidamente no começo. Quando ele percebe que o doce está acabando, no entanto, começa a diminuir a quantidade por colher, começa a economizar doce para demorar mais para acabar e conclui: a vida que vale a pena ser vivida é aquela que, como o doce, a gente não quer que acabe, que torce para durar mais tempo, que quer repetir.

E é claro que você somente vai se deliciar com um doce de leite se prestar atenção nele ao comer, se apreciar cada colherada, se sentir o prazer em seu consumo. Você só saberá quais momentos da sua vida são doces de leite quando aprender a estar presente integralmente nos momentos da sua vida, quando comer um doce de leite querendo comer doce de leite – e não, querendo comer pamonha, brigadeiro ou, sei lá, um doce londrino.

Talvez pela minha história de vida, aprendi a estar presente na minha vida e a identificar com facilidade os doces de leite que surgem para mim. E aprendi que o doce de leite real, aquele que está na sua boca, é muito, muito mais gostoso do que aquele que está na loja e que você não tem acesso, porque o real lhe proporciona alegria de verdade.

O professor Clóvis finalizou dizendo que o melhor presente que podemos dar às pessoas é proporcionar a elas momentos tão bons que elas desejem que não terminem nunca. E eu não sei para você que está lendo meu texto – ou para a minha amiga -, mas, para mim, rir até doer as bochechas ou receber uma música cantada especialmente para mim em uma aplicativo de mensagem instantânea são momentos que vivi na vida real e que desejaria repetir muitas vezes e que, certamente, estarão em minhas memórias mais felizes se novamente eu for parar em uma cama de hospital e, dessa vez, realmente não acordar mais.

Vou terminar meu texto mais uma vez com Mario Quintana, com um poema chamado Da Felicidade:

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz:

Em vão, por toda parte, os óculos procura

Tendo-os na ponta do nariz!

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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