quinta-feira, 8 de junho de 2017

Anima e Animus – O lado sombrio do relacionamento entre homens e mulheres

Por: Milene Lunes

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Tanto o homem como a mulher possuem dentro de si princípios da ordem do masculino e da ordem do feminino. Tais princípios são exemplos de arquétipos, ou seja, estruturas pertencentes a todos os seres humanos (inconsciente coletivo). De uma maneira geral, Wurzba aponta o feminino como o mundo dos impulsos naturais, das emoções e dos desejos espontâneos. Já o masculino, como a valorização do controle, do poder e domínio sobre a natureza exterior e interior – o autodomínio. Nesse sentido, existe uma inclinação da consciência do homem para o princípio masculino, ficando o princípio feminino em grande parte inconsciente. Na mulher, a disposição natural da consciência é para o princípio feminino, de modo que o princípio masculino fica voltado para o segundo plano. Carl G. Jung – famoso psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica – chamou de “anima” uma espécie de personalidade interior existente no homem formada por todas as suas tendências psicológicas femininas inconscientes. Em contrapartida, ele chamou de “animus” a personalidade interior da mulher formada por todas as suas tendências psicológicas masculinas inconscientes. São esses padrões arquetípicos que, do ponto de vista da psicologia analítica, estão por trás do relacionamento (não raro complicado) entre homens e mulheres. Convém, portanto, refletir sobre as possibilidades de manifestação dessas energias na vida de ambos os sexos.

Quando o homem não leva em consideração o seu mundo feminino interior, ele se ergue autônomo do inconsciente, acarretando grandes dificuldades em relação ao mundo dos afetos e das relações íntimas. Exemplos de manifestações negativas da anima são os humores instáveis e as más disposições que levam o homem a ficar impotente para o relacionamento. Ressalta-se ainda que o aspecto negro da anima é sempre gerar dúvida na mente de um homem, fazendo com que ele se perca em um nevoeiro filosófico. Segundo Sanford, os homens são famosos pela facilidade que têm de atribuir às mulheres a responsabilidade por suas próprias más disposições. A maioria deles projeta a censura relativa a essas más disposições em suas mulheres, levando-se em conta que a mulher, que o homem já amou alguma vez e que era considerada uma “deusa”, pode com a mesma facilidade ser por ele vista como uma “bruxa”, tornando-se ela, assim, tão desvalorizada quanto uma vez já foi supervalorizada. Quanto menos contato o homem tiver com seu lado (feminino) interior, mais essa face inconsciente atrapalhará a sua vida podendo até mesmo destruí-la. No momento em que a parte sentimental da vida desaparece da consciência, o relacionamento se degenera em sexo puro como a única forma de interagir com o outro. Para que o homem possa amar e estabelecer um relacionamento pessoal verdadeiro, é fundamental que aprenda a dialogar com a sua anima de maneira que seja capaz de firmar uma relação correta (cooperativa) com seu próprio inconsciente.

No caso da mulher, o animus também pode atuar de forma altamente destrutiva. Jung menciona que o animus pode se manifestar como uma pluralidade de “vozes” interiores negativas que têm uma tendência a fazer com que a mulher se identifique com julgamentos demolidores ou críticas destrutivas sobre si mesma e sobre outros. Segundo Marie-Louise Von Franz, uma das principais colaboradoras de Carl G. Jung, o animus de uma mulher ferida gera brigas emocionais turbulentas e é propenso a demonstrações brutais de seu poder – sua força bruta. (A anima tem formas mais sutis de demonstrar o seu poder). Segundo a autora, quando uma mulher se decepciona no amor, ela se torna amarga ou sábia, desenvolvendo um senso de humor ou certa perspicácia. Sobre esse aspecto, Jung menciona que o fracasso de um plano acalentado, o comportamento decepcionante da pessoa amada, pode suprir o impulso ou para uma explosão menos ou mais brutal de afeto ou para uma modificação e ajuste de sentimentos, portanto, para seu desenvolvimento superior. Isso culmina em sabedoria, se o sentimento for suplementado por reflexão e discernimento racional. Conforme o fundador da psicologia analítica, “a sabedoria nunca é violenta, pois onde reina a sabedoria não existe conflito entre pensar e sentir”. Logo, a mulher também precisa confrontar as suas profundezas para buscar liberar o seu potencial criativo. Quando a consciência da mulher estabelece uma relação correta com seu inconsciente, há o despertar da sua objetividade para lidar com a vida e o desenvolvimento de seu lado intelectual e espiritual.

A paixão corresponde a uma intensa projeção amorosa que se estabelece a partir das figuras de anima e animus. Von Franz define projeção como uma “forma imperceptível e involuntária de transferência de um fato psíquico e subjetivo para um objeto exterior”. Dessa maneira, a mulher que receber a projeção da anima de um homem será portadora das características da personalidade inconsciente desse homem e por esse motivo exercerá sobre ele uma forte atração. Sanford menciona que no caso, por exemplo, do velho que deseja a jovem, geralmente se encontra uma pessoa que esteve demasiadamente ligada ao arquétipo do senex, isto é, por demais rígido, velho, exageradamente apegado ao poder de dirigir, ou intelectual demais. Assim, o anseio se volta para Eros, para a juventude plena e eterna, em suma, para o espírito, sob a forma de uma figura simbólica que compense o consciente unilateral do homem e que se ofereça para trazer o êxtase da totalidade. De forma análoga, quando a mulher projeta sobre um homem sua imagem de animus positiva (a imagem do salvador, herói ou guia espiritual) ela supervaloriza tal homem, fica fascinada, sente-se atraída por ele, vendo-o como o homem máximo e o amante ideal. Tais projeções são particularmente prováveis de serem feitas sobre homens que possuem o dom da palavra. No entanto, o autor lembra que o homem que recebe tais projeções pode muitas vezes não ser digno delas: Adolph Hitler parece ter recebido a projeção do animus das mulheres de seu tempo. Ele possuía uma qualidade arquetípica quando falava e um poder de fascinação com as palavras.

Assim, existe em cada um de nós a propensão para desejar sexualmente algo que está faltando em nosso próprio desenvolvimento consciente. Por isso, a paixão física, se de fato conduzida pela anima ou pelo animus, não leva a realidade, pois ela é uma imagem e sua qualidade divina (ou arquetípica) conduz a possessão e a irrealidade (situando-se, portanto, na esfera de uma relação desumanizada). É importante não esquecer ainda que, segundo Emma Jung, a manifestação da anima evoca a do animus e a manifestação do animus evoca a da anima e isso coloca em andamento um círculo vicioso difícil de interromper e forma-se, dessa maneira, uma das piores complicações no relacionamento entre homem e mulher. É necessário, portanto, estabelecer um relacionamento que supere a atração cega proveniente da projeção dessas figuras do inconsciente. Para Von Franz, “embora, inicialmente, essa atração esteja sempre presente de algum modo, já que ninguém integrou realmente anima ou animus a ponto de impedir a interferência dessa atração, é necessário, no entanto, ser capaz de mantê-la sob controle e ir além dela para que seja possível estabelecer um relacionamento amoroso verdadeiro, seja ele qual for”.

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Sobre o autor

Milene Lunes

Psicóloga, mãe da Geórgia, desenhista e poeta.

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